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Eleições 2026: Desinformação exige atenção redobrada na reta final da campanha

Desinformação

(Foto: Pedro França/Agência Senado)

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Uma informação pode alcançar milhares de pessoas antes mesmo que sua origem seja conhecida ou seu conteúdo seja conferido e, na reta final das eleições, esse movimento pode ser intensificado. A velocidade das redes sociais digitais encurtou o caminho entre receber e compartilhar, enquanto verificar se uma acusação, imagem ou vídeo corresponde aos fatos continua exigindo tempo. É nesse intervalo que a desinformação encontra espaço para circular e influenciar a maneira como o eleitor interpreta a disputa.

A jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Iluska Coutinho, chama atenção para essa diferença de ritmo. A docente relembra que o jornalismo profissional depende de apuração, conferência e contextualização, processos que não acompanham necessariamente a velocidade de conteúdos que circulam sem qualquer checagem. No período eleitoral, o problema ganha outra dimensão quando uma publicação provoca indignação ou surpresa e estimula uma reação antes que sua veracidade seja questionada.

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“Em tempos de eleição isso fica ainda mais perigoso porque as pessoas não dão nem tempo de fazer aquelas perguntas que seriam básicas. Como essa informação chegou até mim? Se eu passar essa informação adiante, posso estar prejudicando alguém? Quem está ganhando com essa informação circulando rápido?”, pondera Iluska.

Um dado verdadeiro apresentado pela metade, um vídeo retirado de contexto ou uma acusação que omite informações importantes também podem levar ao engano, já que nem toda desinformação é uma história completamente inventada. Para o jornalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Vinícius Borges, essa característica torna necessário olhar não apenas para o que determinado conteúdo afirma, mas também para a maneira como ele foi construído e para aquilo que deixou de mostrar.

Fato ou Boato

Buscar a origem da publicação é um dos primeiros passos indicados pelos especialistas. Iluska recomenda verificar quem produziu o conteúdo, se essa pessoa ou instituição tem conhecimento sobre o assunto e procurar outras fontes antes de chegar a uma conclusão. Vinícius, por sua vez, acrescenta que mensagens alarmistas e chamadas que prometem revelar aquilo que supostamente estaria sendo escondido são sinais para redobrar a atenção.

Entre as ferramentas disponíveis para checagem está o Fato ou Boato, página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reformulada para as eleições de 2026. A plataforma reúne checagens do próprio tribunal e de dez instituições parceiras, além de conteúdos educativos. É possível pesquisar informações já verificadas e consultar orientações para identificar publicações suspeitas.

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O Fato ou Boato não funciona como canal de denúncia, quem identificar propaganda eleitoral irregular pode recorrer ao Pardal, aplicativo que permite enviar à Justiça Eleitoral informações e provas – como fotos, vídeos e áudios. Para casos de desinformação capazes de afetar a integridade das eleições, existe o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade), que recebe, por exemplo, alertas sobre informações falsas a respeito da votação, conteúdos que se passam por comunicações da Justiça Eleitoral e disparos em massa no WhatsApp. O Siade não recebe denúncias de notícias falsas contra candidatos ou partidos.

A conferência também pode começar fora dos canais oficiais, procurando se a mesma informação foi publicada por veículos jornalísticos confiáveis, conferindo a autoria e indo além do título antes de compartilhar um conteúdo.

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O impulso de acreditar

A velocidade ajuda a desinformação a chegar mais longe, mas a capacidade de convencer envolve outro componente apontado por Iluska e Vinícius: conteúdos que despertam emoções encontram um ambiente mais favorável ao compartilhamento, sobretudo quando reforçam percepções que o eleitor já possui.

Vinícius relaciona esse comportamento à radicalização política. Quando uma mensagem confirma aquilo que uma pessoa já pensa sobre determinado candidato ou grupo, a disposição para questioná-la pode diminuir, principalmente quando sentimentos como raiva, aversão ou revanchismo entram em cena.

Os jornalistas e docentes Iluska Coutinho e Vinícius Borges refletem sobre os efeitos da desinformação nas eleições 2026 (Fotos: Acervos pessoais)

“O principal vilão é o processo de radicalização, e isso independe do instrumento que se usa. Quando um grupo político manipula afetos como o revanchismo, o ódio e a aversão a grupos contrários, isso faz com que as pessoas fiquem mais propensas a acreditar naquilo que essas ferramentas oferecem”, explica o professor da PUC Minas.

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Mesmo quando uma afirmação falsa ou enganosa é verificada pelo jornalismo, a correção não necessariamente chegará às mesmas pessoas alcançadas pelo conteúdo original. Para Vinícius, a checagem é indispensável, mas o enfrentamento da desinformação também depende da atuação de instituições e de outras iniciativas da sociedade.

Outra distinção importante aparece nos materiais produzidos pelas próprias campanhas: Iluska lembra que uma propaganda eleitoral tem como finalidade convencer e engajar. Isso não significa que seja necessariamente falsa, mas que é produzida a partir de um interesse específico e pode selecionar aspectos favoráveis a uma candidatura ou negativos sobre um adversário.

IA amplia o desafio

Conforme apontado por Iluska, fotografias, áudios e principalmente vídeos já foram capazes de transmitir uma sensação maior de segurança sobre aquilo que estava sendo mostrado. No entanto, com a inteligência artificial, essa confiança se tornou mais frágil, já que, com, ferramentas disponíveis atualmente, é possível produzir imagens, reproduzir vozes e criar vídeos de pessoas dizendo ou fazendo coisas que nunca aconteceram.

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Nesse cenário aparecem os deepfakes, conteúdos manipulados ou gerados com inteligência artificial para simular de maneira convincente a imagem ou a voz de uma pessoa. Vinícius considera que esse recurso deve ter importância nas eleições de 2026, mas evita tratar a tecnologia como causa central do problema. Para ele, a IA é uma ferramenta, enquanto a capacidade de uma falsificação convencer continua ligada a quem a recebe e ao contexto em que circula.

O professor ressalta que encontrar defeitos visíveis em uma imagem ou vídeo, portanto, não pode ser o único critério para decidir se algo é verdadeiro. Conferir quem publicou, procurar a origem e verificar se veículos confiáveis registraram aquele fato são cuidados que permanecem válidos mesmo diante de conteúdos produzidos com tecnologias mais sofisticadas.

Procure se essa informação já foi divulgada por um veículo de imprensa de confiança, pelo menos um ou dois, para que você tenha uma clareza do que aquilo quer dizer”, orienta Vinícius.

A desinformação eleitoral nem sempre chega como uma mentira evidente. Pode aparecer em um vídeo convincente, em uma informação verdadeira sem o contexto necessário ou justamente em algo que confirma aquilo em que o eleitor já acreditava. E mesmo quando o conteúdo é desmentido, o estrago pode não ser desfeito na mesma velocidade. Como alerta Iluska, “infelizmente, muitas vezes a informação correta vai circular muito mais devagar do que aquela informação falsa”.

* Estagiário sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.

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