
O ano era 2018, véspera de feriado pelo Dia da Independência do Brasil. O então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro (PL), veio a Juiz de Fora em campanha tensa, em meio ao avanço da extrema direita e a disputa acirrada com a esquerda. A facada desferida contra o abdômen do presidenciável em pleno Calçadão da Rua Halfeld, na esquina com a Rua Batista de Oliveira, quando ele era carregado nos ombros por apoiadores e escoltado por policiais federais, entrou para a história e foi considerada por especialistas como fundamental para a vitória de Bolsonaro nas urnas. Oito anos depois, o filho Flávio (PL) foi quem fez o mesmo percurso, nesta quarta-feira (9), durante sua campanha à presidência da República na cidade.
Com agenda atrasada em cerca de duas horas, Flávio chegou ao Calçadão em motociata que partiu do Aeroporto da Serrinha, onde já havia exposto sua intenção: “Conseguir chegar até o final e poder me dirigir ao povo mineiro e ao povo de Juiz de Fora, em agradecimento por todo o carinho que sempre tiveram com o presidente Bolsonaro e por ser o local onde nós consideramos que é o seu segundo nascimento.” Mesmo tendo sido carregado nos ombros por poucos metros, o candidato, que visivelmente usava colete à prova de balas, tentou reconstruir não só o percurso, mas também imagem semelhante à do pai. Por isso, afirmou ter feito questão de usar a mesma camisa que Jair vestia naquela data. No entanto, não conseguiu atrair tantos apoiadores quanto o pai em suas vindas à cidade.
O discurso em cima do trio também foi ácido. Aprovar castração química para estuprador, classificar as facções criminosas PCC e CV como terroristas – “ou serão presos ou serão ‘neutralizados’ pela nossa polícia” – e a promessa de indicar cinco ministros ao Supremo Tribunal Federal contrários às drogas e ao aborto, deram o tom da campanha, ao lado de apoiadores políticos. Entre eles, estava Domingos Sávio, candidato ao Senado por Minas Gerais e presidente estadual do PL (Partido Liberal). Em meio aos gritos de “Fora, Lula”, proferidos pelo público, ele incentivou que “lugar de ministro do STF é na cadeia”, contribuindo para gritos de “Fora, Moraes”, em referência ao ministro do Supremo, Alexandre de Moraes.
Candidato ao Governo de Minas Gerais pelo PL, o empresário e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, usou poucas palavras, mas pediu “impeachment dos ministros corruptos” e “anistia já”, referindo-se aos presos pelo atentado de 8 de janeiro de 2023. O concorrente à reeleição para o cargo de deputado federal, Nikolas Ferreira (PL), que atua como uma das principais lideranças da campanha de Flávio, começou sua fala puxando “Fora, Lula” e “Fora, Moraes”. Depois de recordar o epísódio da facada e a prisão de Jair Bolsonaro, ele disse que, em 1° de janeiro, vai subir a rampa junto com Flávio. “Aqui em Minas Gerais, Flávio Bolsonaro já passou o Lula”, considerou o deputado, que ressaltou ser cidadão de Juiz de Fora e entregou sua medalha de cidadão honorário, que estava nas mãos da vereadora Roberta Lopes (PL), para o presidenciável. O ato foi encerrado por volta das 12h45.
“Isso que vocês fizeram agora, junto comigo: completaram o caminho que o Bolsonaro não conseguiu concluir. Chegamos simbolicamente onde ele chegaria quando tomou uma facada. Foi uma volta simbólica, usando a mesma camisa que o Bolsonaro usava naquele dia”, disse Flávio. “Não pense que enquanto eu andava no meio de vocês, não veio a imagem de um ex-integrante do Psol cravando a faca na barriga dele”, disparou. Ele ainda dedicou a medalha ao pai e se colocou como cidadão de Juiz de Fora.
