A presença da religião na política brasileira não é um fenômeno recente, mas ganhou novas formas de visibilidade com a ampliação das plataformas digitais e a participação mais direta de grupos e lideranças religiosas no debate público. Para pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), essa relação atravessa a própria formação política do país e, ao longo das últimas décadas, passou também a ocupar de maneira mais explícita as disputas eleitorais.
Professora do Departamento de Ciência da Religião da UFJF, Elisa Rodrigues considera que as redes sociais ajudam a explicar por que essa relação se tornou mais visível, embora não sejam responsáveis por sua origem. “A religião sempre esteve presente na esfera pública política como um agente, como uma representação de interesses de parte da sociedade”, afirma.
Na avaliação da pesquisadora, diferentes tradições religiosas buscaram historicamente reconhecimento e espaço na sociedade brasileira, em processos que envolveram católicos, protestantes, evangélicos, espíritas e religiões afro-brasileiras. A exposição atual, segundo ela, está relacionada também à velocidade com que discursos religiosos e políticos circulam nas plataformas digitais, ampliando debates que antes alcançavam públicos mais restritos.
O professor Paulo Barrera Rivera, também do Departamento de Ciência da Religião da UFJF, identifica uma mudança especialmente importante a partir das últimas décadas do século passado. Segundo ele, setores que anteriormente mantinham maior distanciamento das disputas institucionais passaram a compreender de outra forma a participação no espaço político. “A participação de religiões na política, embora não seja um fenômeno novo, se torna mais intensa no presente século.”
Para Paulo, essa transformação não se resume à participação de pessoas religiosas nas eleições. Ao longo do processo, grupos e lideranças passaram também a disputar representação e espaços de decisão, movimento que, segundo o pesquisador, se tornou particularmente perceptível no campo evangélico.
Nomes de urna refletem presença religiosa na disputa
Essa presença aparece de forma concreta nas próprias candidaturas. A Tribuna de Minas levantou, a partir dos nomes divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 448 candidaturas que utilizam referências religiosas no nome de urna nas eleições de 2026. Foram considerados termos como pastor, irmão, missionário, bispo, padre, apóstolo, frei, profeta e diácono, além de referências a religiões de matriz africana.
A maior parte utiliza pastor ou pastora, referência encontrada em 287 nomes, enquanto irmão, missionário e bispo aparecem em seguida. O levantamento também identificou referências a Oxum, Oxóssi, Oxalá, Ogum, Xangô, Iansã, Oyá, Nanã e terreiro, além de outras denominações religiosas.
A concentração está principalmente nas eleições legislativas, já que mais de nove em cada dez dessas candidaturas disputam uma vaga de deputado estadual ou federal. No conjunto analisado, 64,7% são homens e 35,3% mulheres.
Em Minas Gerais, foram encontradas 30 candidaturas, todas para deputado estadual ou federal. Pastor ou pastora também predomina no estado, com 20 registros, enquanto os demais se dividem entre missionário, bispo, padre, irmão, diaconisa e uma referência a terreiro.
Os números não indicam necessariamente a religião pessoal dos candidatos, mas mostram uma escolha de identificação pública feita para a disputa eleitoral. Para Elisa, compreender esse movimento exige considerar que as religiões também são formadas por grupos que apresentam demandas, valores e perspectivas próprias no espaço público. A questão, segundo ela, está menos na existência dessa participação e mais na maneira como ela se relaciona com a diversidade da sociedade.
Estado laico não significa ausência da religião
Na avaliação de Elisa, a participação religiosa na política não é incompatível, por si só, com a laicidade do Estado. O modelo brasileiro, segundo a pesquisadora, foi construído historicamente a partir da relação com diferentes religiões e não pressupõe que elas sejam retiradas do debate público.
“A gente não tem que excluir a religião, mas a religião precisa entender que o papel dela dentro dessa esfera pública política, dentro de um Estado democrático de direito, é de contribuir para que o pacto social favoreça a todos e todas igualmente”, afirma.
Nesse entendimento, grupos religiosos podem apresentar projetos, demandas e visões de mundo no espaço político da mesma forma que outros segmentos da sociedade. Segundo a pesquisadora, o limite aparece quando uma crença busca transformar suas próprias convicções em regras capazes de restringir direitos ou a liberdade de grupos que não compartilham daquela visão.
Paulo também chama atenção para os efeitos que essa relação pode produzir dentro das próprias comunidades religiosas. Para o pesquisador, lideranças podem exercer influência sobre as escolhas políticas dos fiéis, embora essa influência não aconteça de maneira isolada, já que informações, campanhas e discursos circulam simultaneamente por diferentes meios. A preocupação aumenta, em sua avaliação, quando a divergência deixa de ser tratada como parte da disputa democrática. “Considerar o adversário como inimigo é transformar a política na guerra.”
A discussão sobre religião e política, portanto, não se encerra na presença de candidatos religiosos ou no uso de títulos de fé nas urnas. Para Elisa, o ponto central está em garantir que essa participação aconteça dentro de um espaço em que diferentes religiões, grupos e formas de vida tenham a mesma possibilidade de existir e de serem representados.
Esse equilíbrio, segundo a pesquisadora, depende também da atuação das instituições na preservação dos direitos já assegurados e na definição dos limites entre convicção religiosa e poder público. “Quando uma religião quer sobrepor a sua vontade sobre todas as outras religiões, sobre todos os outros grupos sociais, outras comunidades, aí a gente tem um problema, a gente tem uma ameaça à laicidade, há uma ameaça ao Estado de direito, há uma ameaça ao pacto social que o Estado estabelece com a sociedade civil.”
* Estagiário sob supervisão da editora Fabíola Costa

