
Presidente voltou a criticar Cunha: “Ele é o pecado original do processo de impeachment” (Valter Campanato/Agência Brasil)
Senadores realizaram ontem segunda sessão da comissão especial (Edilson Rodrigues/Agência Senad)
Brasília (AE) – O Palácio do Planalto e a cúpula do PT já começaram a traçar estratégias de reação a uma eventual gestão comandada pelo vice-presidente Michel Temer e decidiram que não farão qualquer tipo de transição de Governo. A ordem no Planalto para todos os ministérios controlados pelo PT é deixar o peemedebista “à míngua”, sem informações sobre a administração, e acelerar os programas em andamento pela presidente Dilma Rousseff.
Em reunião a portas fechadas com o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, e com o presidente do PT, Rui Falcão, deputados foram informados que a atual equipe não vai respaldar um governo “ilegítimo” e, por isso, não haverá transição para Temer. Até mesmo arquivos com dados estratégicos da administração estariam sendo apagados.
Com a certeza de que Dilma será afastada por até 180 dias no primeiro julgamento no plenário do Senado, que deve ocorrer em 11 de maio, o Governo e o próprio PT já preparam os próximos passos do divórcio litigioso. A ideia é reforçar a estratégia de carimbar Temer como “golpista” e “vice 1%”, numa referência à sua falta de densidade eleitoral.
O ex-presidente Lula da Silva pediu a Dilma, com quem almoçou ontem, um “pente-fino” sobre todos os programas sociais dos 13 anos do PT no Governo, desde o seu primeiro mandato. A intenção é bater na tecla do legado do partido, com vitrines como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, em contraposição ao programa “ortodoxo” de Temer, que, no diagnóstico dos petistas, prevê mais sacrifícios aos menos favorecidos.
Apesar de ser alvo da operação Lava Jato e de ter perdido capital político, Lula ainda é o único nome forte de que o PT dispõe para a sucessão de 2018 e tudo será feito pelo partido para construir a narrativa de que Dilma foi “apeada do poder”.
Eleições
A presidente Dilma Rousseff voltou a dar sinais de que está disposta a enviar ao Congresso uma proposta de antecipação das eleições para encurtar o seu próprio mandato. O vazamento dessa estratégia, porém, contrariou Dilma, que ainda avalia o melhor momento para tomar a iniciativa. Após conselho do ex-presidente Lula, o grupo de senadores independentes, que defendem a antecipação das eleições presidenciais, deu mais um passo para a tramitação da proposta no Congresso. Eles levam hoje de manhã, uma carta à presidente pedindo que ela mesma encaminhe ao Congresso uma sugestão de encurtamento de seu mandato.
Lula e o ministro-chefe do gabinete da Presidência, Jaques Wagner, se reuniram ontem com João Capiberibe (PSB-AP), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Lídice da Mata (PSB-BA), entre outros senadores, em um café da manhã e demonstraram simpatia pela proposta. Na carta, os senadores sugerem que a presidente, em uma “posição altiva” de “saída da crise pelo voto popular”, poderia enviar ao Congresso sua proposta de realização de novas eleições. Um projeto enviado por Dilma teria mais força política e respaldo jurídico. Ontem, Dilma voltou a criticar abertamente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e disse que ele é o “pecado original” do processo de impeachment no Senado.
Brasília (AE) – Na segunda sessão da comissão especial do impeachment no Senado, ontem, parlamentares analisaram convites para que especialistas de áreas que estariam envolvidas no processo participem das sessões de discussão do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Mesmo sob o argumento de que o Governo não deveria levar representantes de bancos públicos para dar depoimento no Senado, os requerimentos foram aprovados por acordo, permitindo que tanto defesa quanto acusação levem seus convidados ao Senado (ver quadro).
Os governistas conseguiram aprovar o convite aos ministros da Fazenda, Nelson Barbosa, e da Agricultura, Kátia Abreu. Eles participarão da audiência amanhã, juntamente com um representante do Banco do Brasil, que é o operador do Plano Safra. No mesmo dia, o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, fará a defesa da presidente. O líder do DEM, senador Ronaldo Caiado (GO), criticou a indicação de um integrante de um banco público para a defesa da petista. Segundo ele, o banco não é responsável pelos créditos, mas sim uma vítima da política adotada pelo governo.
“Tanto a instituição Banco do Brasil como seus dirigentes são, na verdade, vítimas da própria condução equivocada da presidente da República. O banco foi penalizado no caso do Plano Agrícola e Pecuário e Plano Safra da Agricultura Familiar. A presidente usou dinheiro do BB para pagar os subsídios essenciais para o setor rural, mas que deveriam ser pagos com dinheiro do orçamento”, disse o senador.
Antes disso, os autores do pedido de impeachment, Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr., farão hoje a apresentação dos argumentos da acusação. Na próxima semana, dois dias serão dedicados à fala de especialistas em direito e economia, indicados tanto pela defesa quanto pela acusação.
Críticas
Na sessão, o líder do Governo, Humberto Costa (PT-PE), fez duras críticas ao vice-presidente Michel Temer durante sessão da comissão especial do impeachment. O senador petista acusou o peemedebista de “sentar na cadeira antes da hora” e de tratar o Congresso como um órgão auxiliar de seu projeto de poder. “Queria demonstrar o meu repúdio ao vice-presidente da República que, ignorando que ainda estamos em um processo de análise do impeachment, faz reuniões abertas para tratar de cargos no governo”, criticou o parlamentar pernambucano. O senador petista também atacou a forma como Michel Temer tem agido, ao montar seu possível Governo ignorando o processo ainda em curso no Senado. “Ele trata esse Congresso como um órgão de homologação e já se considere presidente da República.”

