
Aécio, com ampla aliança de oposição, tenta alçar o PSDB de novo ao Palácio do Planalto
Dilma busca reeleição que assegurará a permanência do PT por 16 anos no poder
Pesquisas apontam vitória da presidente Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno das eleições. Calma! Você não está lendo errado. Esses eram os prognósticos apontados pelos institutos de opinião há um ano, em outubro de 2013. De lá para cá, o cenário sucessório para a Presidência da República entrou em espiral em que inúmeros prognósticos dados como certos ruíram da noite para o dia. Teve de tudo um pouco nos 12 meses que antecederam o pleito de hoje, quando a presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff enfrenta o senador Aécio Neves (PSDB) no segundo turno. Uma disputa que, para muitos, devido às discrepâncias observadas entre os números das pesquisas e os resultados do primeiro turno e os levantamentos realizados nas últimas semanas, está em aberto e será decidida voto a voto.
O primeiro ato do roteiro de reviravoltas aconteceu há 365 dias de realização do primeiro turno. No dia 5 de outubro de 2013, sem conseguir consolidar a ambição de ter o seu próprio partido – a chamada Rede Sustentabilidade -, Marina Silva anunciou sua filiação ao PSB. A notícia caiu como uma bomba no recorte eleitoral do momento, já que a ex-senadora possuía um espólio de quase 20 milhões de votos da disputa presidencial de 2010. Legado este que se somava às aspirações nacionais do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), figura em ascensão no cenário político e que havia comandado a saída de seu partido da base do Governo Dilma há pouco mais de duas semanas, para se consolidar pré-candidato ao Palácio do Planalto.
Estabeleceu-se a primeira celeuma: quem seria o cabeça de chapa do PSB? Marina tinha a seu favor a boa votação recebida no pleito anterior. Campos era a mente pensante da legenda que abrigava o rebanho da “clandestina” Rede. Nas primeiras pesquisas após a adesão, os números pendiam para a ambientalista. No cenário em que o governador pernambucano era colocado como candidato, ele aparecia na terceira colocação atrás de Dilma, Aécio ou até mesmo José Serra (PSDB), que ainda tentava articular sua candidatura nos bastidores do tucanato paulista. Quando Marina era colocada como possibilidade, superava qualquer nome cogitado pelo PSDB e aparecia na segunda posição nas intenções de voto, em um cenário onde quaisquer dos recortes davam à Dilma uma vitória no primeiro turno.
As nuvens de dúvidas começaram a se dissipar em abril deste ano. A própria Marina desfez o mistério: ela seria a vice de Campos. Em junho, uma convenção partidária oficializou a chapa puro sangue. No mesmo mês, os tucanos também aclamaram Aécio candidato, sepultando quaisquer correntes internas que ainda apostavam em José Serra. Com as três principais candidaturas definidas, em meados de julho, o Datafolha foi à campo e apontou um cenário onde Dilma liderava com 36%. Aécio aparecia com 20%. Campos tinha 8%. As previsões de uma vitória da presidente ainda no primeiro turno haviam virado fumaça. Na segunda posição, Aécio mostrava que a polarização PT-PSDB ainda ditava o jogo eleitoral. Abaixo da casa dos dez pontos, Campos teria que gastar sola de sapato e horas de voo para percorrer o país e se viabilizar como uma terceira via forte.
A queda do avião
Campos cruzou o mapa. Até o dia 10 de agosto, era o candidato que mais havia rodado o país, com 28.300 quilômetros percorridos por terra e ar. À época, acumulava 47 deslocamentos entre 32 cidades. Visitou, inclusive, Juiz de Fora no dia 26 de julho. A estratégia do ex-governador era clara: tornar seu rosto conhecido nacionalmente, objetivo atingido de forma trágica. Às 9h21 da manhã do dia 13 de agosto, Campos embarcou em um jato Cessna 560XL, no Rio de Janeiro, para um destino nunca alcançado: o aeroporto do Guarujá, interior paulista. Por volta das 10h, após tentar pousar, a aeronave arremeteu e caiu em uma área residencial em Santos, custando a vida da jovem liderança política. Aos 49 anos, o socialista saiu de cena no mesmo dia em que, nove anos atrás, havia falecido seu avô e padrinho político, Miguel Arraes.
Ascensão e queda de Marina Silva
A tragédia jogou no chão o tabuleiro eleitoral e as peças nunca mais foram posicionadas da mesma maneira. A ausência de Campos elevou Marina ao status de candidata natural do PSB. No dia 18 de agosto, antes de a ambientalista ser confirmada na disputa, o Datafolha já a colocava na segunda colocação com 21% das intenções de voto. Dois dias depois, a ex-senadora foi oficializada presidenciável. Apoiada pela comoção com a morte de Campos e pelo discurso da nova política, Marina sobe nas pesquisas como um foguete e, no dia 3 de setembro, aparece empatada tecnicamente com Dilma na liderança. A petista tinha 35% contra 34% da adversária de acordo com o Datafolha, que apontava ainda uma vantagem de oito pontos para a ambientalista em um segundo turno contra a petista. Naquele momento, uma possível vitória de Marina era considerada pule de dez.
A campanha incendiou de vez. O fogo cruzado entre os três candidatos era franco. Momentaneamente alijado da disputa, Aécio atacava tanto Dilma quanto Marina. Por sua vez, a petista concentrava a artilharia contra a candidata do PSB. Apesar de serem alvos de escândalos que pipocavam na mídia com frequência, PT e PSDB conseguiram vencer a batalha da desconstrução, e o que era um bom desempenho de Marina nas urnas foi se desintegrando a cada dia . Tucanos e socialistas chegaram no dia 5 de outubro para disputar a segunda vaga no segundo turno. Entretanto, ao contrário do que apontavam as pesquisas, a paridade entre a intenção de votos de Aécio e Marina não se mostrou real. Em mais uma reviravolta no processo eleitoral, o senador traçou uma curva ascendente e manteve sua ambição presidencial viva.
Ao final da contagem de votos Dilma, com 41,59%, e Aécio, com 33,55%, avançaram para o segundo turno. Em terceiro lugar, Marina se despediu do processo com 21,32% dos votos válidos e protagonizaria a primeira reviravolta – não tão surpreendente – da semana seguinte.
Segundo turno é marcado por tom agressivo
O visível crescimento de Aécio Neves na reta final do primeiro turno – corroborado pelo resultado das urnas que deixou vários institutos de pesquisas de calças curtas – colocou o mineiro como bola da vez logo após o resultado da apuração. O ex-governador de Minas Gerais dominou o noticiário em um primeiro momento, amealhando apoios de todos os lados. O mais importante deles talvez tenham sido o do PSB e o de Marina Silva, que, após afirmar que não subiria em palanque do PSDB, mudou o tom do discurso e declarou voto no senador. Bons ventos balançavam as bandeiras tucanas e as primeiras pesquisas de intenção de voto davam a Aécio vantagem numérica de dois pontos percentuais sobre Dilma Rousseff, em um cenário que caracterizava um empate técnico. Apesar da igualdade, no início da campanha do segundo turno, a balança parecia pender para o ex-governador, já que, pela primeira vez o tucano se mostrava com chances reais de vitória.
A polarização entre PT e PSDB nunca foi tão evidente, e o país ficou dividido meio a meio. As duas metades – vermelha e azul – partiram então para a ofensiva. As mídias sociais se tornaram campo para as mais estapafúrdias estratégias de ataque. Propostas e verdades se tornaram nota de rodapé de mentiras, calúnias e difamações de parte a parte. O tom belicoso se acentuou nas campanhas oficiais. Invadiu o horário eleitoral gratuito e as inserções de rádio e TV. Dilma se tornou “leviana” nas palavras de Aécio. O senador foi chamado de “filhinho de papai” pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Alguns debates televisivos se mostraram um circo de horrores, com assertivas agressivas e de baixo nível de um lado e de outro.
O acirramento da disputa, entretanto, parece ter fragilizado a candidatura do PSDB. Nas pesquisas da última semana, a presidente apareceu na dianteira pela primeira vez no segundo turno. Na segunda-feira, Ibope e Datafolha davam à petista uma vantagem – respectivamente -de dois a três pontos percentuais. A diferença que era numérica superou a margem de erro no meio da semana. Entretanto, Aécio seguia confiante, valendo-se de levantamentos como os do Sensus e do Verittá, que apontavam o tucano à frente. No meio da semana, PT e PSDB fizeram um pacto para cessar as agressões no rádio e na TV. Acordo para inglês ver, já que a propaganda nas mídias tradicionais se encerrou na sexta-feira, enquanto, na internet e nas ruas, as militâncias voluntárias e pagas de petistas e tucanos continuaram sob fogo cruzado, em uma discussão nivelada por baixo.
O duelo de bem contra o mal que se tornou a disputa presidencial se encerra hoje, quando, por volta das 20h30, o Brasil vai conhecer quem será seu presidente da República pelos próximos quatro anos. Uma coisa é certa: seja Dilma ou seja Aécio, o vencedor das eleições vai ter muito trabalho para unir um país dividido por uma campanha raivosa, em que as propostas e os programas de governo foram relegados a segundo plano, e o país perdeu a oportunidade de propor uma nova agenda política.

