Seis a cada dez pessoas têm medo de serem agredidas fisicamente pela sua escolha política ou partidária. É o que aponta a pesquisa Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança, feita pelo Instituto Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileira de Segurança Pública. O percentual, de 59,6% dos brasileiros com 16 anos ou mais, indica recuo em relação a 2022, quando atingia 68% da população. Mesmo assim, a violência política pode tornar as eleições de 2026 ainda mais tensas que as últimas, de acordo com Ludmila Ribeiro, professora e pesquisadora da UFMG.
Os números variam quando a pesquisa faz a diferenciação por sexo, raça e classe. Mulheres (65,5%) sentem mais medo de agressão política do que os homens (53,1%); a população negra (61,4%) também teme mais a violência ante a branca (56,7%); por fim, o receio é mais acentuado nas classes econômicas D e E (64,2%), seguidas pela C (58,9%) e, depois, A e B (54,9%).
Além do medo, a pesquisa deu números absolutos no que diz respeito às agressões físicas ocorridas por motivação política: 2,2% da população, o que representa uma projeção de 3,6 milhões de pessoas, afirma ter sido agredida fisicamente por sua escolha política ou partidária no último ano. Por sua vez, homens (2,9%) são mais vitimados do que mulheres (1,5%); negros (2,6%) relatam mais agressões políticas do que brancos (1,4%); e a maior vitimização ocorre na classe D/E (3,5%), seguida pela classe A/B (2,2%) e classe C (1,4%).
A Tribuna pediu ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) dados referentes a casos de violência política registrados em Minas Gerais e, mais especificamente, em Juiz de Fora, ano a ano desde 2023. Contudo, o órgão respondeu que não possui esses dados, visto que há uma limitação de extração de relatórios no sistema Processo Judicial eletrônico, “o que é um impeditivo para apurar eventuais processos sobre o assunto”.
Violência política: o que é?
A violência política é aquela na qual há uso ou ameaça de uso da força, mas pode haver também coerção e intimidação, conforme explica Ludmila Ribeiro, professora e pesquisadora da UFMG. “Pode ser violência física, psicológica, simbólica e institucional – com o objetivo de controlar determinados direitos políticos.”
Ela destaca que a eleição nacional passada, de 2022, foi marcada por violência política, mas a de 2018 já trouxe discussões, inclusive com pessoas usando a força por questões relacionadas a preferência por candidatos. “Me lembro de um caso muito famoso, de um agente penitenciário que estava celebrando o aniversário e o tema era o PT. Um guarda municipal viu aquilo, foi em casa, buscou a arma e o matou. É um caso muito emblemático de violência política, com o uso da força física.”
O período eleitoral anterior também foi marcado pela violência política institucional, segundo Ludmila. O conceito se refere a quando, sobretudo, as instituições públicas usam do poder de intimidação, para perseguir adversários políticos ou restringir direitos fundamentais.
“Um exemplo foram as operações da Polícia Rodoviária Federal para impedir eleitores de chegarem até as urnas e exercerem seu direito de voto. Também houve violência institucional não apenas exercida por burocracias públicas, mas por privadas. Empregadores coagindo os empregados a votar em um determinado candidato. Inclusive, no prédio onde eu morava, o síndico chamou todos os funcionários do condomínio e começou a quase dizer que se não votassem no candidato X, nem precisavam aparecer no dia seguinte. Eu vi e interferi na situação.”
Voto é essencial
A pesquisadora destaca que o voto é parte dos direitos políticos, é essencial. “O Brasil é uma das grandes democracias consolidadas do mundo, até do ponto de vista de algo muito forte na teoria política, que é cada cabeça contar um voto. Nos Estados Unidos, por exemplo, você não tem isso: há cotas em alguns estados, em que uma cabeça vale mais do que um voto e o contrário também”, destaca. Além disso, Ludmila acrescenta que a expectativa para as eleições de 2026 é de “algo um pouco mais dramático do que foi visto nas últimas”.
Para ela, isso é revelador do quão institucionalizados estão a cisão política na sociedade brasileira e o uso da violência para impedir o outro de exercer o próprio direito, o que inclui diferentes tipos de estratégia: ameaça, assédio moral, violência física e até a violência institucional. “Os analistas políticos vão dizer: quando a campanha começa, as pessoas ficam com muito mais medo. ‘Se eu sair de casa vestido de verde e amarelo ou de vermelho, eu vou ser agredido?’ Então, há um grande medo.”
Mais de 3% sofreram agressão física em bairros com facções
Outro fator que gera impacto nos números de violência política no Brasil é o crime organizado. Em bairros com presença de facções ou milícias, a vitimização sobe: 3,3% das pessoas afirmam ter sido agredidas fisicamente pela sua escolha política ou partidária, enquanto a média nacional fica em 2,2%. A pesquisa estima que 68,7 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem a presença, em seu bairro, de grupos organizados ligados ao tráfico ou à milícia.
Além disso, no que se refere à restrição da liberdade e autocensura, o estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a presença de grupos criminosos organizados gera um impacto direto no exercício da cidadania: 59,5% das pessoas que vivem nesses territórios evitam falar sobre política por medo.
“Há um alastramento muito maior do crime organizado. Vários especialistas, inclusive internacionais, têm destacado que ele só se institucionaliza quando existe corrupção do Estado. Ou seja, você tomar um território, submeter pessoas a regras ilegais e coagir determinados indivíduos à prática de ações só acontece se houver corrupção estatal”, destaca Ludmila Ribeiro.
Desde a chegada de mercadorias falsificadas até uma dimensão mais sensível, ela reforça que ocorre uma mudança do ponto de vista do avanço das facções em diferentes locais – inclusive da maior institucionalização do domínio territorial por parte de grupos organizados. “Assim, há interesse direto que os sujeitos que ocupam o Estado continuem o ocupando, para continuar com o negócio ilegal.”
“Quanto mais a pessoa concentra vulnerabilidades (seja de raça, econômica ou até morar em bairros onde as próprias pessoas dizem que têm facções ou milícias), maior o medo de sofrer violência política. No final das contas, é como se voltássemos à era do coronelismo, à lógica do voto de cabresto.”
Exposição às redes sociais intensifica insegurança
O relatório ainda destaca como o medo de sofrer violência é mediado pela exposição e presença nas redes sociais. “A partir do momento em que nossa vida está muito mais digitalizada, ela se relaciona a um ambiente que faz parte das nossas interações cotidianas. Quanto mais exposto a mídias sociais, maior a sensação de insegurança.”
Embora não haja dados para afirmar isso, Ludmila propõe como hipótese a lógica do “loop cognitivo”. “Eu vejo pessoas sofrendo violência em razão dos seus posicionamentos políticos. Com isso, tenho mais medo de sofrer o mesmo, o que aumenta absurdamente a sensação de insegurança. Isso é comum também em outros delitos, como na violência contra a mulher”, exemplifica.
Como proceder em caso de violência política
“Não apenas ser capaz de criar medidas que efetivamente protejam os sujeitos, mas também divulgá-las para que as pessoas comecem a se sentir um pouco mais seguras”, diz Ludmila Ribeiro sobre a prioridade para diminuir os casos de violência política em todo o país.
A primeira atitude a ser tomada, enquanto vítima, é a mesma que em qualquer situação de crime: especialmente se há ameaça, agressão ou outros crimes envolvidos, acionar a Polícia Militar pelo 190 ou comunicar uma delegacia de polícia a violência. “É bem importante guardar mensagens, e-mails, áudios, prints de tela, registros de ligação, todo esse conjunto probatório. Isso ajuda bastante do ponto de vista de encaminhamento. Especialmente quando há cerceamento maior do exercício de direitos políticos.”
Os cidadãos podem também apresentar a denúncia à Ouvidoria do TRE-MG. O relato será encaminhado ao Ministério Público para investigação. Caso a situação de violência política seja específica no ambiente de trabalho, a denúncia deve ser direcionada ao Ministério Público do Trabalho, pelo telefone 0800-702-3838 ou pelo site.
Reunir provas é importante
Como explica a Procuradoria Regional da República da 6ª Região, do Ministério Público Federal, quem sofrer violência política deve juntar o maior número de provas possíveis e formalizar a denúncia de preferência na Polícia Federal ou no Ministério Público Federal – MPF, ambos pelo site ou presencialmente. Formalizada a queixa, a pessoa recebe o número de protocolo e pode acompanhar o andamento pelo próprio site.
Além da própria vítima, qualquer outra pessoa, partido político ou instituição pode reportar o caso ao Ministério Público. Basta reunir os elementos para ajudar a comprovar a violência, como notícias de jornal, e-mails, vídeos, imagens, áudios e testemunhas, entre outros.
“Por fim, efetivamente trazer a violência política à tona, não só durante a eleição. Também é importante não naturalizar a violência política e tentar o tempo todo trazer isso a público, porque assim é possível registrar e começar a ter estatística, permitindo nos posicionar e mudar um pouco essa realidade – e até pensar em ações de prevenção e intervenções que sejam mais efetivas”, finaliza a professora Ludmila.

