
Maikel Furones, professor na UFJF
Algo que parecia impensável nas últimas décadas, a reaproximação diplomática entre Estados Unidos e Cuba, que mantinham relações cortadas desde 1961, aconteceu de forma pacífica. O realinhamento foi sacramentado por anúncios feitos no último dia 17 pelos presidentes Barack Obama, norte-americano, e Raúl Castro, cubano. A decisão histórica ocorreu após entendimentos para troca de prisioneiros entre os dois países, quando Obama garantiu que os EUA estavam prontos para reabrir a embaixada em solo cubano. A expectativa agora é de que o fim do distanciamento entre as duas nações culmine na extinção do “el bloqueo”, como é conhecido o embargo econômico imposto pelos americanos em 1962 e restringe as relações comerciais de parte a parte, fustigando a economia de Cuba. A retomada das relações e as perspectivas de um melhor cenário para a ilha, principalmente no aspecto econômico, foi comemorada pelos cubanos que residem em Juiz de Fora.
Para a médica cubana Yuleimy Cabrera Hernandez, 33 anos, que atua em Juiz de Fora pelo programa “Mais Médicos”, este é um momento histórico. A reaproximação marca o primeiro passo para boas mudanças para seu país de origem. “Vejo esta decisão de forma muito positiva, pois o relacionamento de intercâmbio é importante para todos os países. Espero que isso aconteça de forma que beneficie ambas as partes, que não seja algo unilateral e uma ingerência do poder norte-americano no nosso país”, pondera. Para Cuba, esta pode ser uma oportunidade de melhorias econômicas, políticas e sociais.”
Nascida na província de Granma, e há menos de um ano residindo no Brasil, Yuleimy destaca que a reaproximação pode trazer uma realidade diferente daquela que ela vivenciou em Cuba. “Vejo como principal mudança social a facilidade de viajar entre os dois países que deverá existir a partir de agora. Até o momento, o processo para um cubano ir aos Estados Unidos ou um norte-americano ir à Cuba não era simples.” Com viagem marcada para o seu país no próximo mês, quando irá visitar os pais, o esposo e a filha de três anos, Yuleimy espera poder encontrar algumas mudanças iniciais. “O fim do embargo comercial irá melhorar a economia cubana e trazer impactos positivos rapidamente.”
Expectativa por novas oportunidades na ilha
A expectativa de um melhor futuro para seu país de origem, motivada por uma possível suspensão do embargo econômico também é compartilhada pelo cubano Maikel Furones, 37 anos, professor do Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Nascido na pequena cidade de Yara, ele aposta na alteração das relações comerciais como principal aspecto positivo da reaproximação. “Agora, muitos países que eram impedidos de comercializarem conosco poderão fazê-lo. Até então, esses mercados deveriam fazer uma escolha, e os Estado Unidos apareciam, na maioria das vezes, como alternativa mais interessante.”
Comemoração
Há cinco anos em Juiz de Fora, onde reside com a esposa brasileira e os dois filhos, de 10 e 12 anos, ele conta que tenta visitar o país de origem pelo menos uma vez por ano. “Mas mesmo sem estar lá, tenho certeza que meu povo está comemorando. Economicamente é uma notícia muito boa para todos, pois as restrições comerciais eram absurdas.” Ele também ressalta a importância política do que considera um “grande acontecimento”. “É uma oportunidade do mundo perder uma visão monocromática. Quando se tem dois lados e cada um escolhe o seu, tratamos tudo como se fosse ‘preto no branco’. Com a diplomacia de ambas as partes, haverá o respeito mútuo sobre as escolhas de cada um.”
O médico Lesner Roene, 32 anos, conta que conversou com a família que deixou em Havana. “Lá moram meu pai, minha mãe e meu irmão. Estão todos muito contentes. Daqui do Brasil, também comemorei. Os problemas econômicos que meu país enfrenta por conta do embargo comercial irão melhorar”, opina. “Viajarei para Cuba daqui a três anos e espero poder ver de perto essas melhorias.”
Conciliar abertura com bem-estar é desafio
Para o cientista político da UFJF, Fernando Perlatto, a reaproximação entre EUA e Cuba irá promover uma modificação na geopolítica das Américas, que será capaz de produzir impactos econômicos e políticos além das fronteiras dos dois países. Entretanto, o especialista lembra que a efetiva melhoria na vida dos cubanos passa pelo aprofundamento dos entendimentos. “Ainda há barreiras importantes que precisam ser efetivamente derrubadas, com destaque especial para o embargo econômico. Esta decisão é mais difícil, pois depende da aprovação do Congresso norte-americano, composto por maioria do Partido Republicano, contrária à aproximação com Cuba. Caso o embargo seja derrubado, as mudanças serão ainda de maior relevância.”
No entendimento de Perlatto, a reaproximação irá descortinar um novo leque de oportunidades para a economia de Cuba, fragilizada por décadas de isolamento. “Cuba poderá se beneficiar bastante no curto prazo, sobretudo se a ilha for retirada da lista de nações terroristas. Isso trará novos investimentos e contribuirá para uma maior circulação de capital. Além disso, o fluxo de turismo em direção à ilha tende a ampliar bastante, o que beneficiará diretamente um sistema que, minimamente, conseguiu se fortalecer ao longo dos últimos anos.”
De acordo com o especialista, dicotomicamente, os novos horizontes abertos pelo realinhamento trazem um desafio, e Cuba precisará conciliar o cenário de abertura econômica e política com a manutenção do sistema de bem-estar construído na ilha, “que assegura à Cuba condições sociais invejáveis em relação a outros países do mundo”. Perlatto pondera que o fortalecimento da economia cubana poderá, inclusive, ser benéfico para as nações que mantiveram diálogo com a ilha nos últimos anos. “A conjuntura política aberta pelo novo cenário, sobretudo com a construção do Porto de Mariel, tende a reforçar esses laços políticos, beneficiando economicamente o Brasil.”
Consolidação de um novo líder mundial
Um nome externo que participou das negociações entre Cuba e EUA, o Papa Francisco parece ainda mais consolidado como grande liderança mundial, extrapolando as fronteiras do Vaticano e da Igreja Católica. A troca de prisioneiros acordada entre as partes, por exemplo, teve participação ativa do argentino. Tanto que, durante o anúncio do realinhamento, o presidente norte-americano Barack Obama agradeceu nominalmente ao religioso. Para Emerson Silveira, doutor e coordenador do curso de Ciência e Religião da UFJF, a maneira como o Papa participou das conversas, aliada a sua personalidade simples, o coloca definitivamente como um potencial mediador de conflitos internacionais.
“O Papa tem uma visão de mundo muito interessante. Soube deixar de lado guerras culturais como os discursos contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. Com isso, pode investir em questões importantes, levantando a bandeira da justiça e da igualdade social, o que é uma velha doutrina da Igreja, muito trabalhada pelo Papa João XIII. Isso acaba por dar dignidade ao Vaticano, ao lado da firme disposição em reformar a Cúria e sanar problemas internos, reforçando ainda mais sua respeitabilidade internacional e sua capacidade na mediação de conflitos”, avalia Emerson.
O especialista lembra que, à sua maneira, Francisco retoma uma atuação de mediador que já havia sido executada pelo Papa João Paulo II, que se colocava como elemento neutro durante o período de distanciamento entre EUA e a extinta União Soviética, principalmente na década de 1980. “Simbolicamente é algo muito grande, pois o Papa Francisco ajudou a colocar um ponto final no último resquício da Guerra Fria, assim como o Papa João Paulo já havia atuado como mediador entre partes conflitantes em um passado recente. Isso o consolida ainda mais como um líder moral e simbólico, já que, a grosso modo, é líder de uma nação sem Exército, Marinha, Aeronáutica ou poder econômico.”

