São meninas e meninos, têm entre 11 e 14 anos, estudam em escola da rede pública municipal e, pasmem, adoram política. Por uma boa discussão sobre a realidade social, política e econômica da cidade, do estado e do país, eles retornam às salas de aula uma vez por semana fora do horário escolar. A atividade extraclasse não se reverte em pontos, tampouco em acréscimo no salário da professora. Também não ganha nenhum centavo um grupo de cidadãos responsável pela fiscalização da atividade dos vereadores. Em toda sessão ou audiência pública, há sempre alguém indicado para acompanhar e relatar o processo legislativo. A partir dos apontamentos, são feitas discussões e publicações para orientar eleitores e formar cidadãos.
Os alunos da Escola Municipal Adhemar Rezende de Andrade e a professora Eliane de Souza, bem como os profissionais envolvidos com a fiscalização da Câmara de Juiz de Fora, integram o Comitê de Cidadania. Eles são movidos pela necessidade de romper a inércia e fazer algo melhor para mudar a sociedade. Cansados de ouvir calados histórias de corrupção e desmandos de políticos, cada um, ao seu modo e de acordo com suas limitações, resolveu fazer sua parte. A mobilização começou de forma tímida, mas ganhou corpo nos últimos anos. Os desdobramentos das ações encampadas pelos dois grupos já começam a gerar incômodos e a forçar mudanças impensáveis até bem pouco tempo. Todos sabem, no entanto, tratar-se apenas do início de uma longa caminhada.
A sensação assemelha-se ao beija-flor levando gotinhas d’água para apagar o incêndio na floresta, como ensinava o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Ao ser indagado sobre a irrelevância daquelas pequenas gotas frente à vastidão do fogo, a pequena ave diz estar fazendo a sua parte. No caso da turma da Escola Municipal Adhemar Rezende de Andrade, não são gotas, mas grãos. "O que aprendemos aqui (no Comitê de Cidadania), levamos para casa e conversamos com nossos pais, que começam a mudar o modo de ver as coisas", explica a aluna Carolina Pereira, 14 anos. Não só os pais, mas parentes vizinhos e amigos acabam sendo contagiados pelos argumentos da meninada, os quais, diga-se de passagem, são irrefutáveis tamanha a clareza. "E assim vamos fazendo nossa parte", afirma Gabriel Carvalho, 13, que conclui: "De grão em grão, a galinha enche o papo."
Fé na política e na mudança
Na Catedral Metropolitana, sempre às segundas quartas-feiras de cada mês, um grupo de cidadãos – entre os quais aposentados, advogados, assistentes sociais e principalmente educadores – se reúne para discutir o que está sendo feito pela Câmara Municipal. O local do encontro não deixa de ser simbólico, já que é justamente a fé de que é possível modificar a política que leva profissionais de áreas tão diferentes a doar um tempo de seus dias acompanhando cada sessão do Legislativo e apontando para a sociedade aquilo que precisa ser mudado. No entanto, apesar de o Comitê de Cidadania ser ligado diretamente à Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Juiz de Fora, ele é ecumênico, suprapartidário e está aberto a todas as pessoas que creem no poder transformador do exercício da cidadania. "Só não está aberto a candidatos e a presidentes de partidos. Precisamos manter a isenção", ressalta Déa Emília, presidente do grupo.
O lema "Voto não tem preço, tem consequencia", reiterado em todos os pleitos pelos movimentos nacionais de combate à corrupção eleitoral, pode até só ser lembrado pela sociedade de dois em dois anos, mas é vivenciado diariamente pelo comitê, que completa 11 anos de atividades ininterruptas no próximo dia 2 de janeiro. Essa vontade de fazer diferente nasceu com a campanha pela aprovação da lei de iniciativa popular 9.840/1999, que passou a punir com a cassação do registro ou do mandato o político que comprar votos, inclusive com promessas de emprego. Todo ano eleitoral, o original Comitê 9.840 se reinstala, para combater a prática, considerada um dos mais nocivos atentados contra o processo democrático. "Foi assim na eleição de 2000. Mas em 2001, em vez de o comitê ficar inerte, decidiu-se que faríamos a fiscalização daquela legislatura", conta Maria Enilda Teixeira Gonçalves, uma das coordenadoras do movimento. "Assim surgiu o Comitê de Cidadania."
Foi inspirado nesse exemplo que os garotos da Escola Municipal Adhemar Rezende de Andrade montaram seu próprio comitê. O grão disseminado pela professora Eliane, que também atua no comitê adulto, é motivo de orgulho para Déa Emília e Maria Enilda. "Quem é da educação acredita ainda mais nesse trabalho. Tem gente que é mais imediatista, mas precisamos ter em mente que você planta sem saber o dia e a hora da colheita. Mas colhe", destaca a presidente. "A gente vai formando uma rede. Só a partir desse movimento de base conseguiremos melhorar mais coisas."
Menos corrupção e mais vontade
A pedido da Tribuna, os alunos da Escola Adhemar Rezende de Andrade e a professora Eliane de Souza deram uma pausa nas férias e fizeram uma reunião extraordinária do Comitê de Cidadania Jovem. A proposta era um bate-papo informal, o que não significou para eles menos seriedade – a começar pelo motivo que os fez buscar o projeto. "Cansamos das coisas erradas e começamos a fazer nossa parte", resume Laysa Cristina, 14 anos. Por coisas erradas, entenda-se corrupção. "O maior problema da política hoje é a corrupção. Desviam dinheiro, e a população paga a conta", sentencia Jonas Munck, 13. Antes de pensar se tratar de uma frase feita, é bom que se diga que o estudante está falando de experiência própria. "Nossa escola tinha uma verba de R$ 6 milhões para reforma, mas o serviço feito é de péssima qualidade." A Adhemar Rezende de Andrade foi reformada pela Koji Empreendimentos e Construtora, ligada ao ex-vereador Vicente de Paula Oliveira (Vicentão-PTB).
A corrupção também está na origem de outra mazela enfrentada de perto pelos alunos: as drogas. Todos afirmaram ter amigos ou pessoas próximas com problemas envolvendo entorpecentes. Alguns relataram até homicídio de ex-aluno. "Falta lazer para as pessoas aqui da região (do Bairro São Pedro). Tem uma quadra, mas está sempre quebrada. O programa Segundo Tempo não tinha ninguém. Não era divulgado", cobra Iggor Brugger, 14. Os alunos também reivindicam um planejamento melhor das linhas de ônibus e até sugerem um carro para circular apenas na Cidade Alta. Nesse sentido, eles apontam outra "coisa errada" dos gestores públicos: a baixa eficiência. "Todo ano tampam buraco aqui no São Pedro, e eles aparecem de novo no ano seguinte", denuncia Jonas Munck. Também em tom de indignação, Gabriel Carvalho, 13, diz aprovar a UPA, mas pede atenção também para as UAPs. "Deram atenção à UPA e esqueceram dos postos de saúde."
‘Deus perdoa’
Os deslizes dos políticos são imperdoáveis, mas, na avaliação dos alunos, o eleitor também tem sua parcela de culpa. "Se o político é corrupto e consegue se reeleger, é porque o eleitor vota sem informação", avalia Jonas Munck. Moisés Moura, 12, faz comentário semelhante, mas cobra candidatos com melhores currículos no páreo. "Faltam pessoas honestas concorrendo." O grupo também critica o eleitor que vende seu voto. "O político que compra votos precisa tirar dinheiro de algum lugar, o que acaba levando à corrupção", avalia Carolina Ferreira, 14. Para ela, o eleitor deve saber julgar cada candidato. "Tem político aí dizendo que Deus o perdoou. Deus perdoa sempre, mas o eleitor não pode perdoar."
Instigados sempre a apontar soluções para os problemas criticados, os alunos do grupo fazem seu pedido para os candidatos nas eleições de 2012. A lista é curta e contempla apenas menos corrupção e mais vontade. Para os possíveis insensíveis ao apelo, eles mandam um recado: "Daqui a dez anos, um de nós pode estar concorrendo." Tomara!
