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Júlio Delgado aposta em racha governista

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A uma semana das eleições para a Presidência da Câmara dos Deputados, pleito agendado para o próximo domingo, dia 1º, quando os parlamentares da legislatura 2015-2018 serão empossados, a disputa entre as candidaturas de Arlindo Chinaglia (PT), Eduardo Cunha (PMDB) e do deputado federal juiz-forano Júlio Delgado (PSB) permanece em aberto. Desde o final do ano passado, o trio de presidenciáveis arregaçou as mangas e não tem medido esforços para arregimentar o maior número de apoio dos 513 parlamentares que comporão a Casa a partir de fevereiro – destes, 290 foram reeleitos, 25 retornam ao Congresso e 198 assumem o primeiro mandato. Entre viagens e acordos partidários, a única certeza até aqui é de que o processo eleitoral que definirá o comando da Mesa Diretora só deve ser decidido em segundo turno. Na última sexta-feira, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) anunciou sua participação na disputa.

É exatamente nisso que Júlio aposta suas fichas. O juiz-forano não tem escondido a confiança em avançar para o segundo turno do pleito, inclusive em declarações públicas. “Terei o suficiente para ir para o segundo turno”, afirmou há pouco mais de uma semana. No que depender do retrospecto recente, o prognóstico tem fundamento. Na última disputa pela Presidência da Mesa, em 2013, o socialista obteve apoio de mais de um terço dos 494 votos válidos na ocasião e registrou 165 votos a seu favor contra 271 do vencedor, Henrique Eduardo Alves (PMDB), 47 de Rose de Freitas (PMDB-ES) e 11 de Chico Alencar.

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Naquela ocasião, PT e PMDB – as duas maiores bancadas da Câmara e principais partidos da base do Governo federal – mantinham um acordo de compadres para que existisse um revezamento entre as duas siglas na Presidência. O entendimento, todavia, foi para o ralo com a confirmação das candidaturas de Cunha e Chinaglia. O rompimento do trato, que ajudou a eleger Marco Maia (PT), em 2011, e Henrique Alves, em 2012, coloca as duas legendas em rota de colisão, potencializando o crescimento de uma terceira via personificada em Júlio.

Da mesma forma, a conjuntura de alianças surgida nas eleições do ano passado é outro fator que fortalece o objetivo de Júlio. Um dos atores na construção do apoio do PSB ao senador Aécio Neves (PSDB) no segundo turno das eleições presidenciais, o deputado local praticamente selou o apoio tucano à candidatura à Presidência da Câmara. A parceria foi reafirmada pelo líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy, na última semana, respaldo que fortalece o nome do juiz-forano como consenso da oposição na tentativa de aplicar uma derrota ao cindido bloco situacionista.

Júlio conta ainda com o apoio de boa parte do bloco partidário de oposição formado por PSB, PPS, PV e SDD, que, a partir da próxima legislatura, pretende atuar como uma federação de partidos, capaz de adotar postura homogênea e ter uma posição conjunta nas eleições municipais do ano que vem. No entanto, como não existe unanimidade na política, o juiz-forano não conseguiu manter unidade interna e viu o Solidariedade reafirmar apoio à Eduardo Cunha – tido até aqui como favorito. A escusa da legenda, que ameaça inclusive abandonar o grupo partidário, deve-se ao temor de que a candidatura do socialista potencialize as chances de o PT vencer a disputa.

“O primeiro partido que deu apoio à candidatura do Eduardo Cunha foi o Solidariedade. Talvez essa reafirmação agora seja um reconhecimento e um temor que a gente vá agora para o segundo turno e um reconhecimento de que a nossa candidatura está se consolidando e crescendo”, minimizou Júlio.

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Discurso independente

Uma das bandeiras levantadas por Júlio em sua candidatura é a luta pela independência entre a Câmara e os demais poderes – leia-se Executivo, comandado pelo PT, da presidente Dilma Rousseff, e pelo PMDB, do vice-presidente Michel Temer. Até aí, pouca novidade. Tal discurso é recorrente e defendido inclusive por Cunha e Chinaglia. O que tem diferenciado o juiz-forano é o esforço em evitar troca de farpas envolvendo seus adversários.

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Recentemente, o socialista fez questão de desconversar declarações de Chinaglia sobre a existência de um acordo de apoio mútuo entre as duas candidaturas em um possível segundo turno contra Cunha. “Eu vou estar no segundo turno. Se o Arlindo não passar, lógico que eu vou querer o apoio dele para ganhar as eleições. Se o Eduardo não passar, eu também quero o apoio dele para ganhar as eleições. Eu não vou apoiar ninguém (agora), porque isso depende do acordo que eu tenho com os partidos que me deram sustentação”, afirmou Júlio.

Da mesma maneira, o socialista não comentou as denúncias de Eduardo Cunha, que se diz vítima de uma farsa criada para prejudicar sua candidatura. Durante a última semana, o peemedebista teria sido procurado por um homem que se apresentou como delegado da Polícia Federal e lhe entregou uma gravação. Na suposta conversa telefônica, uma pessoa que seria policial afirma que teria sido “esquecido” por Cunha e estaria em busca de pagamentos. “Não vou polemizar com o concorrente”, afirmou Júlio Delgado, taxativo.

Cunha e Chinaglia trocam farpas

Enquanto Júlio Delgado corre por fora e busca um espaço no racha da base governista para chegar à Presidência da Câmara dos Deputados, as outras candidaturas colocadas até aqui adotam tom menos comedido. Integrantes do bloco situacionista – ao menos, em teoria -, Eduardo Cunha e Arlindo Chinaglia têm trocado farpas recorrentemente. As críticas mútuas são variadas. Uma vez mais, o tema central dos embates é a independência do Legislativo.

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No início do mês, Chinaglia chegou a dizer que a bandeira de independência parecia contraditória quando empunhada pelo peemedebista e afirmou que “não é independente quem indica cargo no Governo”. A resposta adversária foi no mesmo tom. Cunha contra-atacou e disse que não foi ele quem indicou seu filho para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em clara alusão ao advogado Olavo Chinaglia, filho de Arlindo que foi membro do Cade entre 2008 e 2012.

Outro ponto de atrito diz respeito às discussões sobre a necessidade ou não da criação de uma nova CPI para aprofundar as investigações acerca de irregularidades na Petrobras. O peemedebista, que viu seu nome ligado ao escândalo de corrupção, defendeu a adesão da bancada de seu partido ao movimento favorável à implementação de uma nova comissão parlamentar de inquérito.

Contrário à ideia, o petista comparou o adversário ao ex-senador Demóstenes Torres. “Defender uma CPI de forma genérica é uma tentativa de se credenciar (…). Já teve senador muito eloquente pedindo CPI, que depois foi flagrado na ‘Operação Cachoeira’.” Na última alfinetada, Cunha insinuou que integrantes do primeiro escalão do Governo federal estariam agindo favoravelmente à campanha de Chinaglia, inclusive, com a oferta de cargos.

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Relação entre PT e PMDB desgastada

O embate acirrado entre os candidatos dos dois principais partidos da sustentação do atual Governo federal, que inicia seu quarto mandato na Presidência da República – após duas gestões de Lula e a segunda de Dilma Rousseff – , expõe certo desgaste nas relações entre PT e PMDB. As divergências entre as duas siglas começaram a ficar mais evidentes desde as últimas eleições municipais, quando os enfrentamentos nas bases se mostraram mais agressivos, como acontece em Juiz de Fora, onde a gestão peemedebista do prefeito Bruno Siqueira (PMDB) sofre forte oposição da bancada petista na Câmara.

O distanciamento ficou ainda mais evidente em outubro do ano passado, quando Michel Temer, vice-presidente reeleito, saiu em defesa de uma candidatura própria do PMDB ao Palácio do Planalto em 2018. Independentemente do vencedor na disputa pela presidência da Câmara, a tendência é de que o Governo federal saia desgastado da disputa com o racha entre PT e PMDB, o que pode dificultar a relação entre Executivo e Legislativo, prejudicando o andamento de matérias de interesse da União.

Bancada local

De certa forma, a disputa pela presidência também divide a bancada juiz-forana na Casa. Candidato à chefia da Mesa Diretora, Júlio Delgado tem o apoio declarado de Marcus Pestana, presidente estadual do PSDB. Por outro lado, Margarida Salomão (PT) está ao lado de Arlindo Chinaglia, mesmo posicionamento de Wadson Ribeiro (PCdoB), que não irá participar da eleição, mas assumirá uma cadeira de deputado federal como suplente, após a renúncia de alguns titulares que tomarão posse no próximo domingo, antes de se licenciarem para assumir cargos nos governos federal e estadual.

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