A queda do subsecretário de Relações Institucionais, Edson Fonseca, na última semana, expôs as dificuldades de articulação política do Governo Custódio Mattos (PSDB) com sua base aliada na Câmara de Vereadores. O descontentamento dos parlamentares locais com a administração vinha se revelando nas constantes reclamações sobre a falta de interlocução entre Executivo e Legislativo, na demora em liberar emendas e, acima de tudo, na pouca atenção dada por secretários e chefes de autarquias às demandas dos legisladores governistas. "A independência entre os poderes deve ser preservada, mas não podemos perder a necessidade de relacionamento permanente desses poderes", avalia o presidente da Câmara, Carlos Bonifácio (PRB). Sua preocupação é fruto do aumento da insatisfação verificada no último período legislativo, que coincidiu com a efervescência das articulações em torno da formação das chapas proporcionais para as eleições de 2012.
Um dos arquitetos da chapa do PP nas últimas eleições municipais, que acabou elegendo Chico Evangelista e Antônio Martins (Tico-Tico), Edson Fonseca, o Edinho, assumiu a Secretaria de Relações Institucionais apadrinhado pelo partido. Nos primeiros meses deste ano, porém, ele se filiou ao PV, arrastando consigo alguns pré-candidatos à Câmara. A movimentação do ex-correligionário, bem como sua permanência no cargo, desagradaram Chico Evangelista, que endureceu o discurso em relação ao Governo. Sua reação encontrou eco em outro governista de peso: José Emanuel (PSC). Há um bom tempo em rota de colisão com a secretária de Atividades Urbanas, Sueli Reis, o vereador foi o idealizador da recém-criada Comissão Fiscalizadora.
A proposta da iniciativa é resguardar o cumprimento da legislação municipal com incursões in loco. Na primeira investida, José Emanuel, Chico Evangelista e Roberto Cupolillo (Betão, PT) visitaram três bairros no encalço de deslizes da pasta de Sueli Reis. A secretária até tentou esvaziar a tal comissão, não liberando um guarda municipal e um fiscal de postura, como solicitado. Ainda assim, a fiscalização foi feita. Buscando retomar o controle da situação, o Governo agiu rápido por meio da direção do PSC, que enquadrou José Emanuel. Sem muito respaldo no PP para adotar medida semelhante em relação a Chico Evangelista, restou apenas a exoneração de Edinho.
A situação do subsecretário de Relações Institucionais no Governo já não era das melhores há algum tempo. Sua aproximação com o secretário de Estado da Saúde, Antônio Jorge Marques, que deixou o PSDB após embate com o grupo do prefeito, causou incômodo no nono andar da Prefeitura. Para a bancada governista, no entanto, todos os problemas envolvendo os vereadores e o subsecretário, a secretária de Atividades Urbanas ou mesmo outros membros do primeiro escalão poderiam ser evitados houvesse uma maior articulação política.
Na mais recente tentativa de sanar o problema, o líder governista, vereador Noraldino Júnior (PSC), articulou um projeto de lei com apoio do Governo criando um cargo na estrutura da administração para acompanhar as demandas dos vereadores junto à Prefeitura. A proposta esbarrou em uma série de pedidos de vista e não deve ter vida longa na Casa. Para a ampla maioria contrária à medida, um técnico não vai conseguir resolver pendências de ordem estritamente política. Isso sem pensar na lamentável posição daquele escolhido para a função, que ficará sob cobrança dos vereadores e sem autoridade hierárquica para se aproximar dos secretários.
Governo aposta em Romilton
Mesmo com a inquietação trazida pelas articulações em torno da formação das chapas para disputa proporcional de 2012, vereadores governistas e da oposição criticam a permanente falta de articulação entre o atual Executivo e a Câmara. O primeiro sintoma de que a relação não era das melhores veio com a saída do vereador Isauro Calais (PMN) da liderança do Governo para a oposição, onde permanece até hoje. Carlos Bonifácio (PRB) assumiu a função de líder até ser eleito presidente da Casa, quando enfrentou a candidatura do tucano José Laerte. Depois de permanecer os três primeiros meses deste ano sem ninguém na função, Noraldino Júnior (PSC) chegou como uma solução inventada.
Durante todo o tempo, entretanto, quase sempre as referências dos legisladores ao chefe do Executivo eram dirigidas ao vereador Rodrigo Mattos (PSDB), que é filho do prefeito Custódio Mattos (PSDB). Em seu segundo mandato e com bom trânsito na oposição e situação, ele vinha atuando como interlocutor e, para muito dos seus companheiros de Câmara, com reconhecido sucesso na empreitada. O problema é que, a partir da primeira semana de agosto, Rodrigo vai assumir o mandato de deputado estadual. Para seu lugar, virá o experiente ex-vereador Romilton Faria (DEM). "O Romilton tem larga experiência legislativa, tem bom trânsito com todos na Casa e vem para somar. Saio com a consciência tranquila", explica Rodrigo.
Além da aposta em Romilton, o Governo também espera que o deslanchar da administração, com inaugurações e anúncios de obras, atue também para arrefecer os ânimos da base aliada. A costura em curso prevê o reconhecimento público dos vereadores na viabilização de empreendimentos em seus redutos eleitorais. "Vai haver um envolvimento maior dos vereadores em relação às obras a partir de agora. As coisas estão acontecendo", antecipa o líder Noraldino. Ainda assim, na Prefeitura, a expectativa é de que, passado o dia 7 de outubro, prazo limite para os candidatos em 2012 se acomodarem em algum partido, a situação volte ao controle. Até lá, a ordem é intervir o menos possível para não favorecer ou prejudicar nenhum partido da base.
Mesmo na Câmara, o sentimento é de que, passado outubro, as coisas devam mesmo se acomodar, mas por pouco tempo. Como vários secretários têm intenção de entrar na disputa do próximo ano, caso de Vítor Valverde, da Secretaria de Administração e Recursos Humanos, e a própria Sueli Reis, da Secretaria de Atividades Urbanas, embates futuros são considerados inevitáveis. Isso sem considerar o efeito dispersivo das pesquisas de intenção de voto.
