A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da máfia dos caça-níqueis e do jogo do bicho em Juiz de Fora corre o risco de se transformar em pizza antes mesmo de ser instaurada. Isso porque, conforme a base governista, 15 deputados voltaram atrás e retiraram as assinaturas do requerimento que propõe a criação da CPI para apurar as denúncias sobre a participação de policiais civis e militares em esquema de corrupção envolvendo recebimento de propina. Até o fim da tarde de ontem, apenas 25 nomes – um a menos do que o necessário – integravam o pedido de abertura do processo. Nem mesmo os novos depoimentos colhidos ontem pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) foram suficientes para evitar a debandada. Entre as seis testemunhas ouvidas estão quatro PMs, um policial civil, e um ex-sócio do empresário Frederico Arbex, denunciado como proprietário de caça-níqueis. Hoje, o deputado estadual Sargento Rodrigues (PDT), que integra a comissão, pretende divulgar um vídeo que reforça as denúncias.
"Tudo foi confirmado nesses novos depoimentos, tivemos acesso a um vídeo com uma conversa do Frederico Arbex que revela muita coisa, inclusive o pagamento de propina a policiais. O material conseguido ainda trata da evolução patrimonial de alguns policiais, que não condiz com o que recebem", denuncia Sargento Rodrigues. De acordo com o deputado, autor do requerimento para abertura da CPI na última semana, realmente há possibilidade de que o processo não seja iniciado. "Os governistas estão fazendo pressão. É uma espécie de manobra para que a CPI não ocorra. Mas não vamos desistir. Hoje (ontem) realizamos duas reuniões, uma delas de madrugada, para conseguir aprovar um outro requerimento que será encaminhado às autoridades solicitando investigação. Se não conseguirmos na Assembleia, vou à Brasília pessoalmente levar as denúncias e lutar para que este caso de Minas seja incluído na CPI do Congresso Nacional." A esperança do deputado é que, caso não consiga pelo menos mais uma assinatura para iniciar a apuração na Assembleia, os documentos sejam juntados às investigações sobre o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
A Comissão de Direitos Humanos também aprovou ontem a solicitação de envio de notas taquigráficas de três reuniões que trataram das denúncias de que policiais da cidade estariam recebendo propina para permitir o funcionamento de pontos de jogos de azar. A intenção é encaminhar o material ao governador Antonio Anastasia (PSDB), à Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), às chefias e corregedorias das polícias Militar e Civil, à coordenadoria do Centro de Apoio Operacional de Combate ao Crime Organizado e à Delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora. O requerimento pede que as autoridades tomem providências para apuração das informações levantadas e é uma estratégia de cobrança caso a CPI não seja instaurada.
O deputado Lafayette Andrada (PSDB), que não assinou o pedido de CPI e integra a base governista, explica que a avaliação da maioria dos parlamentares é de que "a simples denúncia de envolvimento de policiais com o jogo não representa novidade e isso é um assunto interno, que deve sim ser investigado, mas pelas corregedorias das polícias". "Sem o número mínimo exigido até agora, que são 26, acho pouco provável ter CPI, porque quem não participou antes, não vai querer assinar agora, e quem retirou o nome não deve voltar atrás. Só a oposição participou." Conforme Lafayette, que já respondeu pela Seds, as polícias estão preocupadas com o caso e têm condições de apurar e punir os envolvidos. "A corregedoria da PM enviou hoje (ontem) onze policiais para levantar informações ."
Depois da última debandada na ALMG, o deputado Bruno Siqueira (PMDB), que integra a oposição e assinou o requerimento, também acha difícil que a CPI seja emplacada. "Assinei o pedido devido antes mesmo de saber que se tratava de um assunto referente a Juiz de Fora e não retirei meu nome. Quando ocorre uma denúncia, ela deve ser investigada, apurada, para que não haja condenação prévia daqueles que possam ser inocentes. Uma investigação deve ser o mais transparente e justa possível, para que não condene inocentes nem absolva os culpados. Agora precisamos esperar para ver se realmente ocorrerá."
