
Proprietária da Casa Chic, Munira conta com clientes de Belo Horizonte e Nova Lima para segurar vendas (Olavo Prazeres/21-01-16)
Na Local Eletrônica, negócios tiveram queda de até 20% (Olavo Prazeres/21-01-16)
Dos mais célebres carnavalescos do país, Joãosinho Trinta cunhou a máxima de que “o povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. Sem levar em consideração o mérito da assertiva de caráter duvidoso, o fato é que luxo deve ser artigo raro no carnaval desse ano, diante da crise financeira enfrentada pelos municípios brasileiros, em especial os do interior.
A despeito do orçamento apertado, a folia está garantida na maioria das cidades da Zona da Mata em que a festa de Momo é mais tradicional e arrasta foliões e turistas. Mais pobre é verdade. Localidades como São João Nepomuceno, Bicas, Rio Pomba, Guarani, Rio Novo e Chácara vão colocar o bloco na rua e mantêm apoio a atrações pertinentes às características de cada localidade. No entanto, haverá cortes de recursos em relação a outros anos que podem significar até 40% menos que o investido em anos anteriores. Em outros casos, o arrocho será mais severo. Isso inclui Juiz de Fora, que, pela primeira vez desde a virada do século, não terá desfile de escolas de samba em 2016. A decisão partiu da Liga das Escolas de Samba (Liesjf), após a Prefeitura sinalizar um repasse às agremiações 50% menor do que o disponibilizado para o carnaval 2015. O Executivo local mantém apoio financeiro a blocos de rua, escolas de samba mirim, afoxés, bailes e shows em praça pública, mas, mesmo para essas atrações, a contenção de recursos será ainda maior que a dos municípios de menos porte, chegando a 70%. Os gastos estimados para a folia em 2016 é de até R$ 600 mil, sendo que, em 2015, os aportes atingiram a cifra de R$ 2 milhões.
Outras cidades da Zona da Mata, como Ubá e Leopoldina, também praticaram contingenciamentos drásticos, praticamente cancelando as festividades. Em Ubá, sem falar em números e metas de economia, a assessoria da Prefeitura confirmou que a cidade ainda trabalha sob os ditames de decreto de contenção de gastos editado pelo prefeito Vadinho Baião (PT) no ano passado. Os contingenciamentos atingiram o carnaval, com o corte de despesas com a contratação de shows e atrações similares. Mais uma vez sem citar cifras, o Município afirma que manterá apoio a blocos.
Situação semelhante ocorre em Leopoldina, localidade onde blocos e escolas de samba não terão apoio financeiro do Poder Executivo. Com o arrocho, o prefeito José Roberto de Oliveira (PSC) pretende economizar R$ 150 mil que serão destinados à saúde e a algumas obras que são executadas com recursos próprios da municipalidade. Estão mantidos, porém, aportes da ordem de R$ 7 mil em atividades em bairros e distritos.
Pés no chão
Entre as cidades que, a despeito da crise, mantiveram o carnaval como recursos públicos, foi preciso “rebolado”. As soluções para contornar as dificuldades e enxugar gastos foram variadas. Em São João Nepomuceno, a Prefeitura estima uma redução de despesas de até 10% em relação ao ano passado. Segundo o diretor de contabilidade do Executivo local, Leonardo Ribeiro, a solução encontrada foi a opção por atrações locais, com custo mais baixo e mais adequado ao atual orçamento, esvaziado pela queda de arrecadação e de repasses dos demais entes federados.
Em Bicas, o secretário de Cultura, Magela Matos, ainda não fala em valores e percentuais de redução, mas projeta diminuição nas despesas por meio de parcerias com a iniciativa privada que viabilizaram a manutenção do desfile de escolas de samba e shows.
Em Rio Pomba, o objetivo é economizar até 20% em relação aos gastos do ano passado. Para isso, o município apostou em uma negociação mais sóbria com fornecedores e licitações com projeções enxutas. Assim, a estrutura da festa deve ser mais tímida em relação a outros anos, porém, o secretário de Administração, Vinícius Leal Faria, afirma que não haverá comprometimento das condições consideradas necessárias “para uma boa festa e para atender a toda a demanda dos foliões”.
A Prefeitura de Guarani também não entrou em projeções financeiras, mas citou “adequações” nos dispêndios para a festa desse ano. Já a prefeita de Rio Novo, Virgínia Ferraz, afirmou que a manutenção do carnaval da cidade foi definida após um planejamento que levou à opção por um investimento mínimo. Assim, os esforços foram por parcerias e soluções caseiras. As barracas de comércio ambulante, por exemplo, terão renda revertida para as escolas de samba, que vão para a avenida em 2016, minimizando a necessidade de maiores aportes financeiros por parte do município. “Será, eminentemente, um carnaval de rua e de pé no chão”, afirma a chefe do Executivo rio-novense.
Feriado fomenta economia de cidades pequenas
A maioria das cidades interioranas da Zona da Mata que optaram pela manutenção dos festejos de carnaval, não obstante o esvaziamento dos cofres da maioria das prefeituras, têm razões que vão além da alegria dos foliões. Acostumadas a receber um grande número de turistas da região e até de outros estados, as apostas vão no sentido de que o movimento irá aquecer as economias locais, principalmente no setor hoteleiro e de bares e restaurantes. “O comércio da cidade fica mais aquecido. Em função da tradição da cidade e desse impacto financeiro, fizemos todo o esforço para manter o carnaval”, afirma Leonardo Ribeiro, diretor de contabilidade da Prefeitura de São João Nepomuceno. O raciocínio é similar entre gestores de outras cidades. “É um momento relevante para a economia local. O papel do Poder Público é exatamente esse, o de buscar situações para fazer a economia girar. Principalmente em tempos de crise”, considera o secretário de Administração de Rio Pomba, Vinícius Leal Faria.
O pensamento é reforçado pelas palavras da prefeita de Rio Novo. “A Festa de Momo em Rio Novo tem grande importância para a economia local, já que atrai um grande número de visitantes, impactando de forma positiva a economia, principalmente com o aquecimento das vendas no comércio, com o aluguel de imóveis e com a ocupação da rede hoteleira”, destaca Virgínia Ferraz. A lógica de garantir o lazer da população e fomentar a economia local, entretanto, nem sempre pode ser levada a ferro e fogo em tempos de cofres esvaziados e arrecadação em queda livre. Algumas das mesmas cidades que dobraram esforços para manter o carnaval e atrair foliões de outros municípios, optaram por suspender o aporte financeiro em outros eventos, como exposições agropecuárias ao longo do ano passado, quando a queda na arrecadação nos valores de repasses estaduais e federais se acentuaram. “Deixamos de fazer o Réveillon por exemplo, por conta dessa contenção”, explica o secretário de cultura de Bicas, Magela Matos.
Comércio de JF é afetado
A redução das festividades do carnaval de rua pelas prefeituras das cidades da Zona da Mata afeta diretamente o comércio juiz-forano, principal fornecedor de matéria-prima e artigos para a região. Estabelecimentos que atuam no ramo registraram queda de até 20% nas vendas. A retração só não foi maior porque os comerciantes apostaram nas encomendas de outras partes do estado e em eventos particulares. A proprietária da Casa Chic, Munira Haddad Rahme, esperava redução de 50% nos negócios de artigos para o carnaval. “Confesso que me surpreendi com os resultados. Na última hora, as vendas reagiram. Muitas cidades que não terão mais os desfiles de escola de samba encomendaram peças para enfeites de rua e tecido para fantasias de bloco.” Ela explica que a demanda dos municípios vizinhos está bem menor em comparação com anos anteriores, por isso, estima queda de 10% ante 2015. “Mas estou satisfeita”, garante. Além de atender a Zona da Mata, a loja tem clientes em Belo Horizonte, Nova Lima e Mariana.
A demanda por instrumentos musicais também foi reduzida, informa o proprietário da Local Eletrônica, Roberto Barbosa Oliveira. “Estamos vendendo mais acessórios para reposição, como pele e baqueta.” Ele relata que a retração já vem ocorrendo nos últimos três anos por conta dos cancelamentos dos desfiles. “As cidades deixam de fazer o evento por fatores econômicos e até ambientais, como a escassez de água em 2015, e nós deixamos de vender.” A loja registrou queda de até 20% nos negócios. “Sempre vendemos muito para o entorno. Os clientes vinham de caminhonete buscar instrumentos de percussão”, lembra. “As vendas para o carnaval ajudavam a manter os resultados do início do ano, que, geralmente, é um período mais fraco para o nosso segmento.”
A redução da demanda das cidades vizinhas também foi percebida pela gerente da Casa Combate, Cláudia Moysés Franchini. “Dá uma diferença, porque sempre fornecemos fantasias e acessórios para a redondeza.” Apesar disso, ela aposta em aumento de 15% das vendas. “Estamos recebendo encomendas para eventos particulares, em escolas e clubes, e precisamos repor o estoque. Isto nos deixou bastante otimistas.”
Na avaliação do presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), Emerson Beloti, o cancelamento ou a redução das festividades no entorno sempre irá impactar negativamente o comércio local. “Parte do nosso varejo vive em função desta data e tem, nas cidades vizinhas, seus principais consumidores. A não realização do evento provoca retração de receita. Os estabelecimentos deixam de ganhar. Até mesmo aqueles que apostam em crescimento irão crescer menos.”

