
Página do grupo no Facebook é usada como ferramenta de mobilização
Quando foi criado no Facebook, em agosto de 2012, o "Benfica bem melhor" era apenas um grupo na rede social para moradores daquele bairro da Zona Norte discutirem problemas e cobrarem soluções. Em pouco menos de um ano, os participantes mais ativos passaram a se encontrar pessoalmente, montaram uma chapa, disputaram e venceram as eleições para a Associação de Moradores do Bairro Benfica (AMBB). Hoje, como movimento organizado, os integrantes seguem usando a internet como ferramenta de mobilização e agregação de novos membros, principalmente entre os mais jovens. O feito é considerado inédito no município e sugere inclusive uma renovação do movimento comunitário local. "Algumas pessoas que eram afastadas da política, quando veem alguma discussão na internet, começam a compartilhar. Então, as discussões reais e virtuais se complementam", analisa a presidente da AMBB, a jornalista Aline Junqueira, 37 anos.
A primeira vitória do grupo quando ainda estava restrito à internet ocorreu quando a atual vice-presidente da associação, a empreendedora Denilza Nazareth, 41, cobrou, pelas redes sociais, o conserto da grade de proteção que circunda o Córrego Três Pontas, na Rua Inês Garcia. O equipamento urbano foi danificado após ser atingido por um carro, mas ficou meses sem reparos. "De tanto eu cobrar, acabaram arrumando." Com o tempo, a página no Facebook vem ganhando novas funções, como as de levantar novas propostas para o bairro, informar sobre a realização de reuniões e, no futuro, até facilitar a prestação de contas da associação.
Na visão do cientista político e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFJF Raul Magalhães, o fato de um grupo formado inicialmente na internet se organizar e assumir a associação de moradores de um bairro é uma "notícia positiva e que demonstra a versatilidade dos instrumentos de mobilização, como as redes sociais". Para o estudioso, iniciativas desse tipo mostram que, a partir de agora, movimentos virtuais e presenciais irão cada vez mais conviver de forma complementar, pacífica e não excludente. "Interessante notar que (no caso do movimento de Benfica) trata-se de um uso menor, mas muito importante dessa ferramenta de mobilização. Ao que tudo indica, do ponto de vista da democracia participativa, essas ferramentas vieram para ficar."
"Trata-se de um fenômeno novo, completamente diferente da maneira tradicional como as associações de bairro foram criadas e eleitas no passado", diz a doutoranda em história social pela UFRJ, professora do Departamento de História da UFJF e autora do livro "Movimentos comunitários: experiências de participação em Juiz de Fora – 1974-1988", Luciana Verônica Silva Moreira. A professora acredita que a internet não muda a forma como o movimento da Zona Norte vai se legitimar diante dos moradores ao longo do tempo. Mas ela observa que o exemplo do "Benfica bem melhor" pode iniciar uma renovação dos movimentos comunitários na cidade, por ser um modelo que torna as discussões mais atraentes para os mais jovens. Fato parecido só ocorreu em Juiz de Fora na década de 1980, quando as associações de bairro foram fortalecidas por grupos de jovens, após o processo de redemocratização do país.
"Fortalecendo-se enquanto grupo organizado que conhece os canais de reivindicação, os movimentos comunitários têm tudo para continuar sendo uma importante força política e social de mudança nos bairros. Basta ver que vários líderes comunitários na década de 1980 lançaram-se na política, posteriormente, ocupando inclusive cargos de vereador."
Ativismo
Uma das ativistas on-line é a secretária, artesã e blogueira Rosângela Campos, 36, integrante da chapa que assumiu a direção da AMBB no dia 6 deste mês. Ela participa de mais de 40 grupos no Facebook – onde garante ficar conectada quase 24 horas por dia – e destaca que o "Benfica bem melhor" já é referência para pessoas de outros municípios. "O grupo é bastante heterogêneo, com pessoas dos 15 aos 60 anos. Meus próprios sobrinhos, que não se interessavam por esse tipo de assunto, já estão se envolvendo."
Mesmo com toda a mobilização no ambiente virtual, a presidente da AMBB faz questão de lembrar que o "Benfica bem melhor" não perdeu as características de organização de bairro. "No nosso grupo, existem pessoas que não lidam com a internet. O movimento comunitário é sempre mais físico. É uma relação pessoal", ressalta Aline Junqueira.
Comunidade busca ser protagonista do seu próprio desenvolvimento
O amadurecimento do "Benfica bem melhor" em tão pouco tempo de existência chama a atenção. O grupo assumiu a associação de moradores com uma pauta de lutas e compromissos para as áreas da saúde, educação, segurança, mobilidade, cultura, meio ambiente e até desenvolvimento econômico da comunidade. As vivências e a variedade de perfis entre seus 14 diretores são as apostas para conquistar avanços no bairro mais populoso de Juiz de Fora – segundo o Censo 2010 do IBGE, são 23 mil moradores, superando o Centro (20.700) e São Mateus (19.500).
"As nossas diferenças de posição pessoal vão acontecer, porque o grupo ainda está se formando. Estamos nos politizando juntos, aprendendo com a realidade do outro. Eu estudei muitas coisas de política e ciências sociais, mas muita gente que fica escrevendo essas teorias não encara a fila da policlínica, não lida com os adolescentes na realidade", diz a presidente Aline Junqueira, que também é mestranda em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde aprofunda seus estudos, com base no documentário "Benfica da gente", que ela mesma dirigiu em 2004.
Na lista de pautas e compromissos do grupo está a reabertura da sede da associação, a realização de eventos sociais, culturais e esportivos, além do trabalho integrado com outras entidades comunitárias do entorno de Benfica. No campo econômico, por exemplo, a associação pretende fortalecer as iniciativas de economia solidária, por meio de feiras de artesanato, eventos de troca de serviços e bens, entre outros. "A economia solidária é um movimento nacional, que procura tratar a relação humana antes da econômica", explica a artesã Vera Lúcia Santos, 52.
A principal proposta, portanto, é que a comunidade se torne protagonista do seu próprio desenvolvimento, por meio de mobilizações, construções coletivas do conhecimento, criação e manutenção de espaços de participação, valorização dos talentos e recursos locais, além da articulação intersetorial. Na prática, os moradores querem que o Poder Público dê a atenção merecida ao mais populoso bairro da região mais extensa da cidade. "A maior parte dos impostos arrecadados aqui em Juiz de Fora sai da Zona Norte. Mas não vemos os benefícios", diz a recepcionista Amanda Garcia, 46. "Todo novo loteamento do ‘Minha casa, minha vida’ está vindo para a Zona Norte, mas o Poder Público não dá suporte", constata a vice-presidente Denilza Nazareth. "E aí as pessoas ficam umas contra as outras, porque começam a falar que o problema de Benfica são as comunidades no entorno. E não é. O problema é que essas comunidades são criadas sem condições para as pessoas viverem", completa a presidente Aline Junqueira.

