
No Fábrica, sujeira em área destinada a projeto
O Ministério do Esporte repassou mais de R$ 13 milhões nos últimos cinco anos para programas e produção de materiais esportivos em Juiz de Fora. Deste montante, R$ 9,4 milhões, 72,3% dos recursos, foram destinados ao Instituto Cidade, sendo R$ 4,3 milhões para o programa Segundo Tempo e outros R$ 4,4 milhões para uma fábrica, cuja produção de bolas e outros itens é destinada ao Governo federal e repassada às escolas públicas e outros programas em âmbito nacional, de acordo com informações do balanço patrimonial da entidade. As liberações milionárias coincidem com a presença de Wadson Ribeiro (PCdoB) no Ministério do Esporte. Admitido em 17 de abril de 2007 para o cargo de subsecretário do Esporte, o juiz-forano hoje é o titular da Secretaria Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social e foi responsável por boa parte das liberações. Até o início deste ano, nada menos que cem núcleos do Segundo Tempo estavam cadastrados na cidade e na região, somando, em números oficiais, dez mil beneficiados.
Destes, 40 núcleos estão sob a responsabilidade da Prefeitura desde 24 de dezembro de 2009, início da vigência do contrato nº 01918/2009, com valor de R$ 1.332.834, e contrapartida de R$ 147.330, com vigência até 3 de fevereiro de 2012. A precariedade de parte dos espaços destinados ao cumprimento do convênio é uma realidade, admitida inclusive pelo secretário de Esporte e Lazer do município, Renato Miranda. A partir do mapa de distribuição dos núcleos, disponível no site do Ministério do Esporte, o jornal percorreu alguns dos endereços e descobriu que muitos locais não atendem aos requisitos do programa.
De acordo com as diretrizes e as orientações para parcerias do Segundo Tempo, os espaços físicos para o projeto "deverão ser adequados às atividades a serem ofertadas e apropriados à quantidade de beneficiados que serão atendidos. Além da estrutura esportiva, devem ter condições mínimas de atendimento aos participantes, incluindo banheiros (ou acesso disponível em local próximo), bebedouros (ou acesso a água) e locais adequados para a realização das atividades complementares oferecidas e para a distribuição de lanche ou refeição (quando for o caso)".
Apesar da recomendação, no Fábrica, Zona Norte, por exemplo, o endereço do cadastro encaminhou a reportagem para a Associação de Amigos e ex-Alunos do Colégio Levis Gama. O campinho de futebol dividia espaço com lixo, mato e fezes de animais. Neste local, a indicação é de que há 120 crianças cadastradas, mas moradores dizem que a participação seria menor. "Como não tem todos esses meninos, o lanche que sobra é dividido com gente da comunidade. Aqui não há banheiros, nem local para tomar água. Como as crianças podem se tornar atletas num lugar desses?", questiona o ex-presidente de uma associação do bairro, Marcos Brandel.
No núcleo de Nova Era II, os participantes dizem contar com a boa vontade dos comerciantes para ter acesso a água ou banheiros, usados de favor em uma lan house próxima à praça onde ocorre o programa. Já o lanche, biscoitos e iogurte, distribuído ontem aos atendidos na presença da Tribuna, estava acondicionado em caixas no chão. Em Nova Benfica, o material esportivo é guardado em local cedido por morador, e as crianças afirmam beber água na mina, a poucos metros da praça. Os alimentos são acondicionados, também de favor, em padaria próxima.
Denúncia
Os outros 60 núcleos eram atendidos pelo Instituto Cidade, em convênio encerrado no mês passado, mas pendências relativas ao contrato de número 381/2007 ainda estão sendo avaliadas por técnicos do Ministério do Esporte, conforme denúncia da Tribuna publicada ontem, e podem ensejar a devolução de recursos aos cofres públicos. Os diregentes do Instituto Cidade são filiados ao PCdoB, partido do ministro do Esporte, Orlando Silva.
Secretário diz que precariedade é herança
O titular da Secretaria de Esporte e Lazer do município, Renato Miranda, admitiu ter conhecimento da situação precária das áreas, afirmando que essa é uma herança histórica da falta de investimentos no setor. "O esporte ficou abandonado em Juiz de Fora por mais de 30 anos. Em 2009, com a criação da subsecretaria, é que começamos a dar os primeiros passos. No entanto, eu não podia ficar esperando condições ideais para iniciar o programa na cidade. Os núcleos possíveis, que estão dentro dessa precariedade, foram fotografados e apresentados ao ministério. Decidimos começar, porque era preferível sofrer críticas em relação ao espaço do que virar as costas para a oportunidade de atendimento a quatro mil crianças. Temos ciência dessas precariedades, mas é preferível demandar do que esperar pela infraestrutura", explicou.
Quanto ao lanche, cuja previsão estabelece um cardápio com fruta, pão, biscoito e iogurte em dias alternados, o secretário informou que a Secretaria de Agropecuária foi a responsável pela licitação, cuja previsão é de R$ 1 por menino, e que, até hoje, nenhuma reclamação foi encaminhada à Secretaria de Esporte.
A Tribuna identificou duplicidade de endereços nos núcleos de Barbosa Lage e do Parque das Torres. No cadastro do Ministério do Esporte, aparecem, para essas duas unidades do programa, os mesmos nome de rua e número referentes à Escola Municipal Professora Eunice Alves Vieira. De acordo com o coordenador geral do Segundo Tempo, em Juiz de Fora, Rodrigo Vianelo, não houve má-fé. Ele explicou que a captação de alunos do Parque das Torres foi feita na escola do Barbosa Lage, mas os meninos daquele bairro são atendidos na praça da própria comunidade, motivo que teria gerado o mesmo endereço para os dois núcleos.
A baixa frequência nos núcleos visitados pela reportagem foi comentada por Miranda, que afirmou que não se pode ter uma avaliação precisa sobre a participação nas atividades por meio de uma amostra aleatória. Vianelo informou que a média estipulada para os núcleos é de 80% do total de cadastrados, cerca de 120 por núcleo, e que esse percentual vem sendo atendido. "Em agosto, tivemos a visita de técnicos do ministério e, no geral, tivemos uma boa avaliação."
Em relação à crise nacional desencadeada por denúncias de corrupção envolvendo o Ministério do Esporte e o programa, o secretário de Esporte de Juiz de Fora disse que, se houver comprovação dos fatos, tem de haver punição. Quanto à influência de Wadson Ribeiro na liberação dos convênios, ele comenta: "Não tenho filiação partidária, e a nossa relação com Wadson existe por motivos profissionais. Faço questão de frisar que ele sempre foi muito correto com todas as questões relacionadas à Prefeitura de Juiz de Fora."

