ENTREVISTA/ GIULIA ALVES FARDIM E IGOR MALHEIROS ASSAD, estudantes
A frase é do estudante Igor Malheiros Assad, 17 anos, um dos dois jovens de Juiz de Fora integrantes do Parlamento Jovem Brasileiro, que reunirá, no Congresso Nacional, adolescentes dos 27 estados do país para vivenciar o dia a dia do Legislativo. Ao lado de Giulia Alves Fardim, também de 17 anos, ambos estudantes do Colégio dos Jesuítas, ele estará em Brasília entre os dias 23 e 27 de setembro. Igor e Giulia conversaram com a Tribuna a sobre a formação cidadã que receberam, os assuntos que discutirão na Câmara dos Deputados e o atual momento político do Brasil.
Tribuna – Para integrar o Parlamento Jovem Brasileiro, vocês tiveram de apresentar projetos de alteração na legislação federal, que venham a beneficiar a população. Quais foram os projetos que apresentaram e como eles foram concebidos?
Giulia Alves Fardim – Meu projeto pretende incluir mais informações no Cartão de Saúde, como dados sobre as doenças que o usuário do SUS teve e as vacinas que tomou, a fim de agilizar o trabalho do médico. Quando montei o projeto, comecei a analisar setores que ainda não prestam serviços adequados à população, sendo um deles a saúde. Logo percebi que discute-se muito sobre saúde, sempre tratando de questões estruturais como o salário dos médicos e a estrutura das unidades de atendimento. Mas poucos olham para a organização do sistema, que no papel é exemplar, mas na prática tem muito a ser aprimorada.
Igor Malheiros Assad – Eu quero incluir o serviço comunitário obrigatório na grade curricular das escolas públicas e particulares. É um projeto criado a partir de exemplos parecidos que temos nos Estados Unidos, por exemplo, em que muitas escolas trabalham com esse modelo e muitas universidades pontuam, em exames de seleção, estudantes que fizeram este tipo de ação. A s pessoas têm uma posição cômoda em relação à realidade social do país. Elas esperam resultados, mas colocam toda a expectativa por melhorias na esfera pública, pouco atuando para mudar alguma coisa.
– Como vocês têm percebido este momento de protestos e expectativa de mudanças vivido pelo Brasil?
Giulia – É algo inédito para nós. Não éramos nascidos quando houve a última mobilização popular deste tipo, o movimento Fora Collor. Penso que era um momento já esperado, uma vez que os serviços públicos oferecidos no Brasil são deficientes, o que, junto aos gastos com a Copa das Confederações e o aumento no valor da passagem de ônibus em muitas cidades, fez com que a população resolvesse ir às ruas para mudar esta má situação. Isso mostra que a população está atenta ao que os governos fazem, que ela luta por seus direitos.
– Igor – Esses movimentos já são sinais de que há uma mudança acontecendo no país. Os jovens, principalmente, estão conscientes de que é preciso mudar, de que a sociedade demanda mais avanços em políticas urbanas, saúde e educação.
– O Legislativo é, dos Três Poderes, o maior alvo de denúncias por corrupção e de crítica social. Como encaram essa má reputação?
– Giulia – As pessoas não acompanham o Parlamento, não cobram dele, e isso se deve, em grande parte, ao histórico de autoritarismo que permeou nossa república. Depois de duas longas ditaduras, a população passou a se identificar com apenas uma figura política, o que não está certo, pois os poderes devem estar relacionados. O Legislativo é importante por dar voz às minorias, uma vez que é um espaço que reúne mais representantes, além de ser o poder fiscalizador das ações do Executivo. Portanto, é muito importante haver identificação entre a população e os vereadores, deputados e senadores.
Igor – O Executivo torna-se mais marcante, creio eu, porque o poder é personalizado. Uma pessoa que representa a população é algo mais palpável, compreensível, que um parlamento. O Legislativo não tem um nome de referência, alguém em cuja atuação a população confie. Além disso, o Legislativo é associado à burocracia, à lentidão na realização das políticas públicas. Ao contrário disso, o Executivo têm aquele carimbo de quem faz, mesmo que isso sempre esteja na esfera da promessa.
– O que vocês esperam da participação de vocês no projeto do Legislativo nacional?
– Giulia – Quero conhecer e debater novas propostas, discutir o meu projeto, chegar a um consenso sobre mudanças que vão melhorar a vida das pessoas. Do Parlamento Jovem Brasileiro, espero que ele sirva à mudança que a sociedade quer, integrando os jovens à política.
– Igor – Quero aumentar meu conhecimento sobre a legislação brasileira, por meio de um espaço que propicia a vivência da democracia. Isso vai me oferecer um preparo melhor para viver a política, uma vez que a população, na qual me incluo, ainda não está preparada para isso. É importante que este cenário mude, porque uma população melhor preparada tem, por consequência, um país em que a política é levada mais a serio.
