Ícone do site Tribuna de Minas

Ex-presos políticos visitam passado contra abusos futuros

ex presos politicos priamo 1
comissao da verdade
Mantidos reclusos na cidade após passarem por diversas sessões de tortura em órgão de segurança de Belo Horizonte, no início dos anos 1970, durante a Ditadura Militar, ex-presos políticos Emely Vieira Salazar e Carlos Antônio Melgaço Valadares visitaram a Penitenciária José Edson Cavalieri, na tarde dessa terça-feira (20). (Foto: Fernando Priamo)
PUBLICIDADE

Na parede da memória, existem alguns quadros que doem mais. Eles necessitam ser revisitados de tempos em tempos. Como exemplo e para reforçar a certeza de que o novo sempre vem. Reviver experiências duras foi exatamente o que fizeram os ex-presos políticos Emely Vieira Salazar e Carlos Antônio Melgaço Valadares na tarde dessa terça-feira (20), quando visitaram a Penitenciária José Edson Cavalieri, em Linhares, em Juiz de Fora. No início dos anos 1970, durante a Ditadura Militar, os dois foram mantidos reclusos na cidade após passarem por diversas sessões de tortura em órgão de segurança de Belo Horizonte. O recorte sombrio da história da cidade e do país foi encarado de forma serena. Emely e Melgaço preferiram ressaltar a relevância dos trabalhos da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg), que promoveu a visita e, na manhã desta quarta-feira, realiza audiência pública em Juiz de Fora para colher mais depoimentos de violações de direitos humanos. Para os dois, conhecer a história dos abusos cometidos durantes os chamados anos de chumbo é importante para que fique claro que o passado é uma roupa que não nos serve mais.

“A visita reconstitui, de certa forma, uma série de coisas das quais não lembrávamos. Isso são coisas que precisam ser ditas e lembradas”, ponderou Melgaço, que após as torturas e prisões se manteve ativo e militante em grupos antitortura. A fala tranquila de quem tem a certeza de que violações a direitos humanos devem ser combatidas também foi compartilhada por Emely. Sempre serena, ela afirma que buscou por boas lembranças ao voltar ao local 46 anos depois de ser mantida prisioneira por motivos políticos. “Estava tentando reconhecer. Nunca havia entrado na ala masculina. Entramos por lá. Fiquei tentando relembrar algumas cenas. Isso foi bom. Minha cela era ali, mais ou menos no meio da ala das mulheres. Também fui ao pátio, até o local em que abrimos uma parte (do piso), que arrancamos para plantar uma coisa ou outra”, lembra a ex-presa política.

PUBLICIDADE

Curioso é pensar que Emely foi presa pela ditadura exatamente pelo que está fazendo em sua mais recente passagem por Juiz de Fora: denunciar a tortura. Entre o fim da década de 1960 e o início dos anos 1970, ela não atuava em nenhum grupo radical, mas, até por sua forte ligação com a Igreja Católica, não se furtava a ajudar militantes acuados pelo regime. “Um precisava fugir, eu ajudava. Outro precisava se esconder, eu ajudava. Quando alguns eram presos, em vez de entregar alguém do grupo dele, entregavam a mim. Apareci em vários processos. Acharam que eu era do comando e que tinha ligação com todos os grupos.” Quase 50 anos depois, Emily não nega a ação política de alguns de seus atos: “Era preciso derrubar a ditadura”.

Já Carlos Melgaço foi preso em 1969 e só foi libertado em 1971, quando deixou a Penitenciária de Linhares. Sua prisão aconteceu em Belo Horizonte, o que já ocorreu sob abusos físicos e graves violações de direitos humanos. Sua captura foi feita ao lado de Loreta Valadares, sua esposa, com quem havia casado um ano antes e que também passou pelo mesmo complexo penitenciário. Após a visita, Melgaço lembrou que, durante todo o período em que os dois permaneceram no local, a aproximação dos dois foi restringida, ficando o contato do casal limitado a improvisações. “Nos comunicávamos por bilhetes e bolinhas de papel.”

As improvisações, aliás, eram ferramentas recorrentemente utilizadas pelos presos políticos que dividiam as duas alas – uma para homens e outra para mulheres – da Penitenciária José Edson Cavalieri. Emely lembra de passagem em que estava sendo levada para outra unidade policial da cidade e recorreu aos gritos para tentar garantir, de forma mínima, sua segurança. “Estão me levando, não sei para onde”, berrou certa vez, enquanto era conduzida por militares. A ex-presa política lembra ainda outra ferramenta utilizada para comunicação e acalanto entre os presos. “Teus olhos quando estão a brilhar até parecem uma noite de luar…”, cantarolou durante o translado. A voz rouca que interpretou a seresta de João Chavez não foi capaz de esconder os olhos brilhantes dos jovens que sonham em mudar o mundo.

Linhares sediou greve de fome

Durante a visita a Juiz de Fora nessa terça-feira (20), Emely Vieira Salazar e Carlos Antônio Melgaço Valadares relataram diversos tipos de tortura aos quais os militantes contrários ao Governo Militar eram submetidos entre os finais dos anos 1960 e início dos anos 1970 em Belo Horizonte. “Sofri todas estas (torturas) que você ouviu falar: pau de arara, choque elétrico, telefone, palmatória…”, conta a ex-presa política. Apesar dos depoimentos, no entanto, tanto ela quanto Melgaço foram unânimes em afirmar que não presenciaram situações de tortura ou de graves violações aos direitos humanos na Penitenciária de Linhares. “Toda prisão é um tipo de tortura psicológica”, pondera Emely.

PUBLICIDADE

Melgaço aponta uma certa sensação de alívio vivenciada pelos presos políticos de outras cidades ao serem transferidos para a penitenciária de Juiz de Fora. “Quando vínhamos para cá, significava que o ciclo de tortura estava perto do fim”, lembra. Contudo, lembra momentos de tensão, como quando ao lado de outros presos chegou a ser mantido isolado, sob suspeitas de comandar uma greve de fome de 14 dias – momento em que foi ameaçado de ser despachado para centros onde a prática de tortura era recorrente. “Vocês vão para o Rio e serão sujeitos a um novo IPM (inquérito policial militar)”, lembra Melgaço, repetindo falas de militares.

“Três dias depois, me chamaram e me disseram: você vai sair agora. Como estávamos em uma ala isolada, todos começaram a bater na porta.” O receio de ser encaminhado para o Rio de Janeiro, no entanto, passou, quando ele percebeu que estava sendo liberado, ainda antes do julgamento. “Chequei a dizer que não ia. Como ia sair? Liguei para o advogado que me orientou a sair o mais rápido possível e tentar pegar um dinheiro emprestado para a passagem, que ele pagaria depois.”

PUBLICIDADE

Se Melgaço cogitou não deixar a prisão por receio de que algo pudesse lhe acontecer nas imediações da penitenciária, Emely se negou de fato a ser liberada em um certo momento e acabou mantida no local até seu julgamento em 1971. Ainda em 1970, o nome dela figurou na lista de 70 presos políticos que seriam liberados em troca da soltura do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado por grupos que integravam a resistência armada à Ditadura Militar.

Mesmo às portas da soltura, Emely se negou a ir para o Chile, para onde os presos libertados seriam exilados. Preferia seguir no Brasil. “Fui buscada em minha cela e levada para uma unidade, onde eles me mandaram assinar um documento em que afirmava que não queria ir. Quando eu li, falava que eu era contra o que fizeram e que abominava aquilo. Eu disse: eu não vou assinar isto, não. Não querer ir é diferente. Mas não ia criticar os companheiros que correram todo aquele risco. Aí, me levaram outra vez para Linhares.” No final de 1971, Emely saiu livre após julgamento.

Recém-formada em psicologia pela antiga UCMG (hoje PUC Minas) e militante da Ação Popular (AP) ligada ao movimento da Igreja Católica à época, Emely foi denunciada em vários inquéritos e torturada no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em Belo Horizonte, tendo sido absolvida no julgamento. Ex-presa política, ela se recorda ter passado por mais duas unidades em Juiz de Fora além de Linhares. Agora, retorna ao município para tentar reconhecer quais são estes locais. Também integra o grupo que visita a cidade o coordenador-geral da Covemg, Robson Sávio Reis Souza, e dos integrantes Carlos Melgaço Valadares, Jurandir Persichini Cunha, Maria Celina Pinto Albano e Paulo Afonso Moreira, além da equipe técnica e de pesquisadores do colegiado.

PUBLICIDADE

Audiência pública e homenagens

Na manhã desta quarta-feira (21), a Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) realiza uma audiência pública entre 8h e 12h, no plenário da Câmara Municipal. O colegiado busca esclarecer violações de direitos fundamentais praticadas no período que vai de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988, data da promulgação da atual Constituição. Entre os depoentes convidados a contar suas histórias durante a audiência pública está Edson Nogueira da Silva, aposentado da Companhia de Estrada de Ferro Leopoldina, e Francisco Carlos Limp Pinheiro, filho do vereador Francisco Afonso Pinheiro, cassado em 1964.

Também são aguardados o ex-deputado federal José Luiz Guedes e a ex-vereadora Nair Guedes, que, durante o Governo militar, foram presos, torturados e precisaram viver na clandestinidade e no exílio. Alem deles, devem prestar depoimentos o professor aposentado, dramaturgo e diretor teatral José Luiz Ribeiro, convidado para falar sobre a censura vivenciada pela imprensa e pela classe cultural durante a ditadura militar; Ricardo Fontes Cintra, preso em Ibiúna quando participava do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE); e Vanderli Pereira Pinheiro, que foi liderança do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tombos, perseguido e ameaçado.

 

PUBLICIDADE

Homenagens

Durante a audiência, a Covemg também deve prestar homenagens a outros nomes que atuaram na resistência e foram perseguidos pelo regime autoritário. Entre eles, o ex-deputado estadual Clodesmidt Riani receberá uma menção especial ao lado de nomes como José Villani Côrtes, Misael Cardoso Teixeira e Moisés Alex Alves.

Sair da versão mobile