
Manifestantes a favor do impeachment se reuniram na praça de São Mateus… (FernandoPriamo/18-04-16)
… enquanto que os contrários ao processo se encontraram na Praça da Estação (Leonardo Costa/18-04-16)
Os ecos das nove horas e quarenta e sete minutos da sessão extraordinária da Câmara dos Deputados que validou a abertura de um processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) ainda serão ouvidos por muito tempo, com reflexos nas demais esferas de poder. O resultado contrário ao Governo desnudou a fragilidade da aliança entre o PT e o PMDB, que, por ora, ainda mantêm vínculo umbilical no comando do Poder Executivo de Minas Gerais. A defecção de última hora do ex-ministro da Aviação Civil e deputado federal Mauro Lopes (PMDB), pai do presidente da Assembleia Legislativa, Adalclever Lopes (PMDB), que votou favorável ao impedimento de Dilma, porém, foi vista por petistas como traição e coloca a relação entre as legendas em situação embaraçosa. Lopes, que deixou o Governo para reassumir a cadeira de titular na Câmara dos Deputados na última quinta-feira, se posicionou ao lado de seu partido. Todos os seis parlamentares do PMDB votaram pelo afastamento da petista, engrossando um resultado que apontou 41 votos a favor da admissibilidade do processo e 12 contrários, entre os 53 legisladores eleitos pelo estado.
O posicionamento dos peemedebistas parece revelar que o diálogo entre os diretórios mineiros de PMDB e PT é eivado de ruídos. Próximo à presidente (PT), de quem foi ministro entre 2011 e 2014, o governador Fernando Pimentel não conseguiu trazer um peemedebista sequer para a defesa da manutenção do mandato da presidente. Isso mesmo tendo o vice-governador Antônio Andrade (PMDB) respondendo pela presidência estadual peemedebista. Ou seja, os diretórios estaduais dos dois principais partidos do Governo estadual têm posicionamentos discrepantes quando o assunto é o Brasil. Os discursos de momento, todavia, negam um possível racha. Andrade defende que as disputas na esfera nacional não devem ser trazidas para o âmbito estadual. Na prática, no entanto, já há quem se mostre adepto do chamado fogo amigo, como o deputado federal Newton Cardoso Jr (PMDB), filho do ex-governador Newton Cardoso. “Pimentel não reúne as condições para atender qualquer tipo de pleito do PMDB, que ainda não foi contemplado no estado”, afirmou em declaração veiculada pela imprensa de Belo Horizonte.
Por outro lado, declarações favoráveis ao mandato de Dilma vieram todos de partidos também da base de sustentação do Governo estadual. Oito votos contrários ao processo foram dados por parlamentares do próprio PT: Patrus Ananias, Reginaldo Lopes, Adelmo Carneiro Leão, Gabriel Guimarães, Miguel Corrêa, Margarida Salomão, Padre João e Leonardo Monteiro. Também fecharam questão contra o afastamento Jô Moraes (PCdoB), Aelton Freitas (PR), Brunny (PR) e George Hilton (PROS).
Erros
Em entrevista concedida à rádio CBN Juiz de Fora, o cientista social e doutor em religião Emerson Sena condena o atual conceito de articulação política adotado pelo PT no âmbito nacional, que é replicado em alguns governos estaduais. “O PT não aprendeu com o mensalão a fazer novas articulações políticas e abrir espaço para pessoas que não estão envolvidas com a corrupção. Há um retrocesso do partido que começa lá atrás, como o fim das prévias, por exemplo. O PT deixou morrer a democracia interna. Tenho certeza de que se houvesse prévia bem feita e disputada, Dilma não seria candidata.”
Para o especialista, as atuais dificuldades de gestão dos petistas esbarram em erros cometidos pelos próprios mandatários da legenda, que ajudaram a guiar o país para a atual crise política e econômica, e pela costura de aliança partidária praticada. “O PMDB sempre foi o que foi. Uma confederação de interesses. Há interesses governistas. A forma do PT de lidar com alianças deu poder exatamente a essa parte do PMDB que hoje reclama o poder.”
Placar local foi de dois a um pró-impeachment
Os três deputados federais que têm domicílio eleitoral em Juiz de Fora fugiram um pouco do tom da maioria dos demais parlamentares, que justificaram seus votos com proposições alheias ao processo de impeachment, como “Deus” e a “família”. Primeiro a declarar voto, Júlio Delgado (PSB) fez um ataque direto ao presidente da Câmara, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB), antes de declarar seu posicionamento favorável ao prosseguimento do processo. “Não é legítimo que um suspeito como você presida esta sessão. A sua hora vai chegar, Cunha”.
Também favorável ao andamento da peça, Marcus Pestana (PSDB) não entrou no mérito das acusações constantes no processo de impeachment e voltou a acusar Dilma do que chama de “estelionato eleitoral”. “Os 54 milhões de votos não são biombo que autoriza o assalto ao país.” Única a votar contrária ao impedimento da presidente, Margarida Salomão (PT) criticou as justificativas evasivas dadas por diversos parlamentares. “Ouvindo com atenção os oradores que me precederam, ouvi com espanto que a maioria dos deputados que apoiam o impeachment o fazem lembrando seus familiares, mas não aludem ao crime de responsabilidade que seria a causa constitucional do impeachment, não aludem que esse crime não existe.”
Sem perspectiva
A possibilidade de a cidade voltar a ter uma quarta cadeira na Câmara dos Deputados parece mais distante no momento. O motivo uma vez mais é a defecção do ex-ministro Mauro Lopes (PMDB). Eleito deputado federal em 2014, Lopes deixou o Governo para retomar a titularidade do mandato e ter direito a voto no último domingo. Para seu retorno, o juiz-forano Wadson Ribeiro (PCdoB), que exercia mandato como suplente, acabou afastado.
O posicionamento do ex-ministro contrário ao Governo, todavia, praticamente inviabiliza um possível retorno de Lopes à Esplanada dos Ministérios. Ao menos no momento, também impede a volta de Wadson, quarto suplente da coligação “Minas Pra Você” (PT/PMDB/PCdoB/PROS/PRB) à atual legislatura.
Vereadores se posicionam sobre crise política
Os desdobramentos da votação da Câmara Federal ecoaram na sessão ordinária de ontem no Legislativo Municipal. Alguns parlamentares tomaram a palavra para classificar a aprovação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) como um golpe à ordem democrática. As principais defesas partiram, claro, da bancada petista: Wanderson Cautelar (PT) e Roberto Cupolillo (Betão, PT). Os embates ocorreram após o discurso de André Mariano (PSC), que foi à tribuna para atacar o Governo federal e questionar os argumentos dos petistas contra o fato de que a maioria dos deputados federais valeu-se de questões alheias ao processo, como a família, para justificar seus votos.
Pastor evangélico, Mariano citou temas como as discussões sobre as possibilidades de legalização do aborto e os debates sobre políticas de identidade de gênero. “Discurso do desespero. Tive 700 votos de crentes. Eu represento a família tradicional. Meu compromisso, acima de tudo, é com Deus.” As colocações do vereador, entretanto, foram rebatidas por Betão.
“Dizer que o presidente Lula apresentou um projeto de que o aborto pode ser feito até nove meses e gestação é uma mentira deslavada. Só posso classificar o senhor como de extrema-direita. O senhor incorporou mesmo o Bolsonaro. Só espero que o senhor não seja também favorável à tortura”, considerou o petista, lembrando o pronunciamento do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), que citou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra em sua declaração de voto. O militar foi chefe comandante do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo entre 1970 a 1974 e, em 2008, tornou-se o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador durante a ditadura.
Mobilizações em JF têm presença abaixo do esperado
Durante a votação do último domingo, centenas de pessoas foram às ruas de Juiz de Fora em manifestações favoráveis e contrárias ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Todavia, assim como aconteceu em todas as cidades do país, a presença ficou bem abaixo do que se especulava.
Na Praça da Estação, no Centro, ficaram concentrados os defensores da manutenção do mandato da petista, em uma mobilização que teve início ainda pela manhã e só foi encerrada à meia-noite. Durante a votação, já à noite, a avaliação da Polícia Militar (PM) era de que cerca de 400 pessoas acompanhavam a sessão legislativa. Para os organizadores, os presentes eram 1.500.
Já o ato público favorável ao impedimento de Dilma foi realizado na Praça Jarbas de Lery, no Bairro São Mateus. A ação começou às 14h e também se estendeu até a meia-noite. A PM e a organização não estimaram o número de presentes que acompanharam a votação. Quando o placar pela abertura do processo já estava garantido, por volta das 23h, um grupo saiu em carreata acompanhando um trio elétrico contratado pela organização até o Bairro Alto dos Passos.

