A presença do nome do prefeito Bruno Siqueira (PMDB) e do deputado federal Júlio Delgado (PSB) em uma planilha que teria sido entregue ao Ministério Público pelo delator Benedicto Barbosa da Silva Júnior, que comandava o Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht – o chamado “departamento da propina” – repercute na cidade desde o último sábado. De acordo com reportagem publicada pelo jornal “Valor Econômico”, o documento integra o inquérito 4.402 e traz uma relação de pelo menos 645 contribuições supostamente ilegais feitas por meio de caixa dois pela Odebrecht a campanhas eleitorais entre os anos de 2008 e 2014.
A lista traz nome, codinome, valores, propósito e intermediário da doação classificada como caixa dois. Ontem, em movimentos individuais e distintos, os dois políticos locais voltaram a se manifestar sobre a aparição de seus nomes na relação e rechaçaram qualquer envolvimento com a empreiteira investigada no âmbito da Operação Lava jato. Bruno recorreu ao Facebook, enquanto Júlio manteve contato com as reportagens da Tribuna e da Rádio CBN Juiz de Fora.
De acordo com as informações da planilha em questão, Bruno teria recebido dois repasses oriundos de doações ilegais. O primeiro, de R$ 25 mil, supostamente realizado em 2010, quando o peemedebista se elegeu deputado estadual com a maior votação da cidade. Na ocasião, o suposto codinome relacionado ao prefeito seria “Sino”. Dois anos depois, em 2012, quando venceu a disputa pela Prefeitura pela primeira vez, uma nova doação de viés ilegal teria sido realizada no valor de R$ 100 mil. Desta vez, o codinome “Fino” foi utilizado para se referir a Bruno. Ainda de acordo com a relação, os repasses teriam sido feitos sob a justificativa de “disposição para apresentar emendas/defender projetos no interesse da companhia”, à época do mandato de deputado estadual, e de “desenvolvimento de projetos de infraestrutura de interesse da empresa”, em 2012, quando almejou, com sucesso, o Poder Executivo.
Já no caso de Júlio Delgado, a planilha detalha que o pagamento de caixa dois teria acontecido em 2010, quando foi eleito deputado federal. Segundo o documento, Júlio teria recebido R$ 100 mil sob o codinome de “Zagueiro” e a justificativa de “disposição para apresentar emendas/defender projetos no interesse da companhia”. Ainda de acordo com a relação apresentada pelo delator Benedicto Jr., as doações que trazem aspectos ilegais feitas a campanhas de Bruno e Júlio entre 2010 e 2012 teriam sido intermediadas por “SN”. Supõe-se, portanto, que a sigla se refere ao ex-executivo da Odebrecht Sérgio Neves, que desempenhou a função diretor-superintendente da Odebrecht em Minas Gerais e também fechou acordo de delação premiada no âmbito da Operação Lava jato.
Bruno reafirma uso de doações lícitas em campanhas
Após se posicionar por meio de nota encaminhada pela assessoria no último sábado, quando a planilha foi tornada pública, Bruno Siqueira fez sua primeira fala pública sobre o tema. Bastante utilizadas pelo prefeito nos últimos meses, as redes sociais foram o meio escolhido para reforçar posicionamento apresentado no último sábado e descartar quaisquer irregularidades. Direto de seu gabinete, o peemedebista reforçou que disputa processos eleitorais desde de 2000. “Nas eleições de 2000, 2004, 2008, 2010 e 2012 eram permitidas doações lícitas de empresas para campanhas eleitorais. Tanto eu, quanto o comitê eleitoral, como o nosso partido, procuramos diversas empresas para que pudessem realizar doações legais às nossas campanhas. Algumas empresas fizeram doações diretas. Outras fizeram doações ao partido e o partido, de forma legal, repassou para as candidaturas”, frisou.
Uma vez mais, reforçou que a Administração municipal não mantém relações contratuais com a Odebrecht. “Gostaria de mais uma vez esclarecer que o grupo Odebrecht não tem nenhum tipo de obra e projeto na Prefeitura de Juiz de Fora. Tanto nesta gestão quanto na gestão anterior. Todas as nossas contas de campanha – inclusive na última campanha de 2016, quando já não eram mais permitidas as doações de empresas – todas as nossas contas foram aprovadas pela Justiça Eleitoral. Estou tranquilo e trabalhando muito para que Juiz de Fora e Minas possam continuar avançando de forma correta com o trabalho sério que realizamos à frente da Prefeitura de Juiz de Fora”, afirmou o prefeito em vídeo postado no Facebook.
Julio ressalta que não é alvo de inquérito ou investigação
Júlio Delgado também reforçou que está tranquilo e negou qualquer vínculo com a empresa ou com Benedicto Jr. em sua atuação parlamentar, descartando, assim, qualquer suposição sobre suposto recebimento de “caixa dois”. “Nunca tive relações com a Odebrecht. Nunca fiz parte das comissões que interessam a empresa e nunca relatei qualquer medida provisória que pudesse beneficiar a empresa em algum destes esquemas que eles participaram”, afirmou o deputado. Júlio é taxativo ao firmar que desconhece o delator. Segundo o parlamentar, a única vez que manteve contato com a Odebrecht foi entre 2005 e 2007, quando acionou o Ministério das Relações Exteriores para intervir no caso do engenheiro brasileiro José João Vasconcellos Júnior, que foi sequestrado e morto no Iraque, onde trabalhava a serviço da empreiteira. O profissional foi velado e sepultado em Juiz de Fora.
O deputado do PSB reforça que não é alvo de qualquer tipo de inquérito ou investigação por conta da planilha. “Não há fato concreto. Não há nexo causal. Tanto que não foi encontrado qualquer elemento que justificasse uma investigação”, afirmou, lembrando lista do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo, que, na semana passada, autorizou a Procuradoria Geral da República (PGR) a investigar oito ministros, três governadores, 24 senadores e 39 deputados. O entendimento reforça posicionamento defendido pelo parlamentar no último sábado, em matéria publicada no site da Tribuna. “Não respondo as qualquer inquérito ou investigação relativos ao que a planilha trata, diferente de outros políticos”, declarou na ocasião.
