A internet já havia sido consagrada como veículo de divulgação de campanhas eleitorais em 2008, com a eleição de Barack Obama, quando milhões de eleitores foram conquistados via web. O mesmo aconteceu no pleito de 2010, no Brasil, quando partidos e políticos fizeram da web um grande palco de comício, aberto a qualquer eleitor. Na entressafra do período de campanhas, o movimento que se observa, agora, é de engajamento por parte do cidadão, que tem usado a rede crescentemente como meio de expressão política , criando nova relação com o poder. Professor da Faculdade de Comunicação da UFJF e ex-coordenador do programa de pós-graduação da instituição, Francisco Pimenta denomina a participação política dos cidadãos via web como "ciberativismo", e pesquisa o tema há mais de dez anos. Para ele, o exercício da cidadania por meio de tecnologias digitais já é uma realidade e só tende a crescer, transformando as relações entre a sociedade e as esferas de poder. "O mais interessante acontecerá quando o próprio poder público e os partidos compreenderem, de uma vez por todas, que essa ampliação de participação melhora a vida das pessoas e, nesse sentido, interessa a todos, sejam de esquerda, de centro ou de direita, e que, como vai acontecer de qualquer jeito, o melhor a fazer é se conectar", opina o especialista.
O processo ao qual Pimenta se refere já está acontecendo. Muitos políticos hoje utilizam a rede como palanque, buscando maior proximidade com o cidadão. "A internet hoje é uma ferramenta essencial para dar transparência às discussões políticas, pois permite a participação dos cidadãos. Para mim, é um recurso essencial na interação entre o Governo e a população", defende o vereador Noraldino Júnior, que possui contas no Twitter, Facebook e Orkut, além de manter um blog e um website. "Procuro fundamentalmente informar e buscar o retorno dos leitores e leitoras", acrescenta o vereador Flávio Cheker.Já o deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), defende que a web é um meio barato e eficaz para a divulgação das ações durante o mandato. "Fica mais fácil para divulgarmos e para as pessoas acompanharem e opinarem, o que ajuda a direcionar nossas próximas ações em sintonia com a sociedade." O deputado estadual Marcus Pestana (PSDB) concorda, mas chama atenção para os riscos que a web oferece, como a divulgação de informação sem credibilidade. "Toda tecnologia é neutra e pode ser empregada para o bem ou para o mal. O posicionamento ético está nas mãos de quem a usa", alerta ele, lembrando caso recente em que a conta de e-mail da presidente Dilma Roussef foi invadida por hackers.
Construção da opinião
O cientista político da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino, também acredita que a web pode estar sujeita a uso indevido, ressaltando que, como este tipo de participação política é uma realidade nova, as consequências ainda estão começando a ser sentidas. Ele defende, entretanto, que o direito à participação pública é um grande avanço. "Uma democracia representativa se faz, fundamentalmente, pela opinião pública. Quanto mais plural, maior a chance de que todos sejam ouvidos. Temos na internet um bom canal de participação política por meio da construção da opinião." No início do ano, protestos de usuários do Twitter e do Facebook abalaram as estruturas de poder em países como Egito, Tunísia e outras nações do Oriente Médio. No Brasil, prova mais recente desta dinâmica no Brasil foi a campanha pela Lei da Ficha Limpa, que ganhou adesão na rede, antes do pleito de 2010, quando mais de dois milhões de internautas assinaram petição – nos sites www.fichalimpa.org.br e www.avaaz.org – , para enviar projeto de lei ao Congresso, impedindo que candidatos condenados pela Justiça concorressem às eleições. No mesmo caminho, circula hoje na rede – no site www.peticaopublica.com.br – um abaixo-assinado defendendo o fim do sigilo eterno de documentos oficiais do Governo brasileiro. O documento visa a pressionar a decisão dos parlamentares a favor do término do sigilo.
Poder público abre espaço para cidadão
Duas iniciativas divulgadas na última semana refletem a nova relação entre poder público e cidadão. Na Câmara Municipal, projeto de lei do vereador José Fiorilo (PDT) pretende permitir a participação popular nos projetos de lei em tramitação na Casa. Pela proposta, os juiz-foranos poderão opinar sobre as matérias, acessando o website da instituição (www.camarajf.mg.gov.br). "Acho que esta possibilidade vai aprimorar os projetos em discussão", opina o autor.
Outra novidade, lançada na quarta-feira, é o Movimento Minas, do Governo estadual, uma espécie de rede social em que os mineiros podem enviar opiniões e propostas para o Executivo em dez linhas de ação. (www.movimentominas.br). Na opinião de Diogo Tourino, iniciativas como esta sinalizam para uma tendência de as esferas de poder abrirem espaço para maior participação política direta da sociedade. "Acho que os governos podem investir nisso, inclusive para defenderem suas posições. Quem ganha é a democracia."
