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Marcha traz cidadão para a rua

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Os dias 12 de outubro não costumam mesmo ser datas silenciosas no Brasil. Pelo contrário. São dias de risadas de crianças, de buzinas de motocicletas, de foguetórios ao meio-dia em honra a Nossa Senhora Aparecida. Em 2011, contudo, a esses ruídos juntaram-se outros, de indignação, de revolta e de protesto. Brados de pessoas que saíram às ruas para marchar contra a corrupção. Não foi por acaso, que o publicitário mineiro Alexandre Maciel, coordenador voluntário do Movimento Ética Já, usou a citação de Martin Luther King para descrever o ensejo que levou cidadãos de 25 municípios de 18 estados brasileiros a não se calarem na última quarta-feira: "O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons".

‘Avançar mais’ – entrevista com Fernando Filgueiras, cientista político

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O Ética Já é apenas uma das oito organizações apartidárias que encabeçaram a segunda marcha contra a corrupção. A primeira, no dia 7 de setembro, levou cerca de 30 mil manifestantes à Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Há quatro dias, o número na capital do país foi bem menor (entre sete mil e dez mil, segundo estimativas da Polícia Militar e da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal), mas talvez tenha sido mais simbólico, até pelo fato de a mobilização ter sido feita inteiramente através das redes sociais na internet e de ter atingido, ainda que com poucas pessoas, uma quantidade maior de cidades – incluindo, em Minas, Belo Horizonte e Uberlândia. "O 7 de setembro, tradicionalmente, já é uma data marcada por protestos, principalmente a partir de movimentos da Igreja Católica, com o Grito dos Excluídos. A data já ficou rotinizada e há grupos sociais e partidos de esquerda que se tornaram habitué nessa mobilização. O que aconteceu no dia 12 de outubro foi algo diferente. Uma resposta a uma demanda que teve o feito de levar a classe média – acostumada a assistir ao Jornal Nacional, se indignar, mas não tomar atitude – às ruas", analisa o cientista político da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino.

A náusea é provocada principalmente pelas próprias instituições públicas que representam a população. "O que ocorre é que o cidadão de bem já não aguenta mais tanta corrupção e impunidade. Pagamos uma das cargas tributárias mais altas do mundo, e a contrapartida é pífia. A infraestrutura no país é precária. A saúde pública agoniza, bem como a segurança e a educação. Em paralelo, as manchetes diárias de escândalos de corrupção demonstram que a classe política já não se envergonha mais com tamanha putrefação dos valores éticos e morais", indigna-se Alexandre Maciel. "Eles, corruptos, sequer sentem algum remorso. Há sempre um bando de parasitas bajulando corruptos e corruptores. Vivemos uma crise profunda de valores".

 

‘A sociedade pode se corromper’

Tanto o Ética Já quanto as demais organizações prometem novas marchas no dia 15 de novembro. Para os especialistas, no entanto, a mobilização agora precisa sair do discurso generalista. "O que está acontecendo é mais pontual do que estrutural. É uma resposta ao clima que se criou em torno da ‘faxina’ nos ministérios. Ao mesmo tempo, faz parte de processos que estão ocorrendo no mundo, como a Primavera Árabe, o movimento dos indignados na Espanha, o Ocupe Wall Street… ", destaca o historiador e cientista político da UFJF, Fernando Perlatto. "O que é preocupante é o tom moralista e muito pouco político. Se (as manifestações) não viram ações políticas, haverá apenas vozes gritando que não se organizam para promover uma transformação."

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Por outro lado, o cientista político da UFMG, Fernando Filgueiras, chama a atenção para o cuidado de não reunir todos os movimentos mundiais no mesmo balaio. "No caso do Ocupe Wall Street, os cidadãos norte-americanos reivindicam mudanças no sistema financeiro. O discurso da corrupção também aparece, mas o da corrupção que se pratica na esfera privada e que afeta negativamente os governos. Na Primavera Árabe, o processo é distinto. Eles convivem com cleptocracias fortemente autoritárias e que desrespeitam profundamente os direitos humanos. No Brasil, a insatisfação é com o funcionamento das instituições."

Apesar disso, Diogo Tourino aponta o equívoco de se culpar os partidos políticos e alijá-los do processo. "Ao não permitir a participação de bandeiras partidárias, as marchas trazem uma mensagem positiva pela autonomia, mas também perversa porque aponta os partidos como únicos e exclusivos culpados pela corrupção. E isso é mentira. A sociedade pode se corromper. A sociedade não tem postura cívica na condução no trânsito, não tem postura cívica na hora de furar fila. Mas teima em retratar a política como culpada. O combate à corrupção é um argumento moral, mas não é um horizonte de futuro."

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