
Cientista político falou sobre corrupção
Foi no livro "Corrupção, democracia e legitimidade", publicado em 2008, que o cientista político Fernando Filgueiras desenvolveu uma tipologia da corrupção. No estudo, ele aponta que essa mazela pode assumir quatro formas: política, com o eterno problema de distinção entre público e privado; social, quando envolve o modo de controle do poder do Estado; econômica, ligada à esfera privada e às fraudes financeiras; e cultural, quando relacionada ao conceito geral de honestidade. Três anos depois, no momento em que cidadãos vãos às ruas marchar contra a corrupção, ele analisa, nesta entrevista, como as mobilizações se inserem no contexto nacional.
Tribuna – A que você atribui essa mobilização? A indignação aumentou? Ou os protestos no país são atos pontuais?
Fernando Filgueiras – As mobilizações são atribuídas a uma grande insatisfação dos brasileiros com a corrupção e com o funcionamento das instituições políticas, especialmente aquelas que exercem o processo da representação. Diferentes pesquisas acadêmicas mostram essa insatisfação e a enorme desconfiança dos cidadãos em relação, principalmente, aos partidos, legislativos, governos, polícias etc. Essa desconfiança é fortemente correlacionada com o modo como os brasileiros percebem a corrupção, especialmente em sua dimensão política. A indignação com a corrupção tem aumentado, especialmente com a maior cobertura da mídia dos diferentes escândalos e do modo como ela tem pautado essa questão. Os protestos deixaram de ser pontuais e hoje já têm um mote simbólico – como as vassouras que têm sido afixadas em locais públicos -, apesar de não haver uma pauta de mudanças institucionais desses movimentos da sociedade, tal como a reforma política e a reforma de instituições fundamentais de controle.
– Qual a ligação desses manifestos com a nossa tradição cultural?
– Penso que o modelo desses manifestos remontam à Era Vargas, com a ideia do mar de lama que tomava o Catete. Os mesmos aspectos discursivos e simbólicos ainda se fazem presentes. As vassouras em praça pública, a limpeza do mar de lama, a presença de uma oposição sem programa político, mas com forte discurso moralista. Acredito que precisaríamos avançar mais na pauta das mudanças institucionais e democráticas. A sociedade não deveria ficar apenas com a vassoura em punho, mas trabalhar e pressionar que as instituições sejam transformadas. Sem isso, o cenário político pode ficar bastante instável, se associarmos a esse processo a possibilidade de recrudescimento da crise econômica internacional.
– A economia também interfere na relação do cidadão com a política, aumentando ou diminuindo sua insatisfação?
– Sem a menor sombra de dúvida. O que torna a corrupção bastante tolerável no Brasil é um contexto econômico favorável, que é capaz de reduzir as desigualdades, aumentar a renda e inserir as pessoas no mercado de consumo. Um contexto econômico desses permite que a corrupção praticada na esfera da política seja tolerável. Na hipótese de ampliação dos efeitos negativos da crise internacional, com a diminuição de demanda de commodities e restrições no mercado, essa insatisfação tende a ampliar e isso, por sua vez, tende a pautar os cidadãos para reivindicações mais fortes contra o Governo.
– Em seu livro você trata sobre a tipologia da corrupção (política, cultural, social e econômica). O alijamento dos partidos políticos das manifestações é um sintoma de que há uma grande preocupação com a corrupção política em detrimento de "pequenas corrupções" cotidianas?
– Pode ser. Os partidos políticos são as instituições em que os cidadãos nutrem maior desconfiança. No caso de nosso sistema político, a organização institucional não permite que eles tenham organicidade junto à sociedade e isso, por sua vez, cria fortes problemas para o exercício da representação. Os partidos poderiam exercer uma atividade de controle sobre os políticos individuais e não permitir que a corrupção se torne mais corriqueira na esfera da política. Mas isto está longe de acontecer no Brasil, dado o modo como estão organizados o sistema de financiamento eleitoral, o sistema eleitoral e o sistema partidário. No caso brasileiro, a corrupção praticada na esfera política tem maior proeminência do que a corrupção que realizamos na esfera privada, sem dúvida. Não nos damos conta de como o brasileiro desrespeita regras fundamentais de convívio social e com a coisa pública. É algo que precisa ser pensado e refletido.

