
Aécio recebeu 39,75% dos votos válidos em Minas. Na cidade, 27,68%
Em Minas, Dilma obteve 43,48% dos votos válidos. Em JF, 44,46%
Os três deputados federais juiz-foranos eleitos no último domingo, Marcus Pestana (PSDB), Júlio Delgado (PSB) e Margarida Salomão (PT), exercerão papel fundamental na campanha dos dois presidenciáveis que foram ao segundo turno, Aécio Neves (PSDB) e a presidente Dilma Rousseff (PT). Para conquistar os votos dos candidatos derrotados, além dos eleitores indecisos, os partidos concorrentes apostam em intermediar coalizões partidárias, angariar apoio de lideranças regionais e aquecer a militância das legendas. Júlio, presidente estadual do PSB e uma de suas principais lideranças da sigla no país, foi um dos responsáveis pela costura da aliança com a Aécio, decidida na última quarta-feira, ao passo que Pestana é um dos nomes mais ligados ao presidenciável tucano e participa ativamente na campanha desde o primeiro turno. Margarida, por sua vez, integra o grupo que, ao lado do governador eleito Fernando Pimentel (PT), deve articular apoios de deputados e prefeitos para dar capilaridade à campanha de Dilma. Embora detenham, juntos, 296.905 votos no estado – sendo mais de 131 mil de Pestana, 78 mil de Margarida e 86 mil de Júlio – , especialistas apontam que a capacidade de transferência de votos é baixa e que o papel dos parlamentares se resume à mobilização.
A articulação de apoios e militância em Minas Gerais será uma das mais importantes dessa segunda metade de campanha, pois é o estado onde Aécio construiu sua carreira política, embora seu eleitorado tenha concedido maior votação à petista neste primeiro turno. Além de representar uma parcela significativa dos votos nestas eleições, visto que Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país – atrás de São Paulo -, a situação do tucano no estado é considerada estratégica do ponto de vista das campanhas, já que a derrota de Aécio em seu próprio reduto seria uma carta na manga da propaganda petista. O candidato do PSDB obteve 40% das intenções de voto, contra 43% de Dilma Rousseff.
Dado o cenário de equilíbrio do segundo turno e a volatilidade do eleitorado nestas eleições, a disputa ganha contornos em que todo tipo de atuação ganha importância. Neste cenário, Aécio tem em Pestana, presidente do PSDB em Minas, um importante articulador nos planos estadual e nacional. Tendo atuado no Congresso na última semana para angariar apoio dos candidatos derrotados no primeiro turno, o parlamentar participou das negociações com o PSB. Pestana recebeu, na última quinta-feira, uma carta do deputado federal Walter Feldman (PSB-SP), abrindo caminho para negociação do PSDB pelo apoio de Marina Silva. Segundo o deputado, a aliança deve ser costurada com cuidado, durante esta semana, para que não pareça um arranjo simplesmente eleitoral. “O Aécio vai conduzir pessoalmente isso, eu fui apenas uma ponte, um intermediador. Mas a aliança deve respeitar as ideias de dois atores diferentes destas eleições, que se unem por um objetivo em comum.”
O objetivo é derrotar o PT, o mesmo que motivou Júlio a trabalhar, durante a semana passada, para formalizar o apoio à candidatura tucana. Aliado de primeira hora de Aécio no estado, o deputado, no início do ano, era a favor do apoio de sua legenda à candidatura do PSDB ao Governo do estado, possibilidade que acabou sufocada pela necessidade de Eduardo Campos garantir palanque para a disputa nacional. “O PSB sempre teve posição, cresceu com base nos princípios de se colocar. E o caminho que Eduardo e Marina apontavam era o da mudança. Queremos uma aliança programática para buscar a alternância de poder que o Brasil precisa”, disse o deputado. O desafio de Júlio, agora, é evitar a evasão de apoiadores dentro da própria legenda, já que, no Nordeste, o PSB da Paraíba e da Bahia optaram por Dilma.
Articulação busca capilaridade
Sem aliança para costurar entre as candidaturas e partidos derrotados em primeiro turno, mas com ampla coalizão que tem o PMDB, partido detentor do maior número de prefeituras no Brasil e principal da base aliada, o PT busca conquistar apoio entre parlamentares, governadores e prefeitos, a fim de aumentar a capilaridade da candidatura de Dilma. Em Minas, estado com maior número de municípios no Brasil, 853, o governador eleito Fernando Pimentel (PT) será peça fundamental nas articulações da presidente para tentar manter a vantagem sobre Aécio, conquistada no primeiro turno.
Na última semana, Pimentel foi oficializado como um dos coordenadores de campanha de Dilma no segundo turno, para trabalhar diretamente junto ao presidente nacional do partido, Rui Falcão. Ligada ao grupo de Pimentel, Margarida pretende atuar em Juiz de Fora, para aquecer a militância, tanto no município quanto em cidades vizinhas. “Vamos colocar o bloco na rua, é claro, mas, além disso, vamos articular os apoios de lideranças municipais, prefeitos, deputados estaduais eleitos, para que eles possam trabalhar ao nosso lado na campanha.” Segundo a parlamentar, a força do PT está na campanha de rua. “O PT se destaca numa movimentação popular, incluindo movimentos sociais, trabalhadores. Esse é o nosso objetivo.”
Apoio não garante transferência
Embora o fechamento de apoios seja, na primeira semana de segundo turno, a principal forma de movimentação dos partidos que disputam o Palácio do Planalto, o cientista político Paulo Roberto Figueira Leal analisa que uma aliança não garante transferência de votos. Segundo o especialista, o número de apoiadores, sobretudo entre candidatos derrotados na primeira rodada, pode resultar em maior visibilidade da campanha no noticiário. Se quem está ao lado é um governador ou um prefeito, ela ganha em penetração no estado ou no município em questão. No entanto, segundo Paulo, não se pode calcular a votação que determinado apoio pode angariar para uma candidatura.
“Em muitos casos, há transferência. Em outros, pouco ou nada. Isso é porque a migração de votos no segundo turno depende de uma série de variáveis independentes. Não apenas de uma declaração de apoio.” De acordo com Paulo, o principal fator capaz de proporcionar a transferência de votos é a convergência entre as pautas dos candidatos. “Isto não está claro no caso da Marina. O eleitor votou nela por quê? Havia evangélicos, ambientalistas e um número grande de descontentes com o PT e o PSDB. Pela heterogeneidade do voto da Marina, dificilmente podemos apostar que ele migrará diretamente para um candidato.”
Enquanto Pestana foi o mais votado entre os três parlamentares no estado, em Juiz de Fora seus números foram modestos, com 15.982 votos. Margarida foi a campeã de votos na cidade, com 53.485 eleitores, ao passo que Júlio conquistou 41.634. Ao todo, os três contabilizam 111.101 votos no município. No entanto, a migração de votos em função de governadores, prefeitos e parlamentares é ainda mais frágil, segundo Paulo Roberto. Ele explica que a importância da liderança estadual é restrita e dependente de sua disposição para a função de “cabo eleitoral”. “O candidato a governador pode estar eleito ou disputando o segundo turno. No primeiro caso, ele já atingiu seu objetivo e pode não despender a mesma mobilização. No segundo, tem uma disputa estadual com que se preocupar. Ainda há o governador que não concorre, que está deixando o cargo, que costuma também estar desmobilizado.”
Para o cientista político da UFV Diogo Tourino, por outro lado, o poder do palanque nos estados e municípios é grande, e a penetração estadual das candidaturas, a despeito do envolvimento do governador ou do gestor eleito, pode definir as eleições. “O apoio do candidato derrotado serve muito mais à moral da campanha, uma ferramenta de propaganda. Nesta eleição, muito equilibrada, os estados é que vão pesar. Dilma vem forte na Bahia e em Minas, Aécio em São Paulo. Um estado como o Rio de Janeiro, em que dois aliados ao Governo se enfrentam, pode ser o ‘fiel da balança’, conforme transcorrer por lá a campanha de Dilma.”
Deputados, prefeitos e vereadores seriam, segundo ambos os especialistas, uma ferramenta de penetração da candidatura nos municípios. Paulo argumenta que tal estratégia serve muito mais como campanha do que como mecanismo de transferência. “Em todos esses casos, há o palanque, há o reforço na campanha de TV.” Diogo completa dizendo que “embora a transferência nunca aconteça naturalmente, demandando outras variáveis, os palanques fazem a diferença no segundo turno.”
Margarida possui votação mais concentrada em JF, já Pestana, a menor
Por Renato Salles
Os três deputados federais reeleitos tiveram desempenhos distintos nas urnas. Dona da maior votação na cidade, Margarida é quem possui votação mais concentrada. Dos 78.973 eleitores da petista, 67,72% estão concentrados em Juiz de Fora. Dos cinco municípios onde a ex-reitora apresentou melhor desempenho eleitoral, outros dois são da Zona da Mata: Lima Duarte e Cataguases.
Se Margarida, que foi candidata à Prefeitura em duas oportunidades, ainda possui uma votação bastante concentrada no município, Marcus Pestana (PSDB) obteve uma resposta oposta das urnas, com votação diluída em várias cidades. Ex-secretário de Estado de Saúde, o tucano conquistou eleitores em 725 dos 853 municípios mineiros, o que corresponde a quase 85% das localidades de Minas Gerais.
Do trio reeleito, Pestana foi quem obteve a menor votação em Juiz de Fora. Seus 15.982 eleitores juiz-foranos respondem por apenas 12,13% de votação final. Já Júlio Delgado (PSB) teve uma votação mais equilibrada. Quase metade de seus 86.245 votos foram em Juiz de Fora. O deputado federal reeleito recebeu ainda a confiança de eleitores em outras 482 cidades do estado.

