Sem recursos financeiros e técnicos para realizar medidas preventivas, prefeitos da Zona da Mata de Minas, ano após ano, contam os dias para janeiro passar bem rápido e com ele a temporada de chuvas. Os primeiros dias deste ano, no entanto, parecem intermináveis para cerca de 40 cidades da região. O aumento do volume de águas dos rios deixou um rastro de distribuição e mortes. Enquanto iniciam um caro e penoso processo de reconstrução sem nenhuma capacidade de investimento, cidades como Guidoval, Dona Euzébia e Além Paraíba, se veem também na necessidade de estruturar uma forma de evitar tragédias futuras. Mesmo em Juiz de Fora, as ações de infraestrutura preventiva dependem, quase em sua totalidade, de recursos dos governos estadual e federal. Para o professor de engenharia da UFJF, Fabiano César Tosetti Leal, especialista em saneamento, meio ambiente e recursos hídricos, as formas de amenizar os impactos de fenômenos da natureza passam pelas políticas de uso e ocupação do solo urbano, que comportam custos consideráveis.
Por custos consideráveis entenda-se técnicos qualificados para planejamento e fiscalização, além de intervenções. A Prefeitura de Guidoval, por exemplo, que necessita de aporte de R$ 30 milhões para ser reconstruída, possui apenas um engenheiro contratado como prestador de serviço. "O governador me prometeu construir a ponte que caiu. Isso ajuda. Agora, prevenção é coisa do Japão. Estamos no Brasil. O dinheiro que tenho é para educação e saúde. A realidade é outra", desabafa o prefeito, Élio Lopes (PMDB). Para piorar, sua principal fonte de recursos, o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), teve uma redução de R$ 100 mil no primeiro repasse de janeiro. "Se o ministro (da Integração, Fernando Bezerra), mandasse mais dinheiro também poderia ajudar." Em Além Paraíba, a situação não é diferente. De acordo com o prefeito Wolney Freitas (PMDB), sem ajuda da União e do Governo de Minas não há quase nada a ser feito. Ele afirma, no entanto, ter feito obras preventivas, "mas a força das águas foi maior".
A situação dos municípios de pequeno porte, segundo o professor Fabiano Leal, é complicada, e não há solução que não passe pelo apoio dos governos estadual e federal. Já cidades maiores, como Juiz de Fora, têm condições de atuar de forma mais efetiva. Ainda assim, ele chama atenção para o fato de uma solução técnica estudada hoje pode não ter eficácia no futuro. "Estamos tratando de fenômenos da natureza caracterizados pela imprevisibilidade." De qualquer forma, para o professor, Juiz de Fora, até pelo modelo de ocupação, feito a partir das margens do Rio Paraibuna, requer atenção especial quanto à ocupação do solo. "O relevo contribui para geração de problemas." Quanto a isso, o secretário municipal de Obras , Jefferson Rodrigues, antecipa o propósito de realizar um levantamento de áreas de risco e impor uma fiscalização melhor. "Tem que haver uma fiscalização maior em áreas de riscos e nos imóveis construídos de forma irregular."
Em outra frente, a Prefeitura prepara uma licitação, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para recuperação de áreas conhecidas como problemáticas, como o Leito da Leopoldina, no Bairro Ladeira, na Rua Rosa Sfeir, no Bairro Grajaú, e Bairro Santa Tereza, na Região Sudeste. Com dinheiro do Governo de Minas foram feitos, segundo o secretário, drenagem de córregos e rios e contenção de encostas. Já as intervenções em assentamentos precários estão sendo realizadas por meio de aportes do BNDES. Com recursos próprios, a Prefeitura mantém equipe técnica e atua em demandas pontuais. Já a Defesa Civil comporta estoque de materiais como lonas plásticas, escoras, telhas de amianto, colchões e roupas de cama, que poderão ser doados.
