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Ativismo on-line ganha força

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 Somente neste ano, Juiz de Fora já foi palco de, pelo menos, cinco mobilizações que saíram das telas dos computadores e tomaram as ruas. A maioria foi organizada por estudantes e teve como ponto comum o uso do Facebook para convocar cidadãos a participarem de protestos políticos nacionais.  É o que os estudiosos chamam de ativismo on-line. Apesar da grande adesão na internet, nas ruas, o que se vê ainda é um número reduzido de pessoas que se dispõem a sair de casa. Para os especialistas, essa nova forma de agir politicamente tem vantagens e desvantagens, pois, ao mesmo tempo em que consegue disseminar informações de forma rápida, alcançando muitas pessoas, também corre o risco de ser um ato efêmero e sem profundidade.

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A mais recente das manifestações foi o "Dia do basta à corrupção", realizada no último dia 20 e com reverberação em todo o país.  Em Juiz de Fora, o protesto ocorreu nas escadarias da Câmara Municipal. "Somos todos apartidários, e a nossa meta é lutar contra a impunidade. Com a adesão das redes sociais, estamos conseguindo aumentar a mobilização. Se não mudarmos algo, pelo menos levantamos a questão para que ela seja pensada", defendeu a estudante Ursula Cesca, responsável pela passeata em Juiz de Fora. Entre as reivindicações, estava o fim do foro privilegiado e o repúdio à PEC 37 – proposta de emenda constitucional que retira do Ministério Público o poder de investigações criminais no Brasil. 

Em março, três protestos repudiaram a eleição do deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. A estudante secundarista Letícia Castelli utilizou as redes sociais para convocar a população. "Criei um evento no Facebook e chamei mais de cinco mil pessoas, 800 confirmaram presença, mas apenas cem compareceram. Mesmo assim, acredito que foi bastante válido, pois conseguimos chamar atenção dos políticos da cidade", afirma, ao lembrar que o vereador Noraldino Júnior, do mesmo partido de Feliciano, acabou sendo questionado pelo grupo na porta da Câmara. "A decisão que trata ou não da retirada do pastor cabe ao partido, mas reforço que eu e o PSC somos contra qualquer tipo de discriminação", afirmou Noraldino na ocasião. 

Antes, o alvo dos manifestantes foi o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ao ser eleito presidente do Senado. O evento foi organizado e divulgado pelo Facebook, seguindo mobilização nacional. Em fevereiro, a petição on-line "Fora Renan" foi assinada por cerca de 1,5 milhão de pessoas e entregue em Brasília. Na cidade, a responsável pelo ato foi a estudante Ana Clara Candiá Gama. Ela diz já ter participado de movimentos políticos, mas sempre atuando como integrante. Desta vez, entretanto, Ana Clara  "puxou a fila" do protesto. Para isso, a estudante contou com orientações de outros ativistas. Tudo por meio da internet. "Faço parte de um grupo de discussão política, e eles me deram dicas sobre como utilizar os recursos da web e as redes sociais para maximizar o alcance do ato. O objetivo é sempre conscientizar a população sobre o que está acontecendo", destacou. No ato, apesar de 850 terem confirmado presença, apenas 30 compareceram.

 

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Mobilização é feita por e-mails

 

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A mobilização política através da rede não é feita exclusivamente por jovens ou militantes. A aposentada Safira Elza Moura Caldas, 65 anos, apesar de não possuir vínculo partidário, sempre participou de atos públicos. Na semana passada, ela criou uma petição on-line no site Avaaz para tentar derrubar o auxílio-moradia recebido por juízes e desembargadores, que, na opinião dela, já recebem um salário alto o suficiente para necessitar de outros tipos de benefícios. "A internet foi o caminho natural. Por ser através de e-mail, as questões ganham rapidez e alcance maiores." Na última sexta-feira, o documento tinha 168 assinaturas. Avaaz é uma comunidade que, desde 2007, atua na mobilização da sociedade civil para a política global. O grupo possui cerca de 3,6 milhões de membros no Brasil e seguidores em centenas de países, que levaram adiante milhares de ações, algumas de grande repercussão, como o ato solicitando a remarcação das terras dos índios da tribo Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. 

Segundo o diretor de campanhas da Avaaz, Pedro Abramovay, o crescimento das manifestações políticas é fruto de uma reorganização no cenário brasileiro e mundial. Para ele, vivemos um momento de transição na democracia. A antiga participação política, que se manifesta apenas em época de eleições, estaria perdendo força, e, cada vez mais, as pessoas estariam buscando se posicionar com relação às questões que afligem a população. Dentro desse quadro, Abramovay acredita que a internet, pela sua interatividade, transformou todas as relações que necessitam de mediação. "Gravadoras e livrarias transformaram seu modus operandi com a internet. Bem ou mal, a política também é um espaço de intermediação e, sem dúvidas, está sendo atingida pela web", afirmou. 

 

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De longo alcance X superficial

 

Para a cientista política e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Alessandra Aldé, a internet é mais do que uma mídia alternativa para a divulgação de ideias. Pelas suas características, ela facilita a organização de grupos, alcançando indivíduos que não dispunham de formas para acompanhar os fatos políticos por diversas razões, tais como distância física, falta de recursos financeiros e de tempo. No entanto, segundo a professora, ela não é capaz, por si só, de sensibilizar o cidadão. "No início, havia o pensamento de que a internet iria politizar as pessoas. Com o avanço dos estudos, foram apresentados vários tipos de internautas, com diferentes graus de interesse político. O que notamos hoje é que a internet ajuda a alcançar algumas pessoas que já tinham interesse político, mas não cria essa necessidade." 

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Conforme a especialista, todas as atitudes que ajudam a circular a informação política, como curtir ou compartilhar algum texto no Facebook, são manifestações políticas que não podem ser desprezadas. "Com as facilidades da web, os indivíduos conseguem se manifestar durante o trabalho ou em casa. Mesmo que possa ser superficial, toda participação política é importante", afirma Aldé.  O cientista político da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Diogo Tourino reconhece a importância do ativismo pela internet, principalmente na divulgação de informações, mas alerta para fluidez deste tipo de ação.  "O Renan Calheiros começou o ano como inimigo número um do país. Hoje, o cargo é do Feliciano. Muitos criticam o pastor sem saber, por exemplo, a engenharia política que o colocou na comissão. Falta substância para alguns críticos."  

O coordenador do Departamento de Democracia Digital da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em sociologia política pela Universidade de Coimbra, Marcus Abílio Pereira, destaca a desestabilização do espaço midiático feita pela internet. Isto é, ao contrário dos veículos de comunicação "tradicionais", como rádio e TV, na web, a informação é pluralizada e dá voz a grupos que normalmente não a possuem. "Muitos indivíduos ou grupos sociais buscam a web para dar a sua versão dos fatos e através de manifestações tornar públicas suas posições." Também pesquisador do tema, Gabriel Guerra, mestre em ciência política pela UFMG, ressalta que as ações "on-line" e "off-line" são complementares e não concorrentes. "Muitas vezes, os ativistas marcam o encontro pela internet e vão para as ruas. São ações híbridas, diferentes e que podem ser complementares."

 

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