A obra nasceu de uma investigação sobre cidades mineiras que conseguiram permanecer longos períodos sem registrar homicídios. Inicialmente, Nilmário identificou 33 municípios que haviam passado uma década sem esse tipo de crime. Ao retomar a pesquisa, voltou a algumas dessas localidades e conversou com prefeitos, vereadores, educadores, profissionais de saúde e assistência social, policiais, conselheiros tutelares e moradores.
O objetivo era entender o que havia por trás de um dado que, para ele, é mais do que uma estatística. “Qual é a chave de tudo? É a educação”, argumenta.
Educação como prevenção
Para Nilmário, a escola ocupa uma posição central nessa estratégia. Mais do que garantir o acesso às salas de aula, a política educacional precisa criar condições para que crianças e adolescentes permaneçam estudando e tenham perspectivas para o futuro.
Entre as experiências observadas pelo jornalista, conforme relatado por ele à Tribuna de Minas, estão municípios com escolas em tempo integral, creches e atividades culturais e esportivas no contraturno. A preocupação se torna ainda maior na adolescência, principalmente por volta dos 15 e 16 anos, quando a falta de oportunidades educacionais pode contribuir para a entrada precoce no mercado de trabalho.
Segundo ele, algumas das cidades pesquisadas procuram alternativas em municípios próximos que oferecem cursos técnicos ou superiores, ampliando as possibilidades para os jovens continuarem estudando.
“Educação é a chave de tudo. Ela é que muda. Ela cria as bases para uma ética da não-violência, da solução pacífica dos conflitos, da cultura da paz”, explica o autor.
O papel da escola, na avaliação de Nilmário, também ultrapassa a formação acadêmica. Ele destaca a importância de professores que acompanham diferentes gerações e conhecem a realidade das famílias e dos estudantes. Nesse cenário, a escola pode funcionar como um dos espaços de identificação de situações de vulnerabilidade.
A prevenção, portanto, não estaria concentrada em uma única instituição. Para o ex-ministro, é justamente a articulação entre diferentes áreas que permite construir uma rede capaz de agir antes que a violência se agrave.
Uma rede que começa antes do crime
A experiência dos municípios analisados também chamou a atenção de Nilmário para a participação social. Conselhos municipais ligados à educação, saúde, assistência social, direitos das crianças e adolescentes e direitos das mulheres aparecem, segundo ele, como instrumentos de integração entre Poder Público e comunidade.
A proposta se distancia de uma concepção de segurança baseada exclusivamente na repressão. Isso não significa, segundo Nilmário, retirar das forças de segurança o papel de combater o crime, especialmente em cidades maiores, onde a atuação de organizações criminosas torna o cenário mais complexo.
Em Juiz de Fora e em outros municípios de maior porte, ele defende uma combinação entre políticas preventivas e atuação integrada dos órgãos responsáveis pela segurança e pela proteção social: Polícias, Guarda Municipal, Ministério Público, conselhos tutelares e demais instituições precisam trabalhar de maneira coordenada.
A pesquisa encontrou ainda situações que, para o autor, simbolizam a mudança de prioridade dessas comunidades. Em algumas cidades, antigas cadeias teriam deixado de ser necessárias e foram transformadas em outros espaços, como brinquedotecas, creches e bibliotecas.
A transformação dos equipamentos representa, na visão de Nilmário, uma inversão na lógica de atuação do poder público: Em vez de concentrar recursos apenas na resposta ao crime, investir nas condições que podem impedir que ele aconteça.
Feminicídio começa antes da morte
A discussão sobre prevenção ganha uma dimensão ainda mais urgente quando o foco passa para a violência contra as mulheres. O livro dedica atenção especial ao feminicídio e parte da constatação de que municípios que permanecem longos períodos sem homicídios também podem apresentar ausência ou baixa ocorrência de mortes violentas de mulheres.
Para o escritor, a prevenção precisa começar antes da agressão chegar ao extremo. A ideia é que sinais de violência e situações de vulnerabilidade sejam identificados pelas redes de proteção antes que a mulher esteja exposta a um risco maior. Nesse sentido, a articulação entre serviços públicos e a preparação dos profissionais que atuam diretamente com a população são apontadas como fundamentais.
O mesmo princípio é aplicado à proteção de crianças e adolescentes. Nilmário defende o fortalecimento das redes de enfrentamento ao abuso sexual e de outras formas de violência. Para ele, experiências de municípios que conseguiram reduzir esses problemas podem servir de referência para outras localidades. “Criança não é mãe”, ressalta, ao defender ações de prevenção à violência sexual e à gravidez na infância.
A tese central da investigação é que a violência não surge de forma isolada. Antes de uma morte ou de um crime grave, podem existir situações de abandono escolar, vulnerabilidade social, violência doméstica, falta de oportunidades, conflitos e ausência de redes de proteção. É nesse intervalo que, segundo o autor, as políticas públicas precisam atuar.
Experiências locais podem inspirar outras cidades
À Tribuna, o autor reforça que a proposta do livro não é afirmar que as experiências de cidades pequenas podem simplesmente ser reproduzidas em qualquer lugar. O próprio Nilmário reconhece que municípios maiores enfrentam desafios diferentes, principalmente pela presença de organizações criminosas e pela maior complexidade urbana.
Ainda assim, ele acredita que alguns princípios podem ser aplicados em diferentes realidades: Manter os jovens na escola, ampliar oportunidades educacionais, integrar os serviços públicos, fortalecer os mecanismos de proteção e desenvolver ações preventivas.
“O que vem antes da violência?” passa, assim, a ser uma pergunta não apenas sobre segurança pública, mas sobre o tipo de cidade que se pretende construir. Para Nilmário, a prevenção começa muito antes da chegada da polícia e envolve decisões tomadas diariamente em escolas, unidades de saúde, serviços de assistência social, espaços culturais e dentro das próprias comunidades.
O lançamento do livro em Juiz de Fora ocorre nesta sexta-feira (4), às 18h30, na Rua Olegário Maciel, 1.159, no bairro Paineiras.
*Estagiária sob a orientação do editor Arthur Raposo Gomes.
