
Mil quatrocentos e dez acidentes envolvendo motocicletas foram registrados de janeiro a agosto deste ano em Juiz de Fora, o que representa uma média de quase seis ocorrências diárias. O número de casos dobrou em relação ao ano passado, quando a média era de três por dia, considerando que, no primeiro semestre de 2010, houve 532 registros. Além da imprudência dos condutores, a explosão da frota é apontada como uma das causas desta tendência. A quantidade de motocicletas no município saltou de 7.800, em 2001, para quase 25 mil atualmente, ou seja, triplicou em uma década.
Um dado que chama a atenção e preocupa é que o total de atropelamentos por motocicletas em Juiz de Fora já é praticamente equivalente ao mesmo tipo de acidente envolvendo carros, embora a frota de automóveis seja cinco vezes maior, conforme o comandante do Pelotão de Policiamento de Trânsito (PPTran), tenente Jean Michel Amaral. Um dos últimos registros aconteceu ontem à tarde, quando uma mulher foi atropelada por um motoentregador na Avenida Independência e levada inconsciente para o Hospital de Pronto Socorro (HPS).
A adoção da moto na rotina da cidade está relacionada a fatores como serviço de transporte público deficitário, retenções crescentes no tráfego e aumento do poder de compra da população. O veículo motorizado de duas rodas é visto como alternativa para fugir dos engarrafamentos e chegar mais rápido ao destino. Segundo dados do Departamento de Trânsito (Detran-MG), levantados pelo Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv), de janeiro a julho deste ano, foram emplacadas, na cidade, 2.260 motos. Durante todo o ano de 2010, o número ficou em 3.576.
Trafegando pela cidade, é impossível não notar a presença maciça das motos. No Centro, é difícil, até mesmo, achar vaga para estacioná-las. Especialistas reconhecem a importância deste meio de transporte para a mobilidade. O resultado social, entretanto, é considerado negativo. Segundo o comandante do PPtran, "a preocupação é a elevação dos registros ou ocorrências índice de acidentes. O número de inabilitados de motos é muito maior do que o de carros. O total de atropelamentos, por sua vez, já é quase igual ao de atropelamentos por carros. Isso mostra que a motocicleta é a grande vilã dos pedestres."
Abusos
Nas ruas, as cenas de abusos são rotineiras. Motoentregadores falando ao celular ao mesmo tempo em que pilotam, carregando capacetes e sacolas nos braços, avançando semáforos, fazendo manobras arriscadas ou ultrapassagens perigosas, excedendo a velocidade, ou com capacetes soltos e com viseiras abertas. Outra cena comum é o motociclista não aguardar a abertura do sinal para arrancar nos cruzamentos. Segundo a Settra, as infrações mais cometidas por eles são o avanço de semáforo, seguido do excesso de velocidade flagrado pelos radares (ver quadro). "Essas infrações são as grandes provocadoras de acidentes", destacou o chefe da Fiscalização da Settra, Jorge Lima.
Conforme o comandante do PPTran, "os militares estão orientados a multar qualquer motociclista que agir assim. Muitos começam a acelerar e arrancam antes de o sinal ficar verde, coagindo, ‘tocando’ os pedestres das faixas". Ele lembra que, além de atropelador, o motoqueiro também será vitimado. "O motociclista não deve se esquecer que não só a vítima de atropelamento tem o risco sequelas graves, como ele próprio, que dirige praticamente sem nenhuma proteção." Jean lembrou, ainda, que as motos se escondem com mais facilidade no fluxo, aumentando a chance de abalroamentos, e têm menos aderência, o que potencializa o risco de quedas.
Consciência exige fiscalização rigorosa
Conscientizar os condutores é um desafio para o presidente da Comissão Municipal de Segurança e Educação (Comset), José Luiz Britto Bastos. Segundo ele, a alternativa passa pelo rigor da fiscalização. "O número de motos cresceu, mas o comportamento não mudou. Não tem outra coisa a ser feita, senão a educação. Mudar o comportamento dos que estão nas ruas é difícil, o ideal é começar as campanhas nas escolas para mudar o futuro." Integrante da Associação dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo), Moacyr Alberto Paes, faz coro: "O problema não é do veículo em si, mas da educação dos condutores."
Há sugestões também para mudança do trânsito, separando o fluxo de motos do de caminhões e ônibus. Já o chefe da Fiscalização da Settra, Jorge Lima, aposta nas blitze educativas e na fiscalização, que segundo ele, será reforçada nas próximas semanas. Lima reconhece, porém, que ainda há impunidade por conta da dificuldade de se notificar os motociclistas. "As placas são pequenas, e os veículos muito ágeis, com isso os agentes têm dificuldade para confirmar o número. Mas uma portaria do Denatran está para alterar o tamanho das placas."
Lesões graves e mortes
As últimas ocorrências confirmam que os acidentes de motos, mesmo os mais simples, acabam com lesões graves ou mortes. No dia 25 de julho, um motociclista de 19 anos amputou uma das pernas após um acidente, na BR-267, no Bairro Floresta, na região Sudeste do município. Ele saiu da pista e chocou-se contra uma mureta de proteção. No último dia 29, outras duas pessoas ficaram feridas após o motociclista derrapar em uma curva e bater contra um poste. Os acidentes envolvendo motoentregadores também são frequentes. Em Juiz de Fora, segundo dados da Secretaria de Saúde, divulgados em 2009, a maioria das vítimas de acidentes com moto que dá entrada no Hospital de Pronto Socorro (HPS) tem entre 18 e 30 anos e é do sexo masculino.
A violência no trânsito foi o que motivou motociclistas a realizarem uma campanha de conscientização em maio passado. A categoria fez uma motociata com o objetivo de chamar a atenção da população para a importância de respeitar as regras de trânsito. Na oportunidade foram distribuídas cartilhas informativas.

