
“Bom Pastor, uhul!” Se você tem o hábito de participar ou acompanhar as corridas de rua da cidade, sabe de quem estamos falando. Faça sol, faça chuva, o alto astral está enraizado no grupo de corrida de pessoas com deficiência do Clube Bom Pastor. Formada há cerca de dois anos, gradativamente, sob orientação da professora Patrícia Lisboa, 41 anos, a equipe vem ganhando espaço entre os paratletas de diferentes perfis, que defendem que o maior prêmio da prática esportiva é a construção de amizades aliada aos benefícios para a saúde. O grupo ainda conta com outros integrantes de várias idades, que se reúnem para treinamentos três vezes por semana e participam de etapas do Ranking da cidade. Somente nessa temporada, foram quatro títulos na categoria de pessoas com deficiência (PCD).
Sensibilizada ao relatar a convivência com os alunos, Patrícia destaca o aprendizado diário em 2016 em meio às inúmeras histórias de superação vividas. “Temos os deficientes, que falo que são eficientes, e as outras pessoas, com muita interação entre todos. Alguns já estão se desafiando e indo para montanhas. Só de falar fico arrepiada, porque para mim é uma satisfação tão grande ter a honra do contato com eles que sempre me emociona. E, depois de uma lesão que tive na perna, entendo que não era nada. Vejo a Letícia (Araújo, cadeirante) levantando na cadeira quando passo um exercício, a Hionara (Botti, deficiente visual) na Meia Maratona dizendo que ia sozinha, sem guia, e disse para ir porque confiava, e tudo me deixa arrepiada. É muito gratificante.”
Entre os exemplos também está Jadir José da Silva, 55, campeão entre os deficientes auditivos. Pedreiro, o corredor perdeu a capacidade de ouvir aos 11 anos por conta de meningite. No esporte, viu uma saída para autoestima e bem estar. Mesmo com problemas pessoais no ano, sua presença no grupo fez a diferença em mais um momento de superação. “Fui convidado para ir numa corrida, gostei e continuei porque logo na primeira vez já fiz amizades com os participantes e notei que me sentia melhor. Passava a ter mais atenção nas coisas e, principalmente, no desempenho no trabalho. E a treinadora não para de nos incentivar. Tive problemas durante quase o ano todo, e ela sempre estava pronta para me animar em cada corrida”, contou Jadir.
Liberdade para voar
A professora Hionara Botti, 46, liderou a classificação entre os deficientes visuais no calendário de provas juiz-foranas dessa temporada. O resultado reforça a força de vontade da atleta, que luta para correr sem um guia mesmo com menos de 10% da visão. “Sempre quis correr para ter liberdade, mas o guia começou a me prender, fui fazer uma maratona e, na última hora, ele desistiu. Foi um baque. Nesse ano quis voltar a correr sozinha”, relatou, valorizando em seguida as amizades feitas em momento complicado de sua vida.
“Tive uma treinadora que fazia minha planilha separada e me prendi a um guia porque, por lei, não poderia fazer a maratona sem. Mas o Bom Pastor me fez sentir forte o suficiente para voltar a ter coragem de treinar sozinha. É engraçado que é uma equipe, um grupo que te agrega, mas dá condições de ir solo. A corrida é muito individual, mas ao mesmo tempo coletiva, porque ninguém faz um percurso longo sozinho. E aqui eles têm muita amizade. Ano passado tive uma depressão seríssima e todos me ligavam para ir à pracinha ver o treino. Podia ser a última a chegar que gritavam parecendo que era algo de outro mundo. Isso nos prende muito aqui e também dá o espaço para cada um seguir seu voo.”
Parte da vida
Se a pauta envolve a superação, exemplo de vida e motivação para o ano novo, a estudante de técnica de nutrição, Letícia Araújo, 21, não pode deixar de ser mencionada. A jovem venceu o Ranking entre os deficientes físicos cadeirantes ao lado dos guias Ronan e Mirian Brandão, e se emocionou ao contar, em poucas palavras, a melhoria em sua capacidade motora após o início da prática esportiva, agora indispensável em sua rotina. “Participar do grupo foi muito bom para que eu consiga me exercitar, pois em casa fico mais parada. Eles me ajudam muito e, quando eu vou, sempre me passam exercícios”, conta.
Já o auxiliar administrativo, Wendell Rocha, 43, deixou de lado sua deficiência em membro inferior para se entregar aos benefícios da modalidade. “A corrida me ajudou muito na saúde. Antes, comia muitas coisas ‘erradas’, bebia, e acabei mudando tudo. Agora o dia é outro, ganho muita disposição. Se não correr, está faltando alguma coisa.”
