
Grupo de Juiz de Fora faz excursão para participar da tradicional corrida de rua em SP (Leonardo Costa)
Ela não é a mais extensa e nem a mais desafiadora, mas certamente a São Silvestre é a mais charmosa e tradicional prova do calendário nacional de corridas. E hoje, às 9h, quando for dada a largada para a 91ª edição do evento, um animado grupo com mais de cem juiz-foranos partirá do coração de São Paulo para os 15km mais aguardados do ano.
Para completar a última missão de 2015, dois ônibus foram reservados para conduzir os atletas juiz-foranos à capital paulista com dois dias de antecedência. Um planejamento que já se tornou rotina para o grupo de amigos, mas que nunca teve tanta adesão quanto atualmente, segundo Rubens Gabriel, que organiza a excursão pela 12ª vez.
“No início a gente ia apenas com um micro-ônibus, mas esse ano aumentou bastante. Criamos um grupo no Whatsapp e muitas pessoas aderiram. Juiz de Fora está com muitos corredores. São aproximadamente dois mil. Nessa edição serão dois ônibus. O que eu percebo é que, no final do ano, os corredores querem participar da melhor prova que tem no Brasil.”
A empolgação que toma os participantes da prova é a mesma que motivou Rubens Gabriel a organizar a excursão. Apaixonado pela São Silvestre, o atleta participa do evento pela 13ª vez, um prazer que só é possível colocando a mão na massa para promover a viagem em grupo. “Me apaixonei pela São Silvestre na primeira vez que corri. Mas não tinha dinheiro para ir em todas as edições. Então resolvi organizar a excursão para conseguir custear meu transporte e hospedagem. A São Silvestre é uma festa. Estar lá no meio é empolgante demais. É fechar o ano com chave de ouro. É sensacional”, diz Rubens Gabriel.
Entre os mais de 30 mil participantes inscritos na edição 2015, há atletas de todos os tipos, dos focados aos empolgados, dos discretos aos fantasiados, dos velocistas aos fundistas. Em meio a essa diversidade está o juiz-forano Gedair Reis. Mesmo que a distância de 15 km não seja um grande desafio para alguém que já completou dez vezes os 42km da maratona, o atleta de 60 anos não se sente desmotivado participando da São Silvestre pela nona vez.
“É uma confraternização, não é uma corrida. Não dá para colocar velocidade entre 30 mil inscritos. Nas minhas primeiras edições fui com esse objetivo de superar marcas. A primeira nem se fala. Você vai querendo ser um sucesso total. É uma festa realmente. A população de São Paulo abraça a São Silvestre. Ao longo de todo o percurso o povo assiste e apoia. Parece que São Paulo respira a São Silvestre”, afirma Gedair.
Solidariedade
Além da celebração, a São Silvestre traz outro significado especial para Gedair. Para quem começou a correr no ano 2000 para superar o sedentarismo, deixar de lado a busca pessoal pelo melhor tempo possível para se dedicar a guiar paratletas está mais para prazer do que para sacrifício.
Segundo o atleta, que conta com o apoio do Sintufejuf e da UFJF, “todos os guias fazem isso de coração. Abrimos mão da nossa performance pelos nossos colegas. O que eu dou é pouco perto do que isso reflete no meu dia a dia. Quando vi um guia conduzindo dois deficientes visuais percebi que precisava ajudar esses meninos. Não preciso provar nada para ninguém sobre ser veloz ou não. O que preciso é continuar trabalhando no atletismo para a qualidade de vida.”
Pela terceira vez consecutiva na São Silvestre, Gedair, que é integrante da equipe JF Paralímpico, será os olhos de Marcos Aurélio Henriques, do Bom Pastor Paralímpico, na pista. Apesar de passarem o ano competindo em equipes diferentes, os dois se unem para a conquista de objetivos comuns. “Apesar de sermos adversários nas corridas aqui na cidade, somos amigos. O Gedair é uma pessoa que me ajuda muito. Ele tem um convívio muito carinhoso com os deficientes. Os guias são os nossos olhos. Eles olham por nós, mostram obstáculos e orientam sobre todas as coisas. Às vezes, ajudam com incentivo. Quando estamos fraquejando, falam coisas que nos ajudam a não parar”, afirma Marcos Aurélio.
Com a sintonia da dupla baseada na confiança, os amigos se permitem uma ousadia. Em alguns momentos ao longo dos 15 km da São Silvestre, inclusive na linha de chegada, Gedair soltará a guia e correrá de costas, à frente de Marcos Aurélio, que se orientará por uma salva de palmas executada pelo amigo. Alguns metros de ousadia que trazem uma intensa sensação de liberdade.
“Com as palmas, ele vai sinalizando onde devo ir. Consigo correr mais livre e ele também fica à vontade por saber que tenho confiança nele. É muito diferente. Cruzar a linha de chegada com o guia é uma coisa, mas chegar livre te dá a impressão que você está correndo sozinho realmente. É muito emocionante”, encerra Marcos Aurélio Henriques.
A prova

