No dia 31 de maio, aniversário de Juiz de Fora, a Tribuna de Minas publica o especial “Por JF” sobre a tragédia e a reconstrução da cidade após as chuvas. Nesse contexto, a reportagem traz a necessidade da história de Tomatinho ser sempre relembrada, mantendo vivas as lembranças e as histórias deixadas, e também a força e a capacidade de recomeço de quem enfrentou aqueles dias. Com a entrevista feita com os pais e treinadores do garoto, a Tribuna reforça que não podemos esquecer da história de cada uma das pessoas que faleceram em fevereiro de 2026.
Bernardo e o futebol
O esporte apareceu cedo na vida de Bernardo, que morava no Parque Burnier. Segundo o pai, Ricardo Dutra, a primeira oportunidade surgiu a partir de uma reportagem da Tribuna sobre uma seletiva do Sport Club.
“Ele sempre gostou de futebol. Desde novinho já tinha intimidade com a bola, gostava de chutar tudo. Ele tinha de oito para nove anos e resolvemos tentar. Foi a primeira experiência dele em uma escolinha. Ele passou e, logo no começo, já começou a disputar campeonatos e conquistar títulos”, narra.
A trajetória seguiu também no Centro de Futebol Zico, onde o menino passou a viajar para competições e a ampliar a convivência com outros atletas.
“Ele queria evoluir sempre. Gostava muito de futsal e chegou até a fazer uma seletiva no Bom Pastor para jogar em uma categoria acima da idade dele. Estava tudo muito bem encaminhado”, relembra o pai.
Para a mãe, Aparecida Lopes, o futebol foi vivido em família. Ela lembra que os pais acompanhavam Bernardo de perto e buscavam alternativas para que ele participasse das competições.
“Eu costumo dizer que, mesmo com toda a dor da perda, nós temos a sensação de dever cumprido como pais, porque estávamos presentes em todos os momentos da vida dele. Quando faltava dinheiro para ele participar de campeonatos, a gente fazia rifa, almoço, corria atrás. E ele aproveitou tudo intensamente. Foi uma criança feliz de verdade”, frisa.
Apesar da dedicação ao futebol, Bernardo também tinha uma relação forte com as brincadeiras de rua.
“Além do futebol, ele amava soltar pipa. Era impressionante. Hoje em dia a tecnologia tira muito isso das crianças, mas ele preferia brincar na rua, jogar bola, soltar papagaio. Não trocava isso pelo telefone”, conta a mãe.
O apelido de “Tomatinho”, que se tornou marca entre colegas, treinadores e familiares nasceu dentro do ambiente esportivo.
“Surgiu por causa das bochechas vermelhas dele depois dos jogos. Um pai de outro atleta começou a chamar ele de Tomatinho para motivar nos treinos. Como ele jogava forte e chutava muito forte também, o apelido pegou”, revela.
Sport e Zico
Técnico de Bernardo no Sport, o técnico Luis Couto diz que a personalidade e a boa relação com a bola de Tomatinho, chamavam a atenção. Por lá, o garoto passou pelo sub-9 e sub-11 e foi campeão invicto da Copa Alta Malícia e ficou na terceira colocação no Campeonato Mineiro de futsal, além de participar de diversos outros torneios.
“Ele sempre foi extremamente extrovertido, alegre, ativo nos treinos e jogos, e muito querido por todo o grupo desde a primeira sessão de treino. E muito comunicativo, mas ao mesmo tempo muito dedicado e concentrado no que era passado pra ele, muito educado e obediente com todos os funcionários do clube e membros da comissão técnica. Tinha boa finalização, jogava bem em espaços curtos, era criativo e tinha muita personalidade pra tomar decisões dentro dos treinos e jogos”, introduz.
Fora das quatro linhas, Luis lembra que o garoto gostava de conversar sobre tudo.
“Um menino muito brincalhão e, ao mesmo tempo, respeitoso. Gostava de conversar sobre tudo, falava sobre a rotina dele em casa e na escola com a gente da comissão técnica sempre que era possível. Sempre foi muito aberto e sincero com a gente, não escondia o que estava sentindo“, observa.
Já no Centro de Futebol Zico (CFZ), Bernardo passou pela categoria sub-11, disputou a Liga de Juiz de Fora e estava no topo da artilharia, com uma final ainda a disputar. Também foi campeão invicto da Taça JF, marcando o gol do título na final, e conquistou de forma invicta a Copa Bahamas de futsal, fazendo quatro gols na decisão. Ainda disputou a Comary Cup, sendo campeão da Final Prata, além de amistosos e torneios internos.
Para o treinador do CFZ, Alison Herculano, a passagem de Bernardo é lembrada pela construção de valores dentro do futebol.
“Construímos uma relação de confiança e desempenho. Mostramos que ele poderia viver a melhor essência do futebol, que é se divertir com responsabilidade e competir sem perder a índole, sempre sendo uma boa pessoa”, avalia.
Segundo o técnico, Bernardo chegou como ponta e se transformou em centroavante. “Aqui no CFZ, ajudamos a posicioná-lo melhor, sem tirar sua liberdade de construir movimentos intuitivos dentro de campo”, explica. Alisson define o garoto como “brincalhão, mas sempre respeitoso e atencioso”, além de pró-ativo, um dos primeiros a chegar ao CT e um dos últimos a ir embora. Para ele, “humildade e alegria” definiam Bernardo.
O diretor do Sport Club, Diego Almeida, também guarda a imagem de uma criança capaz de transformar o ambiente ao redor.
“O Bernardo sempre foi uma pessoa muito especial. Um menino extremamente carismático, mas acredito que o grande diferencial dele era justamente a alegria que carregava. Ele tinha essa capacidade de transformar qualquer ambiente, sempre com brincadeiras, risadas e aquele jeito leve que envolvia todo mundo ao redor. Em um mundo tão conectado, encontrar uma criança disposta a brincar, sorrir e realmente interagir com as pessoas acaba se tornando algo raro. E o Bernardo tinha muito isso. Ele fazia questão de criar um ambiente bom, alegre e divertido para todos”, reflete.
O diretor afirma que a espontaneidade de Bernardo faz falta no convívio diário. “Era muito marcante. Particularmente comigo, toda vez que me via, ele fazia alguma brincadeira. Sempre com muito respeito, claro, mas com aquela espontaneidade dele, que alegrava qualquer pessoa”, indica. “E isso faz muita falta. Faz falta o sorriso, a animação, aquela energia boa que ele transmitia naturalmente”, lamenta.
“Todo mundo queria por perto”
A lembrança dos familiares acompanha a mesma imagem descrita por treinadores e colegas. “Ele era um menino muito intenso. Tudo nele era no máximo, nada era meia boca. Muito alegre, dedicado, sincero e espontâneo. Às vezes falava coisas que deixavam a gente até sem graça, porque parecia um homenzinho conversando”, diz Ricardo.
“Era um menino que todo mundo queria por perto, porque só fazia coisa boa. Não existe uma palavra para definir o Bernardo. Ele era alegre, brincalhão, feliz. O Tomatinho era isso”, complementa.
A mãe reforça que o filho deixou um legado também entre as crianças do bairro. “As outras crianças se espelhavam nele. Ficavam felizes quando ele viajava para jogar e admiravam muito a dedicação que a gente tinha com ele. O Bernardo era muito amoroso, alegre e intenso. Tudo nele era vivido ao máximo. Não existe uma definição só para ele”, garante.
Lembranças
No dia da tragédia, Bernardo havia voltado do treino e estava em casa com os pais. Ricardo conta que recebeu uma chamado do Zico para retornar ao local para uma oportunidade de emprego. Já a mãe, que estava no local na hora da tragédia e ficou soterrada, lembra do último momento com o filho.
“Estava no corredor de casa perguntando se podia comer o bife que estava na cozinha. Eu falei que podia. Quando ele foi em direção à cozinha, aconteceu tudo”, detalha.
A tragédia também atingiu, além da mãe, a irmã de Tomatinho, Ana Clara, que segue em recuperação. “Foi um milagre. Nós ficamos soterradas. Então, mesmo diante de tanta dor, eu sou muito grata pela vida dela”, conta Cida.
Da mesma maneira, Ricardo diz que tenta seguir pela filha. “Ela é nossa inspiração para continuar vivendo. E eu procuro lembrar do meu filho pelos momentos bons. Não lembro dele com tristeza. Lembro da alegria, do quanto ele era querido e da inspiração que deixou”, expõe.
Apoio de Juiz de Fora
A dor do luto, segundo Cida, convive com a necessidade de reconhecer o acolhimento recebido.
“Tem dias muito difíceis. O Dia das Mães foi muito pesado. Tem hora que a saudade bate e não tem jeito, a gente chora mesmo. A nossa dor é real e a gente precisa viver esse luto. Mas Juiz de Fora abraçou muito a nossa família. Por onde a gente passa aparece alguém dizendo que conhecia o Bernardo, que jogou bola com ele ou que torcia por ele. As pessoas sofreram junto com a gente”, constata.
“Até hoje eu sou muito grata por todo cuidado que recebemos. Teve gente que abriu a porta de casa para nos acolher, pessoas que ajudaram no tratamento médico, gente que a gente nem conhecia e mesmo assim se dispôs a lutar junto conosco”, completa.
Ricardo também reforça o apoio recebido após a tragédia e afirma que a memória do filho tem motivado a família a ajudar outras crianças no esporte.
“O povo abraçou muito a gente. Através do Bernardo conhecemos muitas pessoas boas, muitos seres humanos mesmo. E o legado dele continua. A gente procura ajudar outras crianças a conseguirem oportunidades no esporte, assim como ele teve”, revela.
Ao recordar a trajetória de Tomatinho, o pai diz que a relação entre a família traz lições para a população.
“Quem tem oportunidade, abrace, beije, aproveite os filhos e as pessoas que ama, porque a vida é um sopro. A gente tem paz porque fez tudo que podia para fazer dele um menino especial“, finaliza.

