Ícone do site Tribuna de Minas

‘Eu quero é botar a Copa na rua’: Bairro Industrial troca marcas da enchente pelas cores da Seleção

por jf copa na rua arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

PUBLICIDADE

Entre os bairros mais afetados pelas fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora neste ano, o Industrial, na região Norte, convive há décadas com alagamentos em épocas chuvosas. De um lado, estão as margens do Rio Paraibuna e a Mata do Krambeck. Do outro, os trilhos do trem e a longa e movimentada Avenida Juscelino Kubitschek. No meio, entre casas e pequenos comércios, o bairro é cortado pelo Córrego Humaitá. Marcada por lutas e perdas, a comunidade do bairro se reuniu para contar outra história.

Moradores juntaram-se para retomar um costume que agitava muitos dos bairros brasileiros: a pintura e a decoração das ruas para a Copa do Mundo. Guardados na memória, encontros como este, assim como os blocos de carnaval, agora voltam às ruas e resgatam o orgulho coletivo em torno do esporte e da cultura brasileira.

PUBLICIDADE

Nascida e criada no Industrial, a confeiteira Isabela Cunha Guimarães, de 30 anos, relembra que após as chuvas, a casa do seu avô, na qual ele vive há cerca de 60 anos, ficou alagada e pertences foram perdidos. O avô, de 84 anos, ficou abalado com toda a situação da enchente.

“Ele precisou ficar dois meses fora de casa por causa das obras. Na minha confeitaria também foi necessário fazer vários reparos, e eu ainda nem consegui terminar tudo por conta da grande demanda e dos gastos. A casa dele ficou em reforma durante esse período todo e faz menos de um mês que ele conseguiu voltar para casa de verdade”, comenta.

<
>
A mobilização reuniu crianças que puderam, pela primeira vez, compartilhar a experiência de pintar e decorar as ruas do bairro para a Copa do Mundo (Foto: Arquivo pessoal)

A rua voltou a ser ponto de encontro

Segundo Isabela, o bairro tem moradores antigos, muitos deles idosos. Uma dessas vizinhas, conhecida desde quando era criança, foi quem propôs a ideia. Juntas, elas reuniram muitas das famílias para a movimentação, somando 19 casas envolvidas para pintar a Rua Dalila Leri. A comunidade dividiu, então, a compra das bandeirinhas, tintas, pincéis, adereços, vuvuzelas, e, ainda, compartilharam um churrasco com almoço.

“No dia, meu avô ficou na rua com a gente, assim como várias senhoras idosas do bairro, que hoje em dia quase não se sentam mais na calçada e acabam ficando mais dentro de casa. Quando publiquei fotos mostrando todo mundo reunido, pintando e participando, e aí várias pessoas do bairro começaram a me mandar mensagens para perguntar como tínhamos organizado tudo”, narra.

PUBLICIDADE
A mobilização no Bairro Industrial reuniu crianças que puderam, pela primeira vez, compartilhar a experiência de pintar e decorar as ruas do bairro para a Copa do Mundo (Foto: Arquivo pessoal)

Ver, amarelo e azul sobre a lama

O encontro da comunidade levou as cores verde, amarelo e azul às ruas antes alagadas e enlameadas. Dos idosos às crianças, todos tinham pincéis e tintas à mão para traçar desenhos e escritos no asfalto. Estrelas, escudos, taças, bolas de futebol, jogadores e torcedores, todos tomando formas num caminho rumo ao Hexa. Reunidos na calçada da porta da garagem de seu avô, os moradores vestiram-se à caráter, com as cores da bandeira, compartilhando uma paixão pela Seleção Brasileira, memórias das vitórias e uma aspiração de décadas de retomar o protagonismo no futebol mundial.

“Uma das vizinhas ficou responsável pelo almoço. Ela preparou arroz, farofa e maionese, inclusive, a mesma receita de maionese que a mãe dela fazia. A Ivone, mãe dela, foi uma figura muito importante no bairro e teve, por muitos anos, um bar na praça da comunidade”, relembra Isabela, que avalia: “Tudo aquilo trouxe muita emoção para a gente. Minha irmã, inclusive, chorou quando provou a maionese, porque o sabor estava muito parecido com o da Ivone. Nós crescemos comendo aquela comida”.

PUBLICIDADE

Os moradores das ruas próximas também toparam a proposta com empolgação. Isabela conta que a Rua Tomás Cameron, ao lado da sua, já começou a ser pintada. Neste fim de semana, também está prevista a pintura da Rua Henrique Simões, uma das primeiras a alagar no bairro. Já a Rua Artur Vieira, paralela à Henrique Simões, também será pintada nos próximos dias.

“A gente pretende assistir ao primeiro jogo (da Copa do Mundo) todo mundo junto. Temos um projetor e vamos colocar um tecido branco na garagem para improvisar uma tela. Inclusive, sobrou carne do churrasco. Então estamos querendo organizar outro encontro para assistir aos jogos em grupo”, finaliza.

Sair da versão mobile