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Por saúde mental, atletas buscam motivação e psiquiatra vê momento de ressignificação

juliana e victor bike foto arquivo pessoal
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O esporte amador pode ser uma atividade solitária em tempos de quarentena. Ao contrário dos profissionais, esses atletas têm o hábito de competir consigo, superando as próprias marcas. Ter a companhia de treinadores, de uma equipe ou amigos é comum, mas quando se está isolado, tanto a impossibilidade de treinar quanto a distância das pessoas podem contribuir para a desmotivação e o desenvolvimento de sintomas de ansiedade e depressão, por exemplo. Mas com atenção e criatividade, é possível ver o momento com um olhar mais otimista.

Faz cinco anos que Juliana Scher se encantou pelos esportes. Começou com a corrida, passou para o ciclismo e foi atraída para a natação, rumando para o triatlo. Sua rotina era treinar duas modalidades por dia, conciliando com o funcional, a fisioterapia e o trabalho de publicitária em home office. Em novembro, Juliana iria correr o Mundial de Triatlo na Nova Zelândia, depois de conquistar classificação no final do ano passado, em uma etapa do Ironman no Rio. O evento, porém, foi adiado pela pandemia e o calendário da atleta está cheio de incertezas. Naturalmente, os treinos também tiveram mudanças drásticas com a necessidade de isolamento social.

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Juliana e Victor têm se motivado com treinos juntos, presencialmente ou em vídeo (Foto: Arquivo pessoal)

“O esporte, além de saúde e bem-estar, tem um desafio pessoal muito bacana, percebendo que somos capazes de muito mais do que imaginávamos, quebrando barreiras físicas e psicológicas com bastante disciplina. Com os treinos passei a ser muito mais produtiva e nos dias em que não faço uma atividade, fico mais lenta”, observa a juiz-forana de 28 anos, que deixou de correr e nadar e só tem pedalado em casa, com o auxílio de uma estrutura de fixação da sua bike.

Por conviver com grupos de risco, Juliana evita ao máximo sair de casa, e nem considera a possibilidade de fazer algum treino ao ar livre. “Sou uma pessoa muito privilegiada por poder estar em casa neste momento. Acho que se todo mundo pensar em treinar um pouquinho ao ar livre, vão estar todos na rua de novo”, reflete.

Da rotina que levava antes, ela admite sentir falta de companhia. Sem poder contar com seus treinadores, é o namorado e ciclista amador, Victor Medeiros, 35, que a incentiva a continuar focada. “Quando um estava desanimado, o outro motivava, era um companheirismo. Estamos tentando fazer isso virtualmente agora, por não estarmos mais na mesma casa. A gente acorda 6h, perto de 7h nos chamamos por vídeo para fazer o treino, compartilhar como foi e trocar incentivo”, relata Juliana.

Sua filosofia para enfrentar esse momento é aceitar que o isolamento é uma necessidade e que a autoexigência pode ser prejudicial. “Uma coisa que estou tentando fazer desde o início é não me cobrar tanto de treinar com o mesmo volume que antes, mas respeitar essa fase. Eu me sinto mais desmotivada para treinar, porque não temos nenhuma prova em vista, mas sei que quando eu treino, me sinto melhor”, reforça Juliana.

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Isolamento pode gerar ansiedade e outros fatores

Além de autor de livros sobre a psiquiatria do esporte, Helio Fádel acompanhou o Tupi nas últimas temporadas (Foto: Studio Photo Aluizio)

Psiquiatra clínico e do esporte, Helio Fádel tem recebido com certa frequência ligações e mensagens de atletas que mantinham quadros estáveis, mas sofreram um agravamento de condições pré-existentes ou o surgimento de novas condições por conta do isolamento. “Vejo piora de ansiedade, estresse agudo e TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), sobretudo de limpeza. E há vários atletas com medo de adoecer e comprometer a parte física e, com isso, não dormem, se alimentam mal e outras consequências”, observa ele, destacando ainda os resultados de uma pesquisa realizada pela Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol (FIFPro), que mostrou o aumento de sintomas de ansiedade e depressão entre os jogadores isolados.

Segundo o especialista, dados como este não surpreendem, visto que o organismo desses atletas está habituado a liberar neurotransmissores que dão a sensação de prazer e bem-estar, reduzem a ansiedade e regulam o padrão do sono. “Se você tira a principal atividade deles, que é o esporte, e isso não é mais canalizado, com certeza esses sintomas vão aparecer, mas não necessariamente o diagnóstico. É algo que no esporte amador, para quem tem uma prática constante, não necessariamente de alto rendimento, também vai sofrer.”

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Para Helio, esse momento precisa ser de ressignificação, para que a falta de motivação seja driblada com disciplina. Ainda conforme o profissional, tudo aquilo que puder ser feito hoje, apesar das dificuldades, será um diferencial no futuro, inclusive em rendimento esportivo. Embora pareça uma desvantagem, um olhar positivo, segundo o psiquiatra, pode enxergar essa época como uma oportunidade de utilizar o tempo ocioso com estudos e práticas para aprimorar algo.

“Priorize algumas atividades e veja o que está sendo gasto de energia à toa. Este momento em que as coisas estão desacelerando pode ser bom para se autogerir melhor. Planeje, veja suas capacidades e as potencialize. A atividade física tem que ser algo prazeroso e não uma obrigação a se cumprir. O atleta amador que perdeu o foco, que já não está mais se preparando para algum evento, tem que aceitar isso e focar no momento presente, criando metas pequenas, dentro da sua realidade”, indica.

Seis dicas para manter a saúde mental

Para evitar o surgimento ou aumento de sintomas prejudiciais à saúde mental, o psiquiatra Helio Fádel enfatiza seis pontos que devem ser cuidados. O primeiro é a checagem de conteúdo recebido via internet. “Temos que verificar a fonte de onde vem essa informação rápida, se tem potencial de agregar valor, o que eu ganho propagando essa informação, o que a pessoa que recebe tem a ganhar ou não. Porque receber e encaminhar é algo automático”, adverte.

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O segundo ponto é observar a alimentação, mantê-la balanceada e evitar comer compulsivamente em uma tentativa de canalizar a ansiedade, por exemplo. Fádel também destaca a higiene do sono. “Evite ingerir muito líquido ou comida antes de dormir, bem como passar o dia na cama ou no quarto.”

Seguindo esta linha, é indicado que o atleta busque práticas saudáveis que estimulem a criatividade, como ler livros, ouvir música, assistir filmes, se distrair com quebra-cabeça, baralho ou trabalhos manuais. Pratique atividades físicas quando e quanto puder.

A quinta dica é o autogerenciamento das emoções, com técnicas de respiração e meditação e até terapia. “Perceba quais são os fatores que são gatilhos para o estresse. É algo que posso mudar ou não? Se foi imutável, como posso reagir melhor àquilo?”

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Por último, a própria rede de apoio é muito importante para manter uma mente saudável. “O ser humano não foi feito para ficar sozinho, o que é uma contradição, pois nesse momento se pede para ficarmos isolados, sem contato físico. Fortaleça essa rede de apoio com amigos e familiares, em segurança dentro de casa. Coloque para fora emoções e sentimentos ao invés de guardá-los, porque uma hora a conta vem”, diz Helio.

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