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A evolução da espécie

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Ele nasceu nos idos dos anos 1990. Desde sempre, convive com o que as gerações mais velhas chamam de avanços tecnológicos. Coisas como e-mail, internet, TV a cabo, videogames potentes – e os jogos de esportes são os preferidos – sempre fizeram parte de sua realidade. A obsolescência é parte integrante de seu cotidiano. Troca de celular como quem troca de corte de cabelo ou quem muda de canal televisivo, com sua atenção difusa, muitas vezes confundida com desatenção. Nada é eterno. Tudo é efêmero. O que vale é a felicidade do agora. Os shoppings centers são seu habitat natural. As brincadeiras de rua, suas maiores privações. Seu negócio é mesmo as redes sociais. É exigente, individualista, consumista, digital, vaidoso, fã da moda e vive em busca de autoafirmação e status social. Ele é Neymar, 20 anos, craque do Santos e da Seleção Brasileira, mas poderia ser qualquer um dos indivíduos que formam a chamada geração Z, composta por jovens nascidos a partir da década de 1990.

Porém, a diferença entre Neymar e a grande maioria de seus companheiros de geração vai além da gorda conta bancária, sonho de consumo de sua e de todas as gerações anteriores. O santista conseguiu vencer no futebol. Para isso, superou também as limitações motoras comum entre os integrantes da tal geração Z. As crianças e adolescentes de hoje convivem com um mundo moderno que, com suas ruas movimentadas e violentas, e residências com espaço cada vez mais restrito, os privam de uma rotina de atividade e disciplina física adequada, tão comum em tempos passados. Característica que se reflete no processo de surgimento de novos valores para o esporte nacional, fazendo com que especialistas no assunto afirmem que, atualmente, a formação de atletas é mais demorada se comparada à observada nas gerações X e Y, por exemplo.

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Quando comecei a trabalhar no esporte, há cerca de 30 anos, formava-se um atleta de alto nível em quatro anos. Hoje, isso leva no mínimo sete, oito anos. Alguns processos da cognição que faz parte do desenvolvimento das crianças acabam atrasados pelo excesso de informação e diminuição do foco. Hoje, os jovens são multifocais, o que acaba prejudicando o desenvolvimento esportivo, avalia o professor André Muzzi. Atualmente no comando técnico das categorias de base do vôlei feminino do Sport Club Juiz de Fora, Muzzi, que revelou para o esporte nomes como a medalhista olímpica Márcia Fu, identifica uma grande diferença entre a atual geração e as anteriores. Entendo isso como uma forma de evolução da espécie. Esses jovens são os filhos do mundo moderno, reflexo da grande concentração de pessoas nos centros urbanos. Isso faz com que surja uma geração daquilo que alguns especialistas chamam de analfabetos psicomotores, crianças que não têm ou não tiveram a prática de atividades física em sua rotina diária.

Treinador das categorias de base do vôlei do Bom Pastor, Marcus Vinícius de Oliveira, o Didi, também aponta os efeitos da modernidade como fator que retarda a formação de um atleta de alto nível. Antes, a vivência motora das crianças e adolescentes era maior. Passavam o dia inteiro dentro de clubes ou mesmo nas brincadeiras de rua. Hoje, estes jovens têm muito mais compromissos e muito mais possibilidades de lazer que não o esporte. Essa maior ocupação com atividades que muitas vezes comprometem a parte física traz grandes dificuldades na formação do atleta.

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Mas por outro lado…

Apesar de reconhecer os prejuízos motores trazidos pela rotina cotidiana da chamada geração Z, Didi avalia que a agenda moderna das crianças e adolescentes atuais, aliada aos estímulos propiciados pelos aparatos tecnológicos obrigatórios nos dias de hoje, pode ser benéfica também. Isso ajuda na formação intelectual do atleta por vários fatores. Antes, todos os trabalhos teóricos eram feitos com pranchetas e anotações. Agora, posso fazer vídeos dos jogos para analisar os erros de minha equipe e também a forma de atuar do adversário, por exemplo. Os garotos mais interessados buscam na internet vídeos e jogadas de atletas que são sua inspiração. Isso reforça o entendimento do esporte. Eles têm facilidade para assistir a mais jogos, seja com a popularização da TV a cabo ou pela internet, e acabam tendo uma visão mais clara do jogo como um todo. Analisam melhor a partida. No vôlei, um outro recurso que ajuda nesse quesito é a captação do áudio das conversas entre treinadores e jogadores durante a transmissão das partidas.

Inserida em uma realidade onde a internet e as redes sociais apresentam-se inerentes às escolhas individuais de crianças e adolescentes, Larissa Stroppa, 15 anos, jogadora de vôlei do Sport, não encontra empecilhos para conciliar as rotinas virtual e esportiva. Não abro mão de nada para estar em quadra. Estudo e faço a minha parte em tudo o que uma garota da minha idade precisa fazer. Consigo encaixar tudo dentro dos horários, mas o tempo disponibilizado para o esporte no meu cotidiano é fixo e obrigatório. Utilizando sua realidade a seu favor, a jovem atleta bebe nas águas das ondas da grande rede mundial de computadores em busca de conhecimento para aprimorar sua experiência no voleibol. Para mim, a tecnologia ajuda muito. Busco saber tudo que acontece no vôlei brasileiro, mundial e até em outras modalidades. Acho isso importante para meu desenvolvimento esportivo.

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O individualismo como inimigo

Entre as características comportamentais mais marcantes dos jovens nascidos a partir da década de 1990, o individualismo é uma das assinaturas de Neymar, ídolo esportivo maior da geração Z no Brasil. Porém, é um traço que preocupa os treinadores e profissionais que trabalham na formação de atletas. Essa é uma das características mais marcantes dessa jovem geração. Por isso os treinadores têm sempre que ter uma preocupação especial e trabalhar muito o lado coletivo destes jovens. O foco não pode ser apenas a competição, mas também a formação cidadã dos garotos, avalia Ivan Gal, técnico de futsal das categorias de base do Sesi.

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Para André Muzzi, treinador de vôlei das divisões inferiores do Sport, o individualismo deve ser coibido desde o núcleo familiar, sob riscos de despertar desinteresse esportivo no futuro. Isso ocorre porque alguns valores que são agregados à prática esportiva não são iniciados no convívio familiar. Coisas como saber ganhar, perder e dividir. Muitas vezes, as crianças que não têm essa base e tentam uma iniciação esportiva acabam se frustrando, afastando-se do esporte e da atividade física de forma duradoura. Isso provoca um país doente mais para frente. O grande segredo do bom desempenho no esporte atual é trabalhar o grupo, visto o sucesso das equipes formadas pelo Bernardinho, por exemplo. Em contrapartida, temos a realidade de uma geração extremamente individualista, que tem conceitos diferentes de família, de grupo. O convívio virtual, tão presente nos dias de hoje, prejudica o desenvolvimento da comunicação entre os atletas e, consequente, a formação do grupo.

Muzzi entende que, mais que uma questão geracional, as dificuldades e o atraso na formação de um atleta de alto nível passam por uma reestruturação das políticas públicas voltada para o incentivo às práticas esportivas. Toda solução é a longo prazo. O Brasil precisa de uma política para o esporte e, principalmente, para a educação física. Isso deveria ser feito a partir das escolas e universidades, que, por característica, apresentam caráter menos imediatista e individualista. Um planejamento que daria retorno em 20 anos.

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