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Nada no balaio

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Luz de vela

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Era preciso que essas poucas linhas fossem precedidas por um minuto de silêncio. O mesmo, aliás, deveria ter acontecido antes do jogo entre Flamengo e Horizonte na última quarta-feira. Nós, gente da imprensa, que escreve sobre tudo sem entender de nada, o fazemos sobre a areia do tempo, sentenciou certa vez um dos dinossauros da revista O Cruzeiro. Nossos escritos valem o quanto duram e duram muito pouco. Não somos chama, mas luz de vela.

Muitas vezes, horas, dias ou semanas de trabalho, regados a pressão e insônia, são coroados com um comentário de um amigo ou um e-mail de um leitor mais atento. No mais, nossa produção diária acaba indo para os fundos das gaiolas antes mesmo do meio-dia. Isso, claro, quando querem lhe dar uma destinação mais nobre.

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Então, quando se perde um amigo, leitor dos mais assíduos, é justificável a homenagem. De maneira semelhante, seria de bom tom que os times, ao perderem torcedores diferenciados, aqueles com distintivo e carteirinha, prestassem também reverência. Até porque sei que o jornalismo e a massa rubro-negra ficaram menores desde o último domingo, quando o Cerezo nos deixou.

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Certa feita, rabisquei aqui alguma coisa meio indigesta para os flamenguistas. Contei das vezes que o time da Gávea titubeou pela zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro. Na segunda-feira, o Cerezo foi ter comigo na redação. Quis saber da importância do meu cruzeirinho, era assim que ele se referia ao maior de Minas. Depois, como bom rubro-negro, falou das barbeiragens do time, sem que ninguém mais pudesse criticar, é claro.

Para quem foi menino na roça, habituado a uma boa prosa, uma contenda com o Cerezo era um prato cheio. Para falar de uma mudança no esquema tático de qualquer clube, contava da sua gloriosa passagem pelas categorias de base do Tupynambás. Outras tantas vezes, até sem ser indagado, falava da despedida do Zico, evento que registrou magistralmente com máquina fotográfica.

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Mas chegou o dia que o Cerezo foi bater nas portas do céu. Imagino ele lá, escorado em uma dos ombreiras do paraíso, com um Nikon a tiracolo, querendo fazer Pedro, o porteiro, uma tanto gasto pelos anos e santidade, compreender que o Willians fez mesmo aquele golaço na quarta-feira, que não foi nenhum milagre.

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