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Da terra para as Olimpíadas

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A modesta pista de terra no município de Abreu e Lima, na região Metropolitana do Recife, em Pernambuco, já recebeu milhares de passadas de crianças e adolescentes apaixonados pelo atletismo. Mas, os saltos que saíram dos pés de Keila Costa marcaram a história da cidade de 94 mil habitantes.

O clichê "exemplo de superação" talvez poucas vezes tenha se adaptado tão bem a um atleta quanto à pernambucana. A especialista em salto em distância e salto triplo esteve em Juiz de Fora durante o 4º Training Camp de Atletismo, organizado pela Faculdade de Educação Física (Faefid) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que terminou na quarta-feira.

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Enquanto treinou por aqui, Keila dispensou regalias que seriam ofertas normais a atletas de elite. Dormiu e se alimentou nas acomodações da Universidade, entre adolescentes de projetos sociais e que também têm no atletismo a chance de mudar de vida.

Filha de uma dona-de-casa e um guarda municipal, que ainda moram em Recife com seus outros quatro irmãos, a atleta, que completa 29 anos no próximo dia 6, não esconde sua origem humilde. "Nunca passei fome. Mas faltava o tênis novo, o brinquedo da moda, os materiais para treinar", lembra. Após dez anos treinando na pista de terra – que surpreendentemente resultou em medalha de bronze no mundial juvenil em 2002, na Jamaica – Keila Costa se mudou para São Paulo, onde atualmente treina e se prepara para buscar mais um índice olímpico, após participações nas Olimpíadas de Atenas 2004 e Pequim 2008. Suas principais conquistas no esporte foram as medalhas de prata no salto em distância e salto triplo no Panamericano do Rio, em 2007, e um bronze no salto em distância durante o Campeonato Mundial Indoor de Atletismo de 2010, realizado em Doha, no Qatar. Perguntada sobre a relação com a principal rival, a medalhista de ouro olímpica, Maurren Maggi, ela desconversa: "Prefiro não comentar."

Tendo Juiz de Fora como rota dessa fase final de preparação para as Olimpíadas, a atleta, uma das boas revelações recentes do esporte brasileiro, conversou com a Tribuna durante os treinamentos na UFJF.

Tribuna – 2012 é ano de Mundial Indoor na Turquia, em março, e Olimpíadas de Londres, em agosto. Quais são seus planos para conseguir o índice olímpico?

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Keila Costa – O objetivo é tentar ser finalista no Mundial, e, consequentemente, alcançar essa vaga. O índice eu posso conseguir até junho, inclusive antes do Mundial, em duas competições na Europa; uma delas começa dia 18 de fevereiro. Quanto mais cedo eu conseguir, melhor, porque, depois, já faço uma preparação mais tranquila para as Olimpíadas.

– Com os atuais 6,67m no salto em distância (segundo lugar no ranking brasileiro, atrás apenas de Maurren Maggi) e 14,24 m no salto triplo (marca com a qual lidera o ranking nacional), você acredita que está em sua melhor fase?

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– Minha melhor marca é 6,88m no salto em distância e, no salto triplo, 14,57m, que é o recorde brasileiro. Essas marcas eu alcancei em 2007 e pretendo repetir ou fazer um pouco melhor esse ano. Hoje eu estou em uma fase de preparação física igual ou melhor do que estava em 2007. Então, estou bastante confiante. Tem tudo para dar certo. Até agosto, tenho tempo para fazer essa preparação e chegar a Londres pronta para o salto, no ápice de todo o trabalho que vem sendo realizado.

– E, até lá, como é sua rotina de treinamento e alimentação?

– Faço controle bastante disciplinado com nutricionista. Não posso comer certas coisas, como frituras e tomar refrigerante. Em relação ao treinamento, aqui em Juiz de Fora estou conseguindo fazer em dois períodos (manhã e tarde), mas em São Paulo, como é mais corrido, faço um treinamento em um período, mas um pouco mais longo, de segunda a sábado. Às vezes até domingo. Agora é hora de treinar.

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– No seu Twitter tem uma foto tirada no Morro do Cristo quando você chegou a Juiz de Fora, na semana passada. O que achou da cidade e da estrutura da Faculdade de Educação Física da UFJF?

– Não conhecia Minas. Em 1997, fui a Ipatinga disputar um Troféu Brasil Infantojuvenil, mas faz muito tempo. Aqui em Juiz de Fora fui ao museu e ao Morro do Cristo. Achei a cidade bem organizada. A UFJF é sem comentários. É coisa de primeiro mundo. Não fica devendo em nada em relação ao que eu vi em outros países.

– Como foi seu começo no atletismo?

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– O início da minha carreira foi numa cidade chamada Abreu e Lima, na região Metropolitana do Recife. Eu nasci em Recife, mas logo me mudei para essa cidade. Aos 10 anos de idade, quando estava na 5ª série do colégio, tinha um professor (Roberto de Andrade) que fazia aula de educação física voltada para o atletismo. Minha irmã mais velha já fazia corrida de rua. Isso me interessou, porque ela chegava em casa com medalhas, troféus e diplomas. E eu fui ficando interessada em ganhar essas coisas. Foi quando comecei a praticar corrida e salto. O treinador viu que eu tinha o jeito para a coisa. Saltava mais alto do que as outras meninas, corria mais rápido e era daquelas crianças que queriam aparecer mais do que as outras (risos); fazer sempre o melhor. Isso chamou a atenção dele, que tinha um projeto de atletismo. Fiquei até os 20 anos treinando lá. Depois, me mudei para Presidente Prudente, no interior de São Paulo. Um ano e meio depois, resolvi ir para São Paulo, capital, para tentar melhorar, conseguir mais patrocínio e uma estrutura melhor. No Recife, eu tive uma fratura na tíbia e lá não tinha estrutura para me recuperar.

– Você sempre teve em mente que poderia ser uma atleta de ponta?

– No começo era só sonho. Quando comecei a participar de competições mais importantes – no Nordeste, nos campeonatos brasileiros e depois nos sul-americanos e mundiais da minha categoria – fui pegando o gosto. Comecei a ver que dava para sonhar e realizar. Aí sonhei com os Jogos Olímpicos. Em 2004, consegui o índice para as Olimpíadas (de Atenas). O sonho tinha virado realidade, mas ainda não acreditava muito. Eu cheguei lá e fiquei meio deslumbrada ao ver e competir ao lado das meninas que eu só via antes na televisão e pela internet. Depois, fui evoluindo, competindo mais e viajando para outros países. Hoje, elas já sabem quem é Keila; não chego preocupada com quem vou competir. Chego de igual para igual, para tentar ser uma das melhores, como elas também tentam.

– Depois que você foi para São Paulo, a relação com o Roberto de Andrade, seu treinador em Pernambuco, ficou abalada. O que aconteceu?

– É. Na verdade, eu era uma pedra rara que ele tinha. Para ele, a minha saída seria o fim do projeto, talvez por medo de outros começarem a se destacar e também irem embora. E, na época, ele não entendeu muito a minha decisão. Hoje, a gente já conversa normalmente, nos encontramos em São Paulo e ele entende o porquê da minha saída. Lá, ele coordenava um projeto social. A gente não tinha muito apoio e treinava em pista de terra. Alguns atletas não tinham nem tênis, que é o mínimo para praticar esse esporte.

– Esse fluxo de pessoas que vêm do Nordeste para o Sudeste em busca de melhores oportunidades também acontece no esporte, principalmente no atletismo. Você acha que falta investimento nas demais regiões brasileiras, sobretudo no interior?

– Quando saí de Pernambuco, meu pensamento foi justamente esse: ter acesso a uma pista e material para praticar o atletismo, ter apoio de patrocinadores e equipe médica. Se não tiver essa estrutura mínima, fica difícil. Eu passei a minha infância e adolescência inteiras treinando na pista de terra. Consegui ser bronze no mundial juvenil, em 2002, na Jamaica, treinando nessa pista. Ninguém acreditou. É até possível formar um campeão nessas condições, mas muita gente não entende que, se tiver mais investimento, além de vencedor, esse atleta pode ser um recordista.

– Participam do 4º Training Camp de Atletismo cerca de 50 crianças e adolescentes do Projeto de Iniciação Esportiva Minas Olímpica Geração Esporte, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Esporte e Juventude e a UFJF. Como você observa políticas públicas que utilizam o esporte como forma de transformação social?

– Esse era o objetivo do meu treinador lá em Recife. Como lá era uma comunidade muito pobre – assim como muitos aqui desse projeto têm a condição financeira difícil – mesmo que a maioria não se torne campeã, que pelo menos essas crianças e adolescentes se formem como cidadãos. Temos que aplaudir essa iniciativa da UFJF, pois são poucos que conseguem enxergar, acreditar e sonhar o sonho dessas crianças. Se o Brasil inteiro fizesse esse tipo de camping e colocasse as crianças em contato com os atletas mais experientes, seria bem bacana. Quando elas conversam comigo, eu conto a minha história e tento fazer com que elas acreditem nelas, mesmo sendo difícil ser atleta no Brasil. É possível sonhar e acreditar em alguma coisa grande.

– Há cerca de um mês você trocou a equipe Orcampi/Unimed pela BM&FBovespa. O que isso representa efetivamente na sua carreira e na rotina como atleta?

– Isso me dá uma segurança para a competição. Eles têm uma estrutura melhor, que eu vou poder usufruir bastante, como equipe médica, nutricionistas, psicólogos, ou seja, tudo que uma atleta de alto nível precisa para alcançar as marcas que coloca como meta. Além da Bovespa, sou patrocinada pela Caixa, e a Nike me dá um suporte. Hoje também tenho apoio do Exército Brasileiro, pois faço parte das Forças Armadas, como terceiro sargento. Participei dos Jogos Mundiais Militares, no ano passado, e fui ouro no salto em distância e prata no salto triplo.

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