Dois pastéis e uma Brahma
Não vou entregar o nome do amigo. Nunca fui alcaguete. O fato é que ontem ele disse estar duplamente triste. A primeira razão para comoção era a morte do eterno Nilton Santos. O segundo é menos nobre. O que o incomodava era a alegria dos flamenguistas com a conquista da Copa do Brasil. O mais curioso veio após o desabafo. Como sei que você compartilha pelo menos uma delas (das amarguras), pode escolher o que quer comer hoje. Eu mesmo faço para você, foi a forma como o gaiato me convidou para dar uma passada no bar de sua propriedade.
O convite foi tentador. Quinta-feira sempre foi dia de discutir futebol na mesa quadrada da vida. Ele havia acertado em cheio. Compartilhava, sim, de um de seus padecimentos. É triste constatar que a Enciclopédia chegou ao seu ponto final sem que eu pudesse ter lido, ao vivo e em preto e branco, seus melhores capítulos. Nilton Santos está entre os jogadores que mais admiro daqueles que não vi jogar. Mais que Pelé, que, apesar de gênio, tem posicionamentos que não me agradam. Dizem ser coisa do tal de Edson, entende?
Por essa e outras, não me furtei ao chamado. Segui meu caminho e mantive a tradição do happy hour de quinta. Só fiquei em dúvida sobre qual prato escolheria. Não sou um cara gourmet. Renegar um brinde previamente acordado, todavia, é heresia. Pedi o trivial. Ô Curumim, me dá dois pastéis de queijo e uma Brahma! Ele riu do pedido. Achou que eu faria uma opção mais sofisticada.
Com o tira-gosto e a cerveja na mesa, puxei um brinde ao campeão da Copa do Brasil. O sujeito ficou ligeiramente contrariado, já que esta era uma de suas feridas abertas. Eles foram campeões de fato e de direito, e merecidamente, justifiquei. Como não dá para discutir com a verdade, o sujeito engoliu seco. Depois, sorriu novamente, lembrando Nilton Santos, que também admirava sem ter visto jogar. Coisas do futebol.
