Determinar o que causou a queda do Tupi para a Série D do Campeonato Brasileiro não é uma tarefa fácil. No caminho trilhado pelo Carijó até a última colocação do grupo B da Terceirona deste ano, muitos foram os percalços que minaram a confiança do time e da torcida na manutenção na Série C, mostrando a cada rodada que o destino do clube local era mesmo voltar à Quarta Divisão em 2013.
Só a análise fria dos números já dá uma boa ideia do percurso desenfreado do Carijó ladeira abaixo: nenhuma vitória fora de casa, muitos pontos perdidos em Juiz de Fora e poucos gols onde quer que seja. Mas isso não é suficiente para expor as razões pelas quais passam cada metro da construção do rebaixamento. É preciso observar não só a estrada principal, mas o que aconteceu paralelamente, no acostamento desse caminho, para se ter uma ideia completa de como ele conduziu o Tupi de volta à Série D.
Antes mesmo de largar na Série C, o Carijó conviveu com um problema recorrente, apontado pelo repórter e cronista da Tribuna, Renato Salles. "É fácil assumir o papel de engenheiro de obra construída e apontar mil defeitos quando a vaca já foi para o brejo. E o rebaixamento do Tupi é mais um desses eventos onde, como em uma catarse coletiva, todos fazem questão de colocar o dedo na ferida. O fato é que não vejo um vício que tenha sido preponderante para a queda. Na verdade, o descenso expôs um problema crônico do clube e do esporte na cidade em geral: a falta de investimentos. No futebol profissional só há uma solução para todos os problemas: dinheiro. Coisa que anda em falta no Carijó há tempos e, este ano, o pouco que tinha ainda saiu pelo ladrão. Sem recursos, manteve-se o programa de contratar jogadores baratos e com identidade com Santa Terezinha. Dentro do possível, apostou-se na continuidade. O problema é que dentro de campo a coisa desandou", analisa.
Segundo o repórter e cronista da Tribuna, Ricardo Miranda, os maiores problemas estiveram mesmo fora de campo, inclusive com um percalço inusitado pelo caminho carijó. "O fatídico e ainda não elucidado roubo dos cerca de R$ 70 mil talvez seja o capítulo mais insólito. Sem considerar as consequências da falta desse dinheiro, o episódio demonstrou certo amadorismo do Tupi quanto às suas relações financeiras. Isso na visão de possíveis patrocinadores é, no mínimo, de arrepiar. Mas antes, ainda no primeiro semestre, há de se registrar o fato de o Carijó ter entrado na moda. Parece até que o título do Campeonato Brasileiro da Série D mexeu com o ego do pessoal de Santa Terezinha. Dirigente e jogador foram alçados à sucessão municipal. Outros ganharam status de cabos eleitorais de peso. Ao Tupi não foi dado nada. Não apareceram novos parceiros, e a proposta de sócio-torcedor fracassou."
Faltou qualidade
A escassez de investimentos na formação do elenco para a competição nacional também é apontada pelo apresentador do programa "Super Bate-Bola", da Rádio Solar, Marcos Moreno, como o maior fator de influência na tortuosa campanha do Tupi. "Vário fatores influenciaram no rebaixamento. Mas talvez o maior tenha sido a falta de investimento da diretoria no elenco. O terceiro lugar no Campeonato Mineiro, que valeu o título simbólico de campeão do interior, iludiu a todos. Mas não se pode esquecer também da constante troca de treinadores", lembra.
O editor e cronista da Tribuna, Wendell Guiducci, faz coro com Moreno e acredita que as contratações feitas em 2012 não estiveram à altura de quem saiu e nem supriram o mau desempenho de quem ficou."Acredito que a diretoria do Tupi fracassou na montagem do grupo para a disputa da Série C, especialmente no que diz respeito aos homens de criação e definição. Houve a perda de peças importantes, como Luciano Ratinho e Vitinho (logo após a Série D de 2011), e jogadores dos quais se esperava muito, como Ademilson, Michel e Henrique, não renderam nem perto do que poderiam." Guiducci acredita também que faltou eficiência ao comando técnico. "Moacir Júnior fez o que dele se esperava, o pedido de demissão foi até natural, mas a opção por Felipe Surian se mostrou tão ineficiente quanto a contratação de Antônio Carlos Roy. Motivada ou não pelos problemas financeiros e a dificuldade de conseguir patrocínio e parcerias, foi uma série de atitudes equivocadas da diretoria que empurrou o Tupi de volta à Série D", avalia.
Parou
Quando achava que iria iniciar embalada sua trajetória na Terceirona, após o título simbólico de campeão do interior de Minas, o Tupi teve que dar uma freada brusca, com suspensão da Série C por conta de problemas judiciais entre Treze-PB e a CBF. A perda desse embalo, ao lado dos atrasos de compromissos financeiros e a falta de apoio das arquibancadas foram considerados cruciais para o rebaixamento na visão do repórter do site "Toque de Bola", Thiago Stephan.
"Foi um somatório de fatores. A paralisação que, em 2011, foi benéfica, esse ano foi muito negativa. O time veio muito bem do Campeonato Mineiro e, depois da parada de 45 dias, voltou com um futebol muito diferente. A questão dos salários ou diretos de imagem – existe essa polêmica se é um ou outro – atrasados, acabou criando uma insatisfação no grupo. Acredito que a diretoria tenha feito o máximo para tentar sanar esse problema, mas acabou tendo um efeito negativo. Além disso, faltou o torcedor. O Tupi jogou várias finais em Juiz de Fora, e o time poderia ter contado com mais apoio de sua torcida para fazer valer o fator casa. Os times que vieram aqui jogaram muito tranquilos no Estádio Municipal", considera.
Na busca por definir o que foi preponderante para rebaixar o Tupi, o repórter e comentarista da Rádio Solar, Leandro Colares, aposta em uma palavra. "Seria ‘continuidade’. A constante – e exagerada – troca de treinadores influiu de forma significativa na campanha. Em apenas 18 partidas, foram três técnicos. O número, embora seja comum no Brasil, é alto demais. É bem verdade que a primeira alteração no comando da comissão técnica carijó na Série C foi por vontade do próprio treinador à época: Moacir Júnior. A outra, porém, foi opção da diretoria", sublinha Colares. Felipe Surian havia conquistado 8 pontos em seis partidas quando retornou à condição de auxiliar. "O aproveitamento é de 44,4%, percentual suficiente para alçar o Tupi à sétima colocação no grupo, longe do rebaixamento", analisa o repórter. "A troca de Surian por Antônio Carlos Roy mostrou-se equivocada, pois o segundo não encontrou o padrão de jogo ideal, até por estar conhecendo ainda as características da maioria dos atletas. Com a troca, o clube também contratou alguns jogadores no meio da Série C. O resultado foi um time remendado e sem padrão tático. Em uma competição tão equilibrada, não ter um mínimo de organização é fatal."
