Aos 33 anos, o goleiro Victor Souza carrega no currículo mais de 15 anos de trajetória no futebol profissional. Natural de São Paulo, o arqueiro passou por clubes de tradição no país, como Cruzeiro, Cuiabá, CRB, Paysandu e Botafogo-SP, além de acumular conquistas importantes em diferentes regiões do Brasil. Hoje, o arqueiro concilia a carreira nos gramados com um empreendimento inusitado: a venda de luvas. Mas, entre tantos capítulos, um dos mais marcantes aconteceu em 2013, em Juiz de Fora, vestindo a camisa do Tupi.
Foi no Galo Carijó que Victor encontrou forças para não abandonar o futebol, depois de um período difícil. Formado nas categorias de base do Cruzeiro, ele relata que a transição para o profissional não foi fácil. “Lembro de exatamente tudo que vivi em Juiz de Fora. Queria parar, pois a transição de base para o profissional na Raposa não foi conduzida da melhor maneira. Eu estava querendo muito parar, e o Tupi abriu a porta para eu recuperar a vontade de jogar”, recorda.
Recém-chegado à cidade, o goleiro se instalou no CT de Santa Terezinha. O ambiente era diferente de tudo que conhecia, e as dificuldades não demoraram a aparecer. “Tive depressão pela mudança drástica de ambiente e pelos sonhos que não foram conquistados. No Tupi consegui me reerguer mentalmente junto com o treinador Felipe Surian e os preparadores de goleiros Walker e Negrette, que me deixaram em forma e preparado para a oportunidade que tive na quarta rodada da Série D, contra o Nova Iguaçu, quando fiz minha estreia no profissional”, relembra.
A resposta dentro de campo foi imediata. Victor ganhou a confiança dos torcedores, colecionando boas atuações durante a campanha que terminou com o acesso para a Série C do Campeonato Brasileiro. “Tive um ano mágico, extremamente feliz e coroado com a eleição de principal atleta do ano pela torcida e pela imprensa. Foi o meu primeiro ano como profissional e guardo até hoje todos os registros, feitos pelo fotógrafo Léo Costa (da Tribuna), que eternizou cada momento com a camisa do Galo Carijó”, destaca.
O título de atleta do ano simbolizou a importância do goleiro para o clube naquele período. Além das conquistas esportivas, Victor guarda lembranças afetivas de Juiz de Fora. “É uma das melhores cidades em que já morei. Sempre lembro do povo receptivo, do clima, da segurança e do carinho que recebi. É um lugar especial na minha vida, e sempre que posso falo da importância que Juiz de Fora teve para minha carreira”.
Carreira de conquistas não só no Tupi
Depois da boa passagem pelo Tupi, Victor Souza defendeu o Tombense entre 2014 e 2017, conquistando o título da Série D e o acesso à Terceira Divisão no primeiro ano. Em 2016, em empréstimo ao Democrata de Governador Valadares, foi campeão do Módulo II do Campeonato Mineiro. Na sequência, no Cuiabá, somou títulos estaduais invictos em 2018 e 2019, além do acesso da Série C para a B e a conquista da Copa Verde.
No CRB, em 2020, levantou o troféu do Campeonato Alagoano e novamente recebeu a premiação de melhor goleiro da competição. No ano seguinte, no Paysandu, foi campeão paraense com destaque individual. Passou ainda por Água Santa e Londrina, até chegar ao Botafogo-SP, clube que defende desde 2023.
O nascimento da VSLuvas
Se dentro de campo Victor acumula conquistas, fora dele também. Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, enquanto defendia o CRB, ele precisou lidar com a redução salarial. Foi então que surgiu a ideia de empreender. Ao lado da esposa, Ana Flávia, criou a marca VSLuvas, especializada em produtos para goleiros.
“O presidente disse que não teríamos o salário integral até voltar aos jogos normalmente e cortou por 50% durante quatro meses. Então, eu e minha esposa tivemos a ideia de criar a marca VSLuvas. Comecei a pesquisar fornecedores no Paquistão, onde 99% das luvas do mundo são feitas. Fui fazendo testes, criando modelos variados e, aos poucos, fomos melhorando até consolidar a marca”, explica
Hoje, a VSLuvas já ultrapassa 15 mil pares vendidos no Brasil e no exterior. O público principal é o futebol amador, que cresce a cada ano no país. A empresa oferece 12 modelos de luvas, além de roupas térmicas, manguitos, bermudas, calças e acessórios usados por goleiros para proteção em treinos e jogos. “Também temos parcerias com goleiros profissionais e da base, tanto homens quanto mulheres, que ajudam a divulgar nossa marca. O varejo é o nosso foco, com vendas que crescem muito pelo boca a boca entre os goleiros. “Cada uma tem um corte, um design e um estilo diferentes. Mas o diferencial maior é a palma, feita com contact grip 4mm látex original, considerado o melhor do mundo em grip, conforto e durabilidade. Isso agrega muito valor, porque a palma é o coração da luva”, pontua.
Planos para o futuro
Apesar do sucesso no empreendedorismo, Victor deixa claro que sua prioridade segue sendo o futebol. “Minha vida empreendedora não atrapalha nada no futebol. Dou minha vida ao futebol, a paixão, o amor e a dedicação 100% serão sempre no esporte. As luvas são um complemento de renda e até um alívio para o estresse, mas nunca deixo que atrapalhe minha rotina de atleta”, diz.
O goleiro revela que tem o desejo de prolongar sua carreira por muitos anos. “Penso em jogar o máximo possível, se for da vontade de Deus, até os 40, 42 anos. Trabalho muito diariamente para estar bem fisicamente, tecnicamente e mentalmente. Até lá, vou continuar inovando nas luvas e buscando melhorias para que, quando eu parar, possa expandir ainda mais a marca”, disse.
No Botafogo-SP, Victor Souza vive um momento de satisfação. Depois de enfrentar duas temporadas marcadas por lesões, ele recuperou a confiança e se sente em casa no clube paulista. “Estou extremamente feliz aqui, amo o clube, as pessoas e a cidade. Espero ajudar a conquistar os objetivos e permanecer por muito tempo”, projeta.

