
O faixa-preta da Equipe Alliance conquistou o quinto título mundial
Aos 28 anos, Bernardo Faria alcançou a glória. Há 15 anos perseguindo seus objetivos, o faixa-preta da Equipe Alliance conquistou o quinto título mundial. No início do mês, em Long Beach, nos Estados Unidos, reinou entre os pesos superpesados (até 100,5 kg) e também no torneio absoluto. De quebra, o juiz-forano alcançou a liderança do ranking absoluto da Federação Internacional de Jiu-Jítsu (IBJJF).
Foram seis vitórias, cinco por finalização, até o lugar mais alto do pódio. Uma “sensação incrível” para o garoto que nasceu no Brasil, mas se consolidou profissionalmente nos Estados Unidos. Da juventude em Juiz de Fora, guarda boas recordações, lembradas nessa entrevista que repassa a carreira de sucesso de um dos maiores nomes do jiu-jítsu.
Tribuna – Qual é a sensação de ser, mais uma vez, campeão mundial?
Bernardo Faria – A sensação é incrível, e desta vez foi ainda maior. Sempre sonhei ser campeão mundial absoluto, e sempre soube que poderia ser. Fui construindo essa confiança aos poucos, vencendo o absoluto de todos os outros campeonatos, Brasileiro, Sul-Americano, duas vezes Pan-Americano e Europeu. Mas o absoluto do Mundial é o mais difícil de todos. Por mais que tenhamos confiança, nunca temos certeza se vai acontecer ou não. Foi uma grande sensação de alívio misturado com muita felicidade.
– Você chegou à liderança do ranking. Ser o melhor do mundo entre todos os pesos, em um esporte que o Brasil é uma referência, é um peso ou um alívio?
– É até difícil descrever o que isso significa para mim. Eu sempre procuro colocar objetivos e metas na minha vida, e acho que, quando temos objetivos, nós temos que querer aquilo o mesmo tanto que queremos respirar. Nada nesse mundo é mais forte que a vontade do ser humano. Tudo que existe no mundo existe porque alguém teve vontade de construir aquilo, então procuro carregar isso comigo. Ficar em primeiro significa o pico de muita vontade acumulada durante esses 15 anos de treino. Eu já havia ficado em primeiro em 2013 e agora estou de novo em 2015. É uma sensação diferente, porque acabei de ganhar a categoria e o absoluto do Mundial, que é o título mais almejado do mundo.
– Você deu uma declaração dizendo que não se achava bom, mas compensava com esforço. Agora se convenceu que é bom?
– Continuo não me achando bom (risos). Às vezes converso com meu preparador físico e falo “não sei como venço esses campeonatos dessa maneira que venho vencendo”. Nem no treino eu sou daquele jeito. Mas é o que falei anteriormente, é muita vontade acumulada, muita vontade de vencer na luta e na vida. Abdiquei de tudo na vida para isso, já encarei diversas lesões, desânimo, derrotas, mas nunca parei de andar para frente, acho que esse conjunto todo reflete na hora da luta.
– O que projeta para o futuro? Já recebeu algum convite para tentar o MMA?
– Já recebi convites sim, mas estou muito feliz no jiu-jítsu e não tenho tido tempo para mais nada. Estou com alguns projetos on-line com um sócio que caiu do céu para mim. Vou dormir todos os dias às 3h, trabalhando on-line. Acordo, vou treinar, volto para o computador, treino de novo, dou aula. Não tenho tempo nem vontade de me envolver com o MMA. Talvez um dia como técnico, mas não como lutador.
– O que representa Juiz de Fora para você? Viveu quantos anos por aqui?
– Acho que Juiz de Fora representa a minha base. Foi onde construí minha base na vida e no jiu-jítsu. Vivi aqui durante 21 anos, e é onde está minha família, meus amigos de infância. Juiz de Fora representa muito para mim. Foi onde iniciei no jiu-jítsu, com o Ricardo Marques, uma das pessoas mais importantes da minha vida. Ele me ensinou a ser quem eu sou hoje no esporte. Tenho muita admiração por ele. É a pessoa mais simples, mais honesta e mais batalhadora que conheci. Acordei no dia das minhas finais, telefonei para ele, e assim que desliguei o telefone comecei a chorar. Quando eu lembro dele, de tudo que fez por mim e o tanto que gosta de mim, fico emocionado. É um cara fora de série.
– Quais recordações você tem de Juiz de Fora e do esporte?
– Tenho muitas boas recordações, muitos amigos. Vou carregar Juiz de Fora comigo para sempre. Mas não penso em voltar, só para passear mesmo. Vivi aqui 21 anos, muita gente já apostava em mim, e nunca tive um apoio da Prefeitura ou de qualquer outra empresa grande. As únicas que realmente me ajudaram foi a Vitasport, com o Felipe Polito, a Camorra, com o Oscar, e os alunos do Ricardo. O Brasil realmente não apoia o esporte, é muito triste, mas é verdade. Estou construindo minha vida nos Estados Unidos, e provavelmente vou viver lá para o resto da minha vida. Juiz de Fora vai ser só para visitar mesmo.
– Considera que o seu exemplo tem sido positivo para o jiu-jítsu, considerando ser uma arte marcial muitas vezes associada à violência por quem não conhece o esporte?
– Acredito que sim. Eu tenho consciência de que ser campeão traz uma grande responsabilidade de ser exemplo também. Então sempre procuro dar bons exemplos, respeitar todos, ser uma pessoa boa. Sou ser humano, tenho falhas também, mas assim como faço no jiu-jítsu, estou sempre tentando dar o meu melhor.

