Não é só porque foi contra o Corinthians. Essa comoção nacional experimentada ontem, essa onda de "o Boca é o Brasil na Libertadores", que deve arrefecer nos próximos dias para voltar a crescer a partir de segunda ou terça-feira e chegar ao ápice na quarta que vem, não é só despeito pela campanha corintiana, pela eficiente campanha corintiana, um tanto chata para quem não é fiel. Tem muita dor de cotovelo sim, é claro, afinal somos o país da dor de cotovelo, das pessoas que não são vagabundas, nem delinquentes, são apenas carentes e por isso dormem na praça, mas também tem a ver com uma questão de oportunidade. Como no carnaval, para ficar na abordagem antropológica do comportamento tupiniquim, o povo aproveita a final da Libertadores para sair do armário.
Existe essa rivalidade, aumentada de quando em quando pelo ufanismo do Galvão Bueno (vale ser ufanista e morar em Mônaco?) com aquele terrível bordão que diz que "ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor", mas é meio que uma relação de amor e ódio, pelo menos da nossa parte. Veja bem, a gente vai a Buenos Aires e volta com caneca do Boca, camisa do River – eu nunca fui, mas meus amigos trouxeram pra mim assim mesmo: caneca do Boca, camisa do River. Você vai à pelada e sempre tem alguém com uma camisa da seleção argentina. O amigo Renato Salles, corintiano, vai ao Barrio de La Boca e tira foto reverenciando um painel com a foto de Maradona.
Eu, na minha mastodôntica ignorância, posso estar enganado, mas não me lembro de ter visto hermanos desfilando com camisa do Brasil em Búzios (que é o mais perto que eu fui da Argentina). Nem acho que seja muito comum nas peladas em Rosário ou Lanús o pessoal suando camisas do Flamengo, do Vasco ou do São Paulo. Tampouco conheço história de um xeneize que tenha feito romaria até Três Corações para se ajoelhar aos pés da estátua de Pelé. Mas nós… nós gostamos de alfajor e de chorizo e de tango. E de vinho argentino também – mas aí só porque é mais barato que o chileno.
Então, quando chega a apoteose do futebol das Américas, sempre que tem um time brasileiro que não seja o nosso do lado de cá, fazemos isso: saímos do armário e, desvairados, pulamos a cerca para o lado de lá gritando "dale, dale, dale, dale…"
