Istalône Magno parou na frente do lateral, um moleque de 14 anos com corpo de lutador de vale-tudo peso-pesado, balançou as cadeiras, fez que ia, voltou, parou de novo e meteu-lhe uma lambreta. Liso, pegou a bola do outro lado antes mesmo de ela quicar no chão. Vendo aquilo, abobado, o treinador não titubeou e soprou seu apito!
– Pópará, pópará, pópará!! Ô Istalône, meu filho… quê que é isso?
– Quê que foi, professor?
– Quê que foi? Vem aqui. Vem aqui!
As pernas esquálidas conduziram o corpo desengonçado do garoto até a beira do gramado.
– O quê que foi aquilo ali que você fez, heim?
– Dei uma lambreta nele, professor.
– Ah, deu né? Muito bonito… Isso aqui não é circo não, rapaz! Por quê que você não recolheu e distribuiu o jogo? Ou não foi à linha de fundo pra cruzar pra trás? Futebol é coletivo! Viu? Vai lá, vai lá.
Cinco minutos depois, Istalône Magno pegou uma bola no meio de campo para armar o contra-ataque. Deu no atacante, que fez o pivô, recebeu de volta e partiu em direção ao gol. O lateral veio e lhe deu um carrinho de lado, ele se reequilibrou e seguiu em desabalada carreira, e veio o zagueiro e lhe deu um sarrafo, e ele saiu de cata-cavaco, retomou o rumo e alcançou a bola, mas aí… priiiiiiii!!!
– Istalône!!! Por quê que você não caiu, meu filho??? Os caras te enfiaram a botina…
– Mas deu pra continuar, professor…
– Continuar é o diabo que te carregue, Istalône!!! Tem que cair, inferno! Encostou, cai! Encostou, cai!! Quantas vezes eu tenho que repetir, santa madre??? Encostou, cai!!!
O trabalho seguiu e, lá pelo meio do treino, falta rente à área para o time de colete vermelho. Istalône Magno pegou a bola e botou no ângulo. Um golaço. Como se fosse jogo de verdade, o menino saiu desembestado pelo campo, arrancou o colete, rodou por cima da cabeça e dançou com a bandeirinha de escanteio. O treinador, paciência esgotada, não pensou duas vezes: priiiiiiiiii!!!
– Istalôôôôôneee! Tá fora! Pro chuveiro! Sai, sai, sai, sai!!! É cartão vermelho pro senhor aprender!
No outro dia de manhã, Istalône Magno não apareceu para treinar. Resolveu entrar no projeto de xadrez da escola, porque futebol estava muito chato.
