Carlos Pernisa tinha 7 anos de idade quando calçou chuteiras pela primeira vez na vida. De lá pra cá, a paixão pelo futebol só aumentou. Prestes a completar 81 anos de idade (em outubro), ele ainda usa o calçado para disputar o esporte que lhe rendeu muitas conquistas. Neste domingo (26), Pernisa e outros três colegas, de 77, 79 e 81 anos, entram em campo para disputar a primeira etapa do tradicional Campeonato de Faixas Etárias do Clube do Papo. “É uma terapia”, atesta um dos mais velho do grupo, que é médico especializado em ortopedia e, segundo ele próprio, “fominha de bola”. “Jogo, pelo menos, duas vezes por semana com os companheiros do clube.”
Antes de cursar medicina, o futebol era seu foco principal. Aos 15 anos, Pernisa jogava pela categoria infantil, até que o então presidente do Tupi, José Calil Ahouagi, visitou o campo e o convidou para atuar na categoria juvenil do time. “Uma conquista como jogador foi ter sido campeão invicto pelo juvenil em 1956. Há muito tempo o Tupi não era campeão nessa categoria”, conta orgulhoso, mostrando fotos que guarda da época em que era artilheiro.
Com os recortes, o médico cita com alegria alguns dos companheiros de time, como o técnico Zú e os jogadores Mauro, Aroldo Dias e Jorge Ramalho, e relembra histórias curiosas. “O Tupynambás jogava muito, o nosso futebol era bem concorrido. O roupeiro do Tupi chamava Tião e fazia macumba para o Tupi ganhar, colocando o nome do melhor jogador na boca do sapo. Mas o Tupynambás também tinha o roupeiro, Jaime, que fazia macumba. Aí quase sempre terminava em empate”, ele conta entre risos.
Em 1958, Carlos Pernisa trocou a bola pelo estetoscópio e ingressou na faculdade de medicina. Mas a paixão pelo futebol o levou de volta para o Carijó como integrante da equipe médica. Apesar da dedicação ao time juiz-forano, seu coração bate forte é pelo Vasco. “Roberto Dinamite era o meu ídolo.”
Entre vários esportes
“Brasileiro já tem no sangue café, samba e futebol. E quando é mineiro ainda tem o queijo”, brinca o militar reformado Vicente Soares, 79, que atua como lateral no campeonato. “Desde criança brinco de bola”, conta o homem nascido em Araguari (MG) e acostumado a nadar em rios. Ao futebol e à natação, ele acrescenta outra prática esportiva: a corrida, que já lhe rendeu algumas medalhas.
Vicente cresceu em uma família humilde, sem a presença do pai desde 1 ano de idade, e precisou ajudar a mãe quando ainda era jovem. Aos 16 anos foi para Belo Horizonte onde morou por quatro anos e aos 18 ingressou na carreira militar. Já em Juiz de Fora, formou-se em economia em 1965 e atuou como professor. E apesar de ter o esporte como paixão, nunca pensou em seguir carreira como atleta pela incerteza do futuro esportivo. Porém, jamais parou de competir.
Hoje, Vicente guarda mais de 20 medalhas, duas delas da Corrida Duque de Caxias de 2012 e 2014, além de campeonatos de futebol e futsal. Seu maior carinho é pelos prêmios que ganhou no Clube do Papo, que frequenta há 50 anos. A paixão dele pelo torneio é tanta que, em 2012, chegou a competir por duas equipes. “Machucou um rapaz, e o capitão do outro time me chamou para jogar com eles. Eu acabei jogando o resto do campeonato no time deles, porque a contusão do rapaz foi muito grave. Só não joguei para eles quando foram jogar contra o meu time. No final do campeonato, eu tirei o terceiro e o primeiro lugar ao mesmo tempo”, conta.
Dentre os jogadores da sua idade, ele se considera o maior corredor e comemora sempre que joga de colete azul. “Sou cruzeirense”, explica.
Disposição
Os médicos José Geraldo Teixeira, 77 anos, e Alberto Aloísio, 81, sorriem ao ver o recorte do antigo “Diário da Tarde” noticiando o primeiro campeonato do Clube do Papo em 1968, quando a agremiação foi fundada. “O clube nasceu após um torneio de futebol de profissionais liberais, que resolveram criar um clube para ter um lugar para fazer seus campeonatos”, conta Teixeira.
A competição entre amigos acabou motivando o endocrinologista Aloisio, que, dedicado inteiramente à profissão, dizia não ter tempo para esportes. “Jamais jogava bola e, de repente, os colegas que participavam do campeonato me convidaram para jogar.” O médico aceitou o convite e não parou mais. Trinta anos depois, continua entrando em campo sempre que convocado. “É um incentivo para manter a forma e se alimentar corretamente, o que melhora a saúde.”
No clube, ele conquistou alguns campeonatos no time formado por torcedores do Tupi. Este ano, participou da Copa Bahamas para maiores de 60 anos e levou um troféu para casa. Para Aloisio, o esporte trouxe disposição e ainda mais fôlego para trabalhar.
Campeão do torneio do em 2006, contra os torcedores do Flamengo, o botafoguense José Geraldo Teixeira concorda com o colega sobre os benefício proporcionados pelo esporte, sobretudo na terceira idade. “Além de cuidar da mente, para não enferrujar, tem que cuidar dos músculos, dos ossos. Continuo praticando para ter um estímulo.”
