Além de motivo de comemoração, o centenário é também um incentivo para resgatar e relembrar a história do clube. Entre fatos comprovados e versões de quem conviveu com figuras ilustres em épocas importantes do Carijó, presenciou os acontecimentos ou tomou parte efetiva neles, a coleção de lembranças dos 100 anos do Alvinegro de Santa Terezinha veio à tona com grande intensidade conforme foi se aproximando o aniversário do Tupi.
Com 80 anos de Tupi – ele conta que, com 5 anos de idade, foi à inauguração do Estádio Salles Oliveira, em 1932 -, o atual presidente do conselho deliberativo e ex-treinador do clube, Geraldo Magela Tavares, ouviu a história da fundação do clube de um dos participantes do ato. "Sei dessa história por conviver com muitos que também tiveram contato com o grupo que fundou o clube e de relatos do próprio Othelo Rossi (primeiro tesoureiro do Carijó), que há 30 anos ainda estava vivo. O Tupi nasceu para o futebol, como um time de futebol. E veio do Tupynambás. De quem não jogava, pois só podiam atuar 11. O nome e as cores escolhidas – o preto e branco em oposição ao vermelho e branco do Baeta, adotadas oficialmente em 1914 -, inclusive, eram uma afronta ao rival", conta.
Segundo o jornalista e escritor Ailton Alves, assessor de imprensa do Carijó e que realiza um levantamento visando o resgate da memória por conta do centenário do clube, o surgimento do Tupi vindo do Tupynambás não tem registro histórico, embora haja pelo menos um indício de que isso pode ter acontecido. "O Magela conta isso. Mas nas pesquisas documentais e consultas com historiadores que realizei, não encontrei nenhuma comprovação. Embora um dos fundadores do clube seja Eduardo Viviani (primeiro vice-presidente), que também é um dos fundadores do Baeta", explica.
Desde o princípio de sua história, o Tupi parecia criado para feitos surpreendentes. Depois de ingressar nos campeonatos oficiais de Juiz de Fora em 1918 e conquistar os títulos de 1921, 1923 e 1926, o clube desafiou o então campeão carioca, São Cristóvão, que havia conquistado o título com vitórias expressivas como as goleadas de 5 a 0 e 5 a 1 no Flamengo, e 6 a 3 no Botafogo. "O clube do Rio de Janeiro vinha em sua melhor campanha de todos os tempos e, jogando em Juiz de Fora, não resistiu e perdeu para o Tupi, por 2 a 1", conta Magela.
Em 1931, o clube se reorganizou, sob a batuta de Francisco Salles Oliveira, como associação esportiva civil, desta vez com inscrição como pessoa jurídica. Um ano mais tarde inaugurou seu estádio em Santa Terezinha e, em 1933, participou do primeiro Campeonato Mineiro da era profissional, conquistando seis vitórias, três empates e quatro derrotas, 34 gols a favor e 27 contra, em 13 jogos, o que deu o vice-campeonato ao Carijó. Mesmo assim, o clube de Juiz de Fora se retirou das competições profissionais do estado até 1969, dedicando-se às disputas regionais.
Época de crises no Alvinegro
Entre 1935 e 1954, o Tupi conquistou 12 títulos do campeonato de profissionais da cidade, que tinha caráter regional, contando com equipes tradicionais dos municípios vizinhos, como Olimpic, de Barbacena, e Social, de Santos Dumont.
Na década seguinte, o Alvinegro repetiu o ineditismo que parece permear sua história, sendo o primeiro clube juiz-forano a vencer um jogo no Rio de Janeiro, batendo o Botafogo do goleiro Manga, por 3 a 2, em amistoso em General Severiano. Essa equipe já contava em seus quadros com lendas carijós como o zagueiro Murilo, e os atacantes João Pires e Toledinho, que, mais tarde fariam parte da equipe histórica conhecida como Fantasma do Mineirão. Mais tarde, em 1969, o time de Juiz de Fora voltava à disputa do Campeonato Mineiro.
Para tristeza dos carijós, o início da década de 1970 veio com crise financeira e o fechamento do departamento de futebol profissional do Tupi, em 1973. Mas a situação não durou muito e, em 1975, o Alvinegro voltava aos campos e conquistava o Torneio Integração Regional, com nomes como o zagueiro Júlio Maravilha e o meia Samarone em ação, conquistando também o bi-campeonato da cidade de 1977 e 1978. O desempenho animou os diretores, que planejaram a volta ao Campeonato Mineiro, que aconteceu em 1980.
Depois de campanhas regulares no Estadual, o Carijó conquistou, em 1985 seu primeiro título do interior. E depois de um período sólido na Primeira Divisão, em 1994 o clube se uniu aos rivais Sport e Tupynambás no projeto do Manchester, que tentou usar a vaga do Tupi na elite. Como não conseguiu, o novo clube teve de disputar a Segunda Divisão, conseguindo o acesso para a Primeirona. Mas, apesar disso, o Manchester foi extinto em 1995.
Mesmo amargando a disputa da Segundona do Mineiro por dois anos sem conseguir o acesso, o Tupi bateu na trave de conseguir uma vaga na Série B do Brasileiro em 1997. Após vencer nas duas das três primeiras rodadas do quadrangular final, o Carijó precisava apenas de mais 3 pontos nos três últimos jogos para subir. Mas acabou perdendo em casa e em sequência para a Francana, por 1 a 0, e para o Sampaio Corrêa pelo mesmo placar, em uma das partidas mais traumáticas para a torcida juiz-forana. "Tínhamos tudo para subir. Infelizmente, não conseguimos no Estádio Municipal e, na última rodada, jogamos fora com o Juventus. Saímos na frente, mas não seguramos. Faz parte do futebol, mas poderíamos ter subido", relembra Zé Luis, ex-goleiro do clube. "Era uma grupo muito bom, fizemos uma boa campanha, queríamos dar isso para o torcedor. Foi uma pena", lamenta o ex-técnico Jair Bala.
Século XXI chega com títulos
Logo no início do novo século, o Tupi, que vinha de um período de litígio com as conquistas, fez as pazes com a vitória. Comandando um time desacreditado, o estreante técnico Wellington Fajardo venceu o Módulo II de 2001 e reconduziu o Carijó à elite de Minas Gerais. "Foi fantástico. O clube me deu a primeira oportunidade como treinador da carreira, sempre dizíamos que estávamos preparando a equipe para 2002, com a maioria de atletas feitos na base. Mas as coisas foram se encaixando e, com muitos méritos, conquistamos o título", conta o ex-comandante carijó.
De volta à elite, em 2002, o Tupi fez boa campanha, ainda sob o comando de Fajardo. No ano seguinte, com a parceria firmada com o a rede de supermercados Bretas, contratou o centroavante Müller, agitando o futebol mineiro. O time conseguiu seu segundo título de campeão do interior mineiro, mas o acordo de gestão com o patrocinador, que era de cinco anos, terminou ao fim do primeiro, por divergências com a diretoria.
Sem apoio forte, o Tupi até começou 2004 empolgando o torcedor, contratando jogadores experientes como o lateral-direito Pimentel, ex-Vasco. Mas terminou o Mineiro rebaixado para o Módulo II. O ano seguinte foi de campanhas fracas. Mais uma vez correndo o risco de fechar as portas de seu departamento de futebol, o clube apostou em uma solução caseira, chamando Zé Luis Peixoto, ex-goleiro do clube, para comandar a equipe. "Foi um campeonato, do início ao fim, de superação. O clube quase não dispunha de recursos, fizemos uma peneira. E o ano todo foi baseado em muito trabalho e pensamento positivo", lembra.
O pós-jogo da volta do Tupi à elite de Minas foi particularmente emocionante, com diversas pessoas, entre jogadores, torcedores, diretores e integrantes da comissão técnica abraçados e ajoelhados no meio de campo do Estádio Municipal. Mas o comandante não estava junto com o grupo. "Cheguei a pensar que não conseguiríamos subir depois do empate com o Mamoré (1 a 1, em Juiz de Fora) e da derrota para Valério (2 a 0, em Itabira). Mas o Marcelo (Matta, preparador físico) me deu uma grande força e fomos para a última rodada. No momento daquela corrente, não sei se é por que fui goleiro, me isolei no banco, rezando, só. Quando tudo deu certo, foi fantástico", conta Zé Luis.
A temporada de 2007 veio com o vice-campeonato da Taça Minas Gerais. Mas em 2008, o Carijó, depois de ser novamente campeão do interior, levantaria esse troféu, outra vez sob o comando de Wellington Fajardo. "Peguei um grupo eliminado da Série C e disse a eles que raramente no futebol se tem uma segunda chance, e aquela era uma. Conseguimos aproveitar e vencemos o tradicional América-MG que, com aquela base, chegou até a Série A do Brasileiro. Foi especial", considera.
Os 30 do Arruda
Em 2009, o Tupi ficou a um gol do acesso à Série C, e o ano seguinte teve campanhas sem grandes sustos ou aspirações. Mas 2011 reservava ao Carijó a maior conquista de sua história centenária. Após um Mineiro regular, o clube herdou a vaga na Quarta Divisão do Juventus de Minas Novas. Jogando em um grupo com maioria dos times do Centro-Oeste, os juiz-foranos se classificaram, subiram para a Terceira Divisão e chagaram à final com o Santa Cruz.
Depois de vencer em casa por 1 a 0, o time juiz-forano e um grupo de 30 torcedores da cidade encararam o Mundão do Arruda, calando, ao final do jogo, mais de 53 mil pessoas. "Tinha sonhado com aquela cena do Ademilson levantando a taça e os papéis prateados voando. Tinha que ir a Recife ver de perto. Acabei vendo o sonho se concretizar e com uma torcida contra que nunca havia visto igual. Foi felicidade pura", conta Rafael Laque, um dos 30 juiz-foranos presentes ao Arruda.
Alguns torcedores estavam confiantes no título antes mesmo de a decisão começar. "Comprei minha passagem na quarta-feira, antes da primeira partida. Então, cada chegada do Santa em Juiz de Fora, meu coração gelava. Defendi cada bola com o Rodrigo. Mas por tudo que vinha acontecendo, lá no fundo acreditava que seríamos campeões", conta Gabriel Jung, outro dos torcedores presentes em Recife.
Em campo, além da pressão dos torcedores adversários, os atletas puderam sentir também a vibração dos poucos carijós no Arruda. "Se eu falar que a torcida deles não me assustou, vou estar mentindo. Mas, foi maravilhoso poder marcar um gol, entrar para a história do clube e ouvir os gritos dos 30 carijós calarem o restante da enorme torcida do Santa Cruz. Ficou na memória para sempre", relembra o atacante Allan.
Para o capitão Ademilson, a conquista do ano passado coroa uma evolução do clube. "Essa conquista representa muito. É a consagração de um trabalho que vem evoluindo. Pelo menos desde 2007, quando cheguei aqui, o clube vem crescendo, e isso culminou com a vitória na Série D. Agora é continuar nesse caminho para buscar objetivos mais grandiosos."
