
Sorriso no rosto e bola nos pés. Mesmo com as dificuldades já vivenciadas no Haiti, é assim que os jovens acolhidos pela Academia de Futebol Pérolas Negras, projeto esportivo e educacional que atende atualmente mais de 150 crianças e adolescentes entre 11 e 20 anos do país caribenho, encaram a oportunidade concedida não apenas no futebol, mas de formação pessoal, objetivando auxiliar suas famílias no país que encabeça há anos lista dos mais pobres do continente. Há seis anos na coordenação e no comando técnico da equipe profissionalizante, o juiz-forano Rafael Novaes Dias, 35 anos, não esquece de cada capítulo da evolução alcançada, como relatou à Tribuna em entrevista exclusiva, vencendo amistoso sobre o Sport e empatando com o Uberabinha/UFJF.
“Desde 2011 estou lá e vi um país carente de trabalho, com uma lacuna muito grande na formação. O projeto chegou para suprir isso. Os meninos tinham um sonho de ser jogadores, mas faltavam muitas coisas. O projeto está fazendo seis anos e já começou a colher frutos, com atleta contratado fora do país, outro na seleção principal, alguns na sub-20, o que nos faz ver que o trabalho a longo prazo surte efeito. A molecada hoje atua em uma filosofia de jogo com a bola no pé. Quando chegamos, era só chutão, muito contato. Hoje qualquer time nosso tem saída de bola no chão e transição rápida, explorando o potencial de velocidade dos meninos”, conta Rafael.
Quando promovido ao time sub-17, cada jovem tem a chance de treinar no Brasil, no centro de treinamento em Paty do Alferes (RJ), graças à parceria com a Viva Rio. “O projeto fez um ano no Brasil com disputas de duas Copas São Paulo, Copa Alterosa, Carioca em parceria com o Audax e agora estamos entrando no processo de profissionalização. Os meninos que começaram em 2011 com a gente e estiveram aqui em 2014 e 2015 estão chegando na fase adulta, e a ideia é dar chance a eles. Isso vai encaixar tudo. Continuamos com o trabalho de formação no Haiti e, depois disso, é aqui no Brasil, onde há outras oportunidades. Estamos criando raízes, contatos para levar os meninos ao mercado”, explica o treinador.
O crescimento é tão nítido que o Pérolas Negras se filiou à Federação Carioca para disputa de divisão inferior do Estadual, já comanda a gestão da Seleção Haitiana sub-17 e está próximo de novas conquistas importantes. “Estamos tentando tirar o certificado de clube formador, já possuímos um campo e seguimos nos adequando às exigências para isso, o que não é fácil, tanto que alguns clubes grandes não têm. Vamos entrar nesse eixo para futuramente também trabalhar com jogadores refugiados, não apenas haitianos, mas de outros países também”, revela Rafael, que também busca dar alegria ao povo haitiano com uma classificação à Copa do Mundo sub-17, resultado que não acontece no país há dez anos.
Sonhos, cursos e humildade
Entre os destaques do Pérolas Negras, já vivendo no Brasil, estão o atacante Valdo Etienne e o zagueiro Guilhaume Jimmylson, selecionados por Rafael após atuações em campos do Haiti, e apaixonados por “frango e macarron”. Com apenas 16 anos, a dupla já tem certo domínio do português e meta na ponta da língua. “Quero ser profissional no Brasil para ajudar a minha família”, conta o jovem defensor, fã do beque Lúcio, pentacampeão do mundo pelo Brasil em 2002.
Além de talentosos, os jogadores se preocupam em auxiliar a família. “No sub-17 e no sub-20, eles recebem uma ajuda de custos. Noventa e cinco por cento dos meninos compram uma coisinha para usar e mandam o resto para a família no Haiti. É legal isso porque é difícil ver meninos dessa idade tendo a oportunidade de comprar algo mais caro mandando o dinheiro de volta. A família fica toda feliz”, relata Rafael.
Valdo, coringa da equipe de acordo com Guilhaume, se espelha em Lucas Moura, do PSG (França), e não tira o sorriso do rosto mesmo ao lembrar o pouco contato com os parentes, por também ter construído uma segunda família. “Fico aqui no Brasil, mas falo com minha família no celular pelo WhatsApp. Mas fico mais no quarto com o Guilhaume conversando e tenho que elogiar quando jogo com ele”, sorri.
Se o futuro não for na bola, contudo, cada jovem terá potencial explorado, finalizando um projeto planejado em cada etapa. “São meninos carentes, e estamos trabalhando a cabeça deles também, tentando aproveitar todos. Aqueles que não conseguirem equipes irão passar ou ter passado por cursos profissionalizantes, além de um nivelamento do português. Temos aula de computador, de línguas”, diz Rafael.
