A qualquer momento, um juiz-forano irá entrar no ringue da European Jiu Jitsu Championship, em Lisboa, Portugal. Leonardo Saggioro, 30 anos, mais conhecido como Cascão, irá representar neste domingo (26) a equipe Brazilian Top Team (BTT), em uma das provas mais importantes de seu calendário. A intenção é adicionar uma nova medalha ao seu vitorioso currículo. Com faixa preta e peso pena, ele já conquistou dois campeonatos brasileiros, foi duas vezes vice-campeão mundial (IBJJF), e uma vez campeão mundial World Pro (UAEJJF). Seu feito mais recente foi a conquista do título do King of Mats, na etapa do Rio de Janeiro do Abu Dhabi Grand Slam, que aconteceu em novembro, no Parque Olímpico.
“O Campeonato Europeu tem mais atletas do que o Mundial, e tem um nível técnico tão difícil quanto. É um desafio para todo mundo. Pelo fato de ser em Lisboa, normalmente o brasileiro não precisa de visto e, por isso, tem muitos participantes. Então, a expectativa é boa, porque espero lutas de alto nível para começar o ano”, conta o atleta que há quatro anos atua como professor pela equipe, no Canadá.
Cascão, começou a lutar aos 13 anos e foi nessa época que ganhou seu apelido, por conta do corte de cabelo que lembrava o personagem da Turma da Mônica. Segundo ele, a disciplina sempre fez parte de sua vida, mas foi intensificada com a prática do esporte. E é exatamente essa dedicação o seu diferencial na preparação para as competições. “Eu sempre brinco que a minha preparação é todos os dias. Nunca deixo de treinar e há 18 anos estou sempre dando meu melhor”. E assim deve continuar por toda a temporada. Neste ano ele ainda irá competir novamente o Pan-Americano, onde já chegou a ser campeão, e virá ao Brasil para competir o campeonato nacional. Com seis medalhas, sendo duas pratas no Mundial, novamente ele tentará subir ao lugar mais alto do pódio.
‘Tive que aprender do zero o inglês e a ser professor’
Em 2014, Leonardo conheceu o líder da equipe Brazilian Top Team durante o Rio Open, e o encontro lhe rendeu um convite para palestrar no Canadá. Passou dois meses no país norte-americano e se surpreendeu com o frio. Após regressar para o Brasil, em cerca de um ano veio o convite para se mudar e enfrentar um novo horizonte. Seu destino era Quebec, Montreal, e os desafios não seriam poucos. “Eu nunca dei aulas em Juiz de Fora, era apenas um atleta e vim para cá sem experiência nenhuma. Tive que aprender do zero o inglês e a ser professor. Aqui me ajudou a ter disciplina, aprendi a entender os alunos”, conta ele, que há quatro anos ensina em uma das filiais da equipe.
Como no Canadá vivem muitos imigrantes, a própria academia é um prato cheio para a diversidade cultural. Leonardo conta que além dos alunos locais, asiáticos e africanos também praticam na equipe. No entanto, ele afirma não sentir muito apoio na região onde mora e, quando chegou, o jiu-jítsu era uma modalidade quase desconhecida.
“Aqui não tem muito incentivo para o esporte, acho que até menos que no Brasil, mas trabalhando (na área), não precisamos tanto de patrocínio. O esporte aqui é o hóquei e só. O jiu-jítsu não era tão famoso aqui, a BTT foi uma das primeiras na cidade e ninguém conhecia a modalidade. Mas com o tempo, as pessoas viram que o jiu-jítsu é diferente das outras lutas, porque é para todos. Qualquer pessoa pode treinar, seja uma criança de 5 anos ou um senhor de 80. É um esporte seguro, em que você não se machuca, e também dá qualidade de vida. Aqui, quando chega o inverno, só dá para praticar o snowboard ao ar livre, então o jiu-jítsu cresceu muito (por ser praticado internamente).”
Apesar de ter a luta como hobby, a equipe também já viu atletas despontarem. “O Georges St-Pierre passou pela academia onde trabalho, e hoje é considerado um dos melhores lutadores de MMA, tendo superado o Anderson Silva na defesa de cinturão. E nos quatro anos em que estou aqui, treinei a atleta Brianna Ste-Marie desde a faixa branca, e ela já ganhou diversos títulos mundiais. Ela tem 23 anos e acabou de ser campeã mundial, na faixa roxa”, conta o professor orgulhoso.
Apaixonado pela oportunidade e pela cultura, Leonardo diz que não pretende voltar ao Brasil. “A vida aqui é bem diferente. Para o esporte, aqui é bem melhor para mim, pois no Brasil está muito difícil. Se um dia eu tiver que voltar, não me importaria, mas prefiro ficar”, confessa. A verdade é que o atleta-professor pretende descobrir para onde a vida o levará. Entre tantos planos, ainda há a realização de pelo menos dois sonhos. “Eu pretendo ser campeão mundial pela IBJJF (Federação Internacional Brasileira de Jiu-Jítsu), mas pela conquista pessoal, para me superar, não para provar que sou ‘o melhor do mundo’. E um dia quero abrir minha academia, ainda não decidi em que país.”
