
Nunca, nos cinco anos de participação da Superliga, o time de vôlei que representa Juiz de Fora fez um turno tão ruim. O JF Vôlei perdeu todas as 11 partidas que disputou. Com diversos dificultadores, começando pela perda da verba que a UFJF destinava à equipe, passando pela demorada – e não concretizada – negociação com o Flamengo, e culminando na postergação da montagem do elenco, a equipe luta para vencer os percalços e se manter na elite do voleibol nacional. Em entrevista à Tribuna, o diretor-técnico do projeto, Maurício Bara, não esconde os problemas.
Mesmo tento prospectado cerca de 150 empresas, e estabelecido algumas importantes parcerias, Bara diz que o saldo no caixa é negativo. “Hoje, estamos com um orçamento de R$ 300 mil, ainda não completos. Temos que agradecer todos os parceiros, senão nem teríamos iniciado”, conta.
Para garantir a manutenção do projeto, iniciativas, como o sócio-torcedor, buscam se desprender das empresas e captar recursos próprios. O programa, iniciado nesta temporada, é uma das apostas para a mudança do sombrio cenário financeiro vivido em 2015. Para 2016, Bara projeta um Ano Novo e um returno diferentes, com recuperação, dentro e fora de quadra.
– Tribuna: Onze jogos e 11 derrotas. Como está sendo assimilar esse início negativo de Superliga?
– Maurício Bara: É um duplo sentimento. Falar que não imaginávamos que isso podia acontecer é mentira. Por outro lado, há um sentimento de frustração porque estamos fazendo boas partidas, chegando próximo das vitórias. Em alguns jogos, o placar não condiz com o que apresentamos. Contra o Sesi-SP, por exemplo, lideramos dois sets. Talvez lá em julho, por exemplo, a gente esperasse essa dificuldade. Mas depois o jogo foi se acertando. No entanto, quando os resultados não vêm, o nível de stress aumenta.
– Ainda há todo o returno pela frente. Você ainda acredita na chance de classificação para os playoffs ou o planejamento para o segundo turno vai ser somar pontos para não ser rebaixado?
– A tabela está muito embolada. Ainda temos um espaço de melhora grande, tanto individualmente quanto coletivamente. Hoje dizer que iremos lutar pelo playoffs é muito complicado. Mas isso também era complicado nas últimas temporadas, e, em algumas delas, acabamos chegando perto da classificação.
– Mesmo no momento difícil, segundo estatísticas da CBV, há jogadores do JF Vôlei se destacando, como Renato e Fábio Paes, por exemplo. Como você avalia isso?
– A sensação é que as coisas não estão tão longe da gente. O ponto positivo está sendo conseguir jogar contra as principais equipes em jogos duros. Fizemos jogos duros contra Sesi-SP, Taubaté, Brasil Kirin. Mas entre equilibrar e ganhar existe uma distância.
– Assim como em quase todas as temporadas, o time oscila bastante, apresentando bom nível em alguns sets e caindo de rendimento em outros. A que você atribui isso?
– Acho que uma coisa que o pessoal precisa entender é que estamos jogando nas condições mais difíceis do mundo. Em termos de equilíbrio de jogos, a Superliga é uma das competições mais disputadas do planeta. O grosso da Seleção Brasileira joga nas equipes do país. Para uma equipe como a nossa, não é fácil ganhar um jogo fácil. Na verdade, nunca ganhamos um jogo com facilidade. As pessoas não têm uma noção real da dificuldade da competição. Quando você entra mais fragilizado, devido a uma série de fatores, como os que aconteceram de janeiro para cá na montagem da equipe, é mais difícil ainda. Já passamos por momentos tão difíceis quanto, mas estávamos muito melhor, em termos de equilíbrio e orçamento.
– Como está sendo a relação com o torcedor neste momento difícil? O apoio prevalece?
– Uma coisa é o torcedor que vem ao ginásio. Incrivelmente, não tivemos baixa no público. Estes torcedores são fiéis e entenderam a nossa dificuldade. O sacrifício é enorme. Não podemos nos dar ao luxo de nos abater com as críticas.
– Já passou pela sua cabeça a possibilidade de rebaixamento? Caso isso aconteça, o projeto continua?
– Cito o exemplo do São Bernardo para os jogadores, a equipe que passou por situação semelhante à nossa. Caiu e está se preparando para voltar. Em alguns anos estivemos perto disso (rebaixamento) também. Não podemos sofrer antes de acontecer, mas, se acontecer, vamos lutar para voltar. Acreditamos também na nossa história, de buscar fôlego no returno.
– Hoje a cidade tem o Tupi na Série B, o handebol na 1ª divisão e o time de vôlei também na principal competição da modalidade. Mas nenhum projeto apresenta segurança. Como você analisa a participação das grandes empresas locais no esporte da cidade?
– Nós, apesar de todos os recursos, não conseguimos cobrir os custos. Estamos no vermelho. Nós temos trabalhado para reverter isso, mas estamos no negativo. Sou torcedor do Tupi, fui preparador físico do time, através do apoio que a UFJF ofereceu ao time. Em termos de planejamento, de gestão, as equipes não têm segurança. Os atletas do nosso elenco do ano passado, por exemplo, queriam continuar. Mas, quando o mercado girou, estávamos completamente fora. Em praticamente nenhuma temporada tivemos segurança para manter o elenco.
– Qual seria o orçamento ideal para estar entre os oito melhores da Superliga?
– Um orçamento confortável gira em torno dos R$ 2 milhões. Hoje, estamos com um orçamento de R$ 300 mil, ainda não completos. Não estamos com o menor orçamento da temporada, estamos com o menor orçamento de toda a história da Superliga. Temos que agradecer a todos os parceiros, senão nem teríamos iniciado. Mas estamos longe de orçamento confortável.
– Você acredita que a nova eleição para Reitor pode trazer a UFJF de novo como principal investidora da equipe?
– Vivemos hoje um outro retrato. A federal tem ajudado muito, mas não esperamos isso. Já retiramos alguns treinamentos da universidade, levando para o Clube Bom Pastor, parceiro da base. Os trabalhos físicos foram transferidos para a Fibratech. Entendemos que, no atual momento, a UFJF tem outras prioridades.
– Como os jogadores estão enfrentando essa sequência de derrotas?
Quando eu sentei com cada um dos jogadores e membros da comissão técnica, a gente explicou o que tínhamos para oferecer. Alguns toparam, outros não. No entanto, o mercado como um todo tem vivido um momento turbulento. Eles assimilam com preocupação não só com a gente, mas com o mercado. O atleta chega, tem que se adaptar. Manter o projeto, sempre com atletas diferentes, também dificulta.
– Com mais patrocínios em mãos, em que a equipe seria diferente?
– Não digo que seria diferente em termos de jogadores, mas em tempo de preparação. Uma coisa é receber o atleta em junho, outra é contratá-lo em outubro, próximo ao início da competição.
– Está sendo feito algum trabalho psicológico com os jogadores?
– Às vezes, as pessoas pensam que tudo é a questão emocional. Mas tem a questão técnica. O esporte é pressão mesmo. O professor Renato (Miranda) tem feito um bom trabalho com os meninos. O início de calendário não foi bom para gente. Demoramos a fechar o elenco, viajamos muito. Mas agora estamos com um espaçamento. Voltaremos no dia 9 de janeiro e faremos alguns jogos consecutivamente em casa. Confiamos no nosso bom retrospecto no segundo turno e esperamos passar a somar pontos.

