Biografia não autorizada
Sou boleiro, mas sempre gostei de ser celebridade. Ganho R$ 500 mil por mês. Não tenho razão para esconder isso. É fruto de minha infância pobre. Sou profissional, mas penso que posso fazer tudo o que quiser. Por isso, tenho grande preocupação com a aparência. Flano como uma ave posuda em campo. Sempre com a intenção de não atrapalhar meu penteado de visual descolorido. As meninas ficam roucas nas arquibancadas gritando meu nome, enquanto os machões torcem o nariz. Eles só querem que eu corra em campo. Eu pergunto a mim mesmo: ‘pra quê?’ Sou estrela mundial. Não preciso sujar o calção na grama. Deixa isso para o brucutu da camisa 5. Meu negócio é sair nas revistas, posando com filha de bacana e ‘artista’ da Globo. Se preciso, pago. Dinheiro não é o problema.
Tem uns caras pichando meu nome no CT. Coisa de fanático. Não me mexe comigo. Estou feliz com meu momento, meu clube e as chances na Seleção. Errar um lance, como um pênalti, acontece com qualquer um. Comigo não é diferente. Sei do meu potencial. Se achar que devo cobrar com cavadinha em um momento decisivo, vou cobrar. Tenho personalidade. Não vai ser um bando de loucos que vai me fazer mudar ideia. Treino assim. Aliás, jogo como treino. A mesma vibração. Tem quem diga que é displicência. Falta de vontade. Não ligo. Outro dia, um garoto quis escrever uma biografia minha. Gostei da ideia. Achei que ia ser meio ‘Caras’. Desisti quando vi uma entrevista da mulher do Caetano. Agora, só vai falar de mim quem eu autorizar. Não tenho que dar satisfação para torcedor. O quê? O jogo? Só posso dizer que estou muito feliz.
