A Copa Prefeitura/Bahamas de Futebol Amador é o maior torneio da modalidade em Juiz de Fora. Em 2013, reuniu, em suas dez categorias, 346 equipes inscritas. Mas, curiosamente, um único bairro, o Dom Bosco, conseguiu classificar três equipes para o quadrangular final da competição na principal divisão em disputa, a adulta: AR Dom Bosco (o antigo Roma), Chapadão e Mixto (antigo Ousadia). Mas o que será que fez com que o bairro da Zona Oeste conseguisse abrigar tantos craques da várzea juiz-forana?
A Tribuna foi ao Dom Bosco atrás da resposta. O programa social "Bom de bola, bom de escola", atualmente desativado, e a proximidade com o antigo campo da Curva do Lacet foram apontados como fatores importantes para o sucesso, mas o fato é que a comunidade vive futebol, desde as crianças nas ruas até os homens nos botecos. "O futebol é tudo para a gente. É o nosso lazer e uma forma de unir o bairro", afirma o atacante do AR Dom Bosco, Luiz Alberto da Silva Júnior.
Apesar da quantidade de times, a rivalidade entre as regiões do bairro existe, mas de forma sadia. AR Dom Bosco e Chapadão têm origem na parte alta, enquanto a maioria dos integrantes do Mixto é da região mais baixa do bairro. "Após os jogos, a gente sai junto, faz churrasco, toma uma cervejinha. É um clima muito bom. Nessa semana, o assunto do Dom Bosco é a final da Bahamas", afirma o técnico do Mixto, Everton da Silva. O "coordenador-técnico" da equipe, que foi reorganizada no início desse ano, Wallace Anselmo de Assis, acrescenta que a união entre os jogadores é o segredo do sucesso na competição. "Somos amigos desde crianças, e o nosso principal objetivo é conseguir trazer essa taça para cá, mas é claro que cada um está lutando pelo seu time."
Fundado há três anos, o Chapadão é a equipe que foge um pouco do perfil, já que, atualmente, possui muitos jogadores de fora do bairro. "Estou desde o começo. Antes era só o pessoal da rua (Arminda Nunes Ribeiro), do Chapadão (região próxima à igreja católica do bairro). Agora tem uma galera de fora, que entrou para reforçar o time", admite o atacante Márcio de Souza.
Hoje, na última rodada do quadrangular semifinal da categoria adulta, no Campo do Benfica, os jogos são: Tô Maluco x AR Dom Bosco e Chapadão x Mixto. Todos ainda têm chances de garantir uma vaga na grande final da mais importante divisão da Bahamas, já que o Tô Maluco lidera a etapa com 5 pontos, o Chapadão tem 4, a AR Dom Bosco tem 2, e o Mixto, 1. A grande final da categoria está marcada para o dia 8 de dezembro.
Inserção
Para a gerente da filial do Dom Bosco da Associação dos Amigos (Aban), organização beneficente criada há 16 anos, Nely Falabella, o futebol é um caminho para realizar a inserção dos conceitos da instituição nos moradores. "Os jogadores são verdadeiros líderes da comunidade. São respeitados. O nosso objetivo é conseguir que esses mesmos conceitos do futebol – de amor à camisa, respeito, determinação – sejam utilizados fora de campo. O que queremos é que eles desenvolvam seus talentos. Acredito que o esporte e a arte disparam a provocação para a mudança das pessoas", afirmou.
A sede da Aban no bairro oferece oficinas de teatro, música e educação ambiental aos moradores. Recentemente, a instituição começou a apoiar a equipe do AR Bom Bosco. "Nós tentamos ajudar no transporte para algumas competições. Também conseguimos fechar uma parceria com a UFJF para que eles possam treinar lá. É impressionante como eles se superam. São um exemplo", elogia Nely. No dia 7 de dezembro, véspera da final da competição, será realizado o "almoço da vitória" na sede da instituição."Independente do resultados, eles são vencedores."
Saudades do Lacet
O campo da curva do Lacet, desativado no fim de 2008, era a principal área de lazer dos moradores do Dom Bosco. "Nós não temos uma pracinha ou uma quadra poliesportiva. Antes, tínhamos o campo do Lacet, mas agora estamos órfãos", lamenta o presidente da associação dos moradores do bairro, Luis Cláudio Nascimento Cardoso. Os jogadores também reclamam. "O Lacet era perto. Era o nosso ponto de lazer. Agora, só tem esse campo perto do estádio, mas a distância é grande e está em condições precárias. Não dá para levar a família para lá", reclama o atacante do Mixto, Jhonatan de Souza.
A Prefeitura reconhece que a demanda da região é grande e que faltam áreas para a iniciação esportiva no bairro. De acordo com o secretário de Esporte e Lazer, Francisco Canalli, o Executivo está em busca de verbas no Ministério do Esporte para reformar o novo campo do Lacet, localizado próximo ao Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, no Dom Orione. "Realmente, as condições do campo não são as ideais", admite. Além disso, o secretário informa que pretende retomar o programa "Bom de bola, bom de escola" na região. " Nós esperamos que em janeiro de 2014 o projeto já esteja de volta." O programa municipal acompanha o desenvolvimento escolar de jovens de 6 a 16 anos, dando apoio pedagógico e oferecendo a prática esportiva no período fora da sala de aula.
