Crise e evolução
O ditado rege que tem coisas que só acontecem com o Botafogo, o que é a verdade mais pura. E o legal – ou não – é que elas acontecem com certa recorrência. Assim, a bela estrela solitária traça, invariavelmente, sua trajetória entre o céu e o purgatório. Poucas semanas após se sagrar campeão carioca com todos os méritos, em um caminho guiado pela nobreza do futebol de Seedorf, o Glorioso se vê enfurnado em uma breve crise interna. O entrevero é protagonizado por um velho conhecido do futebol carioca: os salários atrasados. Sem a grana na conta, os jogadores alvinegros optaram por não se concentrar antes da partida contra o Corinthians, na estreia do Brasileirão, amanhã, em São Paulo. O torcedor pode ficar com a pulga atrás da orelha, mas a hora é de apoiar os campeões do Rio. Eles estão certos. O clube deve honrar seus compromissos. Ponto final.
A justa negativa do grupo botafoguense traz à tona o debate sobre a importância – ou não – das tais concentrações no futebol moderno. Sinceramente, o meu entendimento é de que já passou da hora da prática ser banida do esporte brasileiro. Chega de tratar jogador de futebol como criança. Em um mês, os caras ganham mais do que a maioria dos trabalhadores demora para receber em décadas. Com salários astronômicos, precisam ter a responsabilidade de se cuidar antes, durante e depois dos jogos. Sem precisar ficar trancafiados em um quarto de hotel. Aliás, cativeiro que pouco funciona em tempos de vídeo-games modernos, smartphones e internet ultrarrápida. Sem falar nas escapadelas ou nas visitas das moças de pouca fama no meio da madrugada.
A concentração é uma bobagem sem tamanho. Só contribui exatamente para atiçar a imaginação dos mais fanfarrões e seus planos ardilosos de fuga e orgia. Já dizia o mestre João Saldanha – ou seria Neném Prancha? -, se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto. O atleta deve, sim, estar concentrado no jogo e nos treinamentos. E só. De resto, deve ter o direito a uma vida normal, da mesma forma que deve pagar por suas irresponsabilidades como um ser humano normal. Há o precedente no futebol brasileiro de que é possível conciliar o fim da concentração e um bom desempenho dentro de campo. Basta lembrar o Timão, bicampeão paulista durante a Democracia Corintiana, liderada pelos cabeça feita Sócrates e Casagrande.
Se a sabedoria chinesa afirma que a crise é fonte para novas ideias, o motim dos atletas botafoguenses bem que poderia inspirar um novo pensamento no clube da estrela solitária. Que Seedorf lidere uma nova democracia alvinegra e os jogadores do Fogão consiga por fim à prática da concentração. Quem sabe aquelas coisas que só acontecem com o Botafogo não aconteçam para o bem e sirvam de exemplo para os demais times brasileiros.
