A diferença entre genialidade e mediocridade está no sacrifício. O que separa um fora de série de um cidadão comum é, além de um pouco de talento e um muito de trabalho, a capacidade de dizer não a tudo aquilo que a vida lhe oferece em prol de mais dedicação a determinado objetivo. Acredito descaradamente que qualquer ser humano, desde que provido de um mínimo de talento para seja lá o que for, pode se tornar exatamente aquilo que sonha. O que pega é o seguinte: vai abrir mão de quê para isso?
Para experimentar o amor por um filho… vai abrir mão da absoluta liberdade de não estar preso a ninguém? Para colecionar paixões a cada nova semana e conhecer lugares e pessoas e sabores e sensações, vai abrir mão da estabilidade das relações perenes? Para se tornar o maioral entre todos os C.E.O.s, seja lá que diabos isso signifique, vai sufocar seus laços pessoais em um escritório até que definhem e morram? Para ser o primeiro da turma, para passar no concurso, vai abrir mão do videogame, do futebol, do chopinho, do cinema? Nem que seja por alguns meses? Para ter o corpo perfeito, vai abrir mão do torresmo, da Coca-Cola, da pizza, do McDonalds e malhar três horas por dia de segunda a sábado?
É por isso que a maioria de nós é apenas medíocre no sentido correto do vocábulo segundo o Antônio Houaiss: "de qualidade média, comum; mediano, meão, modesto". Porque nós preferimos ser. Porque nós queremos de tudo um pouco, e não necessariamente o tudo de um pouco. O que talvez seja até mais sábio, não sei, mas não vou entrar neste mérito. Não somos muito bons em dizer não quando qualquer oportunidade de ter prazer _ em comer, beber, comer, se jogar no sofá – se escancara à nossa frente.
E mesmo os gênios são medíocres a maior parte do tempo – quando não estão cometendo suas genialidades. Mas é que se dedicam tanto ou têm talento tão anormal que conquistam feitos que os levam a patamares mitológicos, fazem deles uns fora de série. Chico Buarque é gênio quando escreve "Você não gosta de mim, mas sua filha gosta" e outras coisas. Mas também tem seus momentos de mediocridade. Quando joga bola, por exemplo. E Maradona, frequentemente um cidadão medíocre, é gênio quando faz aquele gol driblando até a Rainha da Inglaterra na Copa de 1986. E mais tantos outros. Só que esforço nunca foi o forte destes dois aí. Diferente de Steve Jobs, gênio E trabalhador dedicado.
E diferente ainda de Didier Drogba. Este cidadão marfinense, que fez o gol que colocou o Chelsea na decisão por pênaltis e, consequentemente, garantiu ao time britânico o título da Liga dos Campeões da Europa no último sábado, em cima do Bayern de Munique, tinha tudo para ser um jogador medíocre. Bom atleta e só, como existem bons jornalistas, tocadores de trombone e manicures. Drogba tem talento para uma coisa específica: fazer gol. E isso tem um monte por aí. Mas o afinco com que se dedica a balançar redes, a seriedade esfomeada com que encara seu papel dentro do espetáculo, o sacrifício a que submete seu corpo, sua mente, seu espírito… estes são os elementos que o tiram da mediocridade para fazer dele – não um gênio – um fora de série. O conjunto dos sacrifícios que Drogba fez ao longo da carreira e o comprometimento titânico de dar o melhor de si à camisa, ao esporte, ao público, o elevaram no último sábado ao status de mito para a torcida do Chelsea. E para muitos fãs do bom futebol. E aí eu me lembro de outro fora de série, um certo Dave Grohl, reverberando na minha cabeça oca o seguinte refrão: "Is someone getting the best of you?"*.
* "Existe alguém recebendo o melhor de você?"
