As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora no último mês deixaram marcas no esporte de base da cidade. No Bairro Industrial, na Zona Norte, o campo onde funciona a escolinha do Bonsucesso ficou completamente alagado, provocando prejuízos materiais, interrupção das atividades e dificuldades para a retomada do trabalho com as crianças.
À frente da iniciativa está Walmir de Lima, de 59 anos, que há cerca de três décadas atua na formação de jovens no bairro. Conforme apontado por ele, a enchente superou qualquer expectativa e comprometeu boa parte da estrutura. A água chegou perto do muro e invadiu áreas onde estavam armazenados materiais usados no dia a dia da escolinha.
Entre os itens perdidos estão uniformes e acessórios esportivos. “Short, meia e algumas camisas que estavam embaixo. A gente nem esperava que a água chegasse tão alto, porque tínhamos feito um vestiário mais alto justamente por causa disso”, explica. A rede do campo também foi danificada e, segundo Walmir, já não tem mais condições de uso.
Além do impacto inicial, uma segunda enchente agravou a situação. Walmir conta que móveis atingidos pela primeira tempestade acabaram sendo arrastados dias depois. “Quando veio a segunda enchente, acabou jogando tudo para fora. O portão tinha caído, e os móveis entraram todos para dentro do campo”, relembra.
Na parte estrutural, o portão foi um dos pontos mais afetados. Mesmo com os danos, o espaço vem sendo recuperado aos poucos com trabalho voluntário da própria equipe. “Agora, devagar, a gente está conseguindo colocar as coisas em ordem. Passamos a semana inteira trabalhando, e somos nós mesmos, da escolinha, que fazemos isso”, pontua.
A rotina de treinos também sofreu forte impacto. Segundo Walmir, a equipe ficou um mês e quinze dias sem atividades. Antes mesmo da enchente, a sequência de chuvas já dificultava a presença dos alunos. Neste ano, a intenção era ampliar os treinos de dois para três dias por semana, mas o planejamento precisou ser adiado.
Hoje, uma das maiores necessidades da escolinha é repor materiais básicos para que as atividades continuem. “O que a gente mais precisa é de ajuda com bolas para essas crianças”, resume. Segundo ele, a situação da água no local também exige cuidado. “A água daqui do campo a gente ainda não está usando. Tem bebedouro, tem tudo, mas por enquanto a gente prefere não usar. Então, se alguém puder doar água para as crianças, já ajuda muito”, pede. A rede do campo também entrou na lista de prioridades, especialmente por causa da participação da equipe em competições.
Impacto social do Bonsucesso
De acordo com Walmir, o trabalho vai além do futebol. “A maior importância dessas crianças estarem aqui é tirar elas da rua e fazer delas cidadãos”, ressalta. Embora alguns atletas tenham seguido carreira, ele reforça que o principal objetivo é oferecer acolhimento, disciplina e convivência. “O mais importante é a criança não estar na rua. O esporte ocupa o tempo dela e hoje em dia é saúde para todos eles”, reflete.
Ao longo dos anos, nomes conhecidos passaram pelo projeto ou tiveram ligação com a comunidade, como Marcelo, vítima da tragédia da Chapecoense, e outros jogadores que seguiram no futebol. Ainda assim, Walmir insiste que o foco continua sendo a formação humana. “Aqui, criança carente treina do mesmo jeito. A gente não trabalha com essa ideia de que, se não pagar, não treina. Aqui não é assim. O importante é salvar a vida dessas crianças”, explica.
Apesar das dificuldades, a escolinha segue mobilizada para reconstruir o espaço e manter o atendimento. Entre os planos para o restante do ano estão melhorias no campo e a criação de uma quadra menor para treinos em dias sem condição de uso do gramado. “Para o restante do ano, a ideia é reestruturar e melhorar o campo”, diz.
Enquanto isso, o apelo é por apoio da comunidade. “Quem quiser ajudar, qualquer ajuda é bem-vinda. O mais urgente para a gente hoje é bola, para continuar o trabalho com as crianças”, pede Walmir. No meio dos estragos deixados pela chuva, ele resume o que considera essencial no projeto: “Mais do que tudo, é ver a alegria no rostinho delas”.

